Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Crase — Instituto Consulplan 2024

PortuguêsCrase
Código
qa595758
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
Pref Iúna
Ano
2024
Cargo
Aux Adm ( )

A cartomante

 

Não havia dúvida que naqueles atrasos e atrapalhações de sua vida alguma influência misteriosa preponderava. Era ele tentar qualquer coisa, logo tudo mudava. Esteve quase para arranjar-se na saúde pública; mas assim que obteve um bom “pistolão”, toda a política mudou. Se jogava no bicho, era sempre o grupo seguinte ou o anterior que dava. Tudo parecia mostrar-lhe que ele não deveria ir para diante. Se não fossem as costuras da mulher, não sabia bem como poderia ter vivido até ali. Há cinco anos que não recebia vintém de seu trabalho. Uma nota de dois mil-réis, se alcançava ter na algibeira por vezes, era obtida com o auxílio de não sabia quantas humilhações, apelando para a generosidade dos amigos.

 

Queria fugir, fugir para bem longe, onde a sua miséria atual não tivesse o realce da prosperidade passada; mas, como fugir? Onde havia de buscar dinheiro que o transportasse, a ele, à mulher e aos filhos? Viver assim era terrível! Preso à sua vergonha como a uma calceta,(b) sem que nenhum código e juiz tivessem condenado, que martírio!

 

A certeza, porém, de que todas as suas infelicidades vinham de uma influência misteriosa, deu-lhe mais alento. Se era “coisa-feita”, havia de haver por força quem a desfizesse. Acordou mais alegre e se não falou à mulher alegremente era porque ela já havia saído.(d)

 

Pobre de sua mulher! Avelhantada precocemente, trabalhando que nem uma moura, doente, entretanto a sua fragilidade transformava-se em energia para manter o casal.

 

Ela saía, virava a cidade, trazia costuras, recebia dinheiro, e aquele angustioso lar ia se arrastando, graças aos esforços da esposa.

 

Bem! As coisas iam mudar! Ele iria a uma cartomante e havia de descobrir o que é que atrasava sua vida.

 

Saiu, foi à venda e consultou o jornal.(a) Havia muitos videntes, espíritas, teósofos anunciados; mas simpatizou com uma cartomante, cujo anúncio dizia assim: “Madame Dadá, sonâmbula, extralúcida, deita as cartas e desfaz toda a espécie de feitiçaria, principalmente a africana. Rua, etc.”.

 

Não quis procurar outra; era aquela, pois já adquirira a convicção de que aquela sua vida vinha sendo trabalhada pela mandinga de algum preto-mina, a soldo do seu cunhado, Castrioto, que jamais vira com bons olhos o seu casamento com a irmã.

 

Arranjou com o primeiro conhecido que encontrou o dinheiro necessário, e correu depressa para a casa de Madame Dadá.

 

O mistério ia desfazer-se e o malefício ser cortado. A abastança voltaria a casa; compraria um terno para Zezé, umas botinas para Alice, a filha mais moça; e aquela cruciante vida de cinco anos havia de lhe ficar na memória como passageiro pesadelo.

 

Pelo caminho tudo lhe sorria. Era o sol muito claro, e doce, um sol de junho; eram as fisionomias risonhas dos transeuntes; e o mundo que até ali lhe aparecia mau e turvo, repentinamente lhe surgia claro e doce.

 

Entrou, esperou um pouco, com o coração a lhe saltar do peito.

 

O consulente saiu e ele foi afinal à presença da pitonisa.(c) Era sua mulher.

 

(Contos completos de Lima Barreto. Por: Lima Barreto. 2010. Adaptado.)

A crase é o fenômeno da contração da preposição “a” com o artigo feminino “a” e com certos pronomes cuja letra inicial também é o “a”.   Seu uso pode ser considerado facultativo em:
  1. A“Saiu, foi à venda e consultou o jornal.”
  2. B“Preso à sua vergonha como a uma calceta, [...]”
  3. C“O consulente saiu e ele foi afinal à presença da pitonisa.”
  4. D“Acordou mais alegre e se não falou à mulher alegremente era porque ela já havia saído.”
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — “Preso à sua vergonha como a uma calceta, [...]”

