Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — INSTITUTO AOCP 2024
Português›Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
qa597726
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
Pref Uberaba
Ano
2024
Cargo
Esp S I ( )
Instruções para chorar
Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicamente.
Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca.
Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão esfregando a manga do casaco na cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos.
CORTÁZAR, Júlio. Instruções para chorar. In: Histórias de cronópios e de famas. São Paulo: Editora Best Seller, 2013.
Assinale a alternativa em que o valor semântico entre parênteses corresponda ao termo ou expressão sublinhada.
A“O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicamente (causa).”.
B“Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro (proporção).”.
C“Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca (destino).”.
D“Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca (causa).”.
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GabaritoD — “Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca (causa).”.
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Valor semântico de conectivos e expressões em "Instruções para chorar"
Gabarito: letra D. A alternativa D é a única em que o valor semântico indicado entre parênteses corresponde ao termo sublinhado: em "por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior", a expressão "por" introduz uma causa — o motivo pelo qual "isto" (dirigir a imaginação a si mesmo) é impossível. Como se lê no 2º parágrafo: "se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior" — o "por" explica a razão da impossibilidade.
A questão pede que você identifique a relação semântica (causa, proporção, destino) estabelecida por um termo ou expressão sublinhada no texto. Isso é uma tarefa de interpretação de conectivos e operadores argumentativos: você deve reconhecer que valor lógico a palavra destacada imprime à oração em que aparece. Não se trata de decorar a classe gramatical, mas de perceber o efeito de sentido que o termo cria no contexto.
O texto de Cortázar é uma "instrução" irônica sobre como chorar. No 2º parágrafo, o autor sugere que, para chorar, a pessoa deve dirigir a imaginação a si mesma; porém, se isso for impossível — porque ela adquiriu o hábito de acreditar no mundo exterior —, deve pensar em um pato coberto de formigas. A relação entre "ser impossível" e "ter adquirido o hábito" é de causa e consequência: o hábito é a causa da impossibilidade. É exatamente isso que a alternativa D aponta.
A técnica para resolver: teste cada alternativa substituindo o termo sublinhado por um conectivo típico do valor indicado. Se a substituição preservar o sentido, o valor está correto; se mudar o sentido ou criar um absurdo, está errado. Por exemplo, em "por ter adquirido", troque por "porque adquiriu" — a frase continua lógica e com o mesmo sentido causal. Já em "usando ambas as mãos", trocar por "à proporção que usa" (proporção) não faz sentido; o correto seria "à medida que" ou "enquanto", mas o texto indica modo/meio, não proporção.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre causa e finalidade/destino. Em "Para chorar", o "para" indica finalidade (o objetivo de chorar), não destino. Já em "por ter adquirido", o "por" indica causa. A alternativa C tenta fazer você aceitar "destino" para o mesmo trecho da D, mas o valor real é causal.
Valor semântico de conectivos: Causa (por quê?) ("por ter adquirido" → [+] causa); Finalidade (para quê?) ("Para chorar" → finalidade); Proporção (à medida que?) ("usando" → modo/meio, não proporção); Explicação (justifica) ("pois" → explica, não causa)
Alternativa A — ❌ Incorreta
"O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicamente (causa)."
O valor indicado é causa, mas o "pois" aqui estabelece uma relação de explicação, não de causa. O autor não diz que o choro acaba porque a pessoa se assoa; ele explica que o choro termina no momento em que a pessoa se assoa. A relação é de justificativa/explicação do que foi dito antes (o choro acaba quando se assoa), não de causa e efeito. A alternativa troca o conceito: confunde explicação com causa.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro (proporção)."
O valor indicado é proporção, mas "usando" expressa modo/meio — a maneira como você cobrirá o rosto. Não há ideia de proporção (como em "à medida que", "quanto mais... mais"). A alternativa extrapola: atribui ao gerúndio um valor semântico que ele não tem no contexto. O correto seria "de que modo? Usando ambas as mãos".
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca (destino)."
O valor indicado é destino, mas "por ter adquirido" expressa causa — o motivo da impossibilidade. A alternativa troca o conceito: confunde causa com destino. O "por" é uma preposição que introduz uma oração subordinada adverbial causal (equivale a "porque adquiriu"). Não há qualquer ideia de destino (direção, finalidade) nesse trecho.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca (causa)."
Aqui o valor indicado é causa, e está correto. O "por" introduz a razão pela qual "isto" (dirigir a imaginação a si mesmo) é impossível: a pessoa adquiriu o hábito de acreditar no mundo exterior. A relação é de causa e consequência: o hábito (causa) torna impossível a introspecção (consequência). A substituição por "porque" mantém o sentido: "se isto lhe for impossível porque adquiriu o hábito...". É a única alternativa em que o valor semântico indicado corresponde exatamente ao termo sublinhado.
Conclusão: a questão testa sua capacidade de reconhecer o valor semântico dos conectivos no contexto. A alternativa D é a correta porque "por" expressa causa; as demais erram ao atribuir valores que não correspondem ao termo (explicação, modo, destino). Lembre-se: causa responde a "por quê?"; finalidade responde a "para quê?"; proporção responde a "à medida que?". Teste cada alternativa substituindo o termo por um conectivo típico do valor indicado — se o sentido mudar, está errada.