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Crase facultativa: o caso do pronome possessivo

Gabarito: letra B. A crase é facultativa antes de pronome possessivo feminino singular (adjetivo), como em "à sua vergonha". A regra: quando o termo regido admite o artigo "a", mas este é dispensável diante do possessivo, o acento grave pode ou não aparecer. No trecho "Preso à sua vergonha como a uma calceta", o "à" poderia ser substituído por "a" sem prejuízo gramatical: "Preso a sua vergonha". As demais alternativas apresentam crase obrigatória (locução adverbial, locução prepositiva, verbo que exige preposição + artigo).

O comando da questão

A questão pede que você identifique em qual trecho o uso da crase é facultativo. Isso significa que, naquele contexto, o acento grave pode ser empregado ou omitido, sem que a frase se torne incorreta. Não se trata de interpretação de texto, mas de aplicação de regra gramatical — especificamente, os casos de crase facultativa.

A regra que decide

A crase é facultativa em três situações clássicas:

  1. Antes de pronome possessivo feminino singular (adjetivo): "Referi-me a/à minha amiga".

  2. Antes de nome próprio feminino: "Entreguei o pacote a/à Maria".

  3. Depois da preposição "até": "Fui até a/à praia".

No caso da alternativa B, temos "Preso à sua vergonha". O verbo "preso" (no sentido de "ligado", "apegado") rege a preposição "a". O substantivo "vergonha" é feminino e admite o artigo "a". Porém, entre a preposição e o substantivo, aparece o pronome possessivo "sua". Como o possessivo pode ser precedido ou não de artigo, a crase torna-se facultativa: "Preso a sua vergonha" ou "Preso à sua vergonha" — ambas corretas.

PEGA ESSA DICA!

Para testar se a crase é facultativa, substitua o termo feminino por um masculino equivalente. Se o masculino admitir "ao" (preposição + artigo), a crase é obrigatória; se admitir apenas "a" (preposição sem artigo), a crase é proibida; se admitir ambos, é facultativa. Ex.: "Preso ao seu orgulho" (obrigatória) vs. "Preso a seu orgulho" (facultativa).

Análise das alternativas

Crase facultativa
  • 1Antes de pronome possessivo feminino singular
    • "Referi-me a/à minha amiga"
  • 2Antes de nome próprio feminino
    • "Entreguei o pacote a/à Maria"
  • 3Depois da preposição "até"
    • "Fui até a/à praia"
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Saiu, foi à venda e consultou o jornal."

A crase em "à venda" é obrigatória porque "venda" é um substantivo feminino que admite artigo definido "a", e o verbo "ir" exige a preposição "a". A fusão é obrigatória: "ir a + a venda = ir à venda". Não há pronome possessivo ou outra condição que torne o artigo dispensável. Erro: generalização — a alternativa tenta passar um caso obrigatório como facultativo.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Preso à sua vergonha como a uma calceta, [...]"

A crase em "à sua vergonha" é facultativa porque o pronome possessivo "sua" pode ser precedido ou não de artigo. A preposição "a" (exigida por "preso") pode se fundir com o artigo "a" (que antecede o possessivo) ou não: "Preso a sua vergonha" ou "Preso à sua vergonha". Ambas as formas são corretas. Esta é a única alternativa que apresenta crase facultativa.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"O consulente saiu e ele foi afinal à presença da pitonisa."

A crase em "à presença" é obrigatória porque "presença" é um substantivo feminino que admite artigo definido "a", e o verbo "ir" exige a preposição "a". A fusão é obrigatória: "ir a + a presença = ir à presença". Não há condição de facultabilidade. Erro: generalização — a alternativa tenta passar um caso obrigatório como facultativo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Acordou mais alegre e se não falou à mulher alegremente era porque ela já havia saído."

A crase em "à mulher" é obrigatória porque "mulher" é um substantivo feminino que admite artigo definido "a", e o verbo "falar" exige a preposição "a". A fusão é obrigatória: "falar a + a mulher = falar à mulher". Não há pronome possessivo ou outra condição que torne o artigo dispensável. Erro: generalização — a alternativa tenta passar um caso obrigatório como facultativo.

Conclusão

A única alternativa que apresenta crase facultativa é a letra B, pois o pronome possessivo "sua" permite a omissão do artigo, tornando o acento grave opcional. As demais alternativas apresentam crase obrigatória, pois o substantivo feminino exige o artigo e o verbo exige a preposição, sem possibilidade de omissão.

Gabarito: letra B

Link permanente: /questoes/qa595758