Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — INSTITUTO AOCP 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa597792
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
Pref Uberaba
Ano
2024
Cargo
Esp S I ( )
Instruções para cantar
Comece por quebrar os espelhos de sua casa, deixe cair os braços, olhe vagamente a parede, esqueça. Cante uma nota só, escute por dentro. Se ouvir (mas isto acontecerá muito depois) algo como uma paisagem afundada no medo, com fogueiras entre as pedras, com silhuetas seminuas de cócoras, acho que estará bem encaminhado, e do mesmo modo se ouvir um rio por onde descem barcos pintados de amarelo e preto, se ouvir um gosto de pão, um tato de dedos, uma sombra de cavalo.
Depois compre cadernos de solfejo e uma casaca, e por favor não cante pelo nariz e deixe Schumann em paz.
CORTÁZAR, Júlio. Instruções para chorar. In: Histórias de cronópios e de famas. São Paulo: Editora Best Seller, 2013.
Em relação ao texto “Instruções para cantar”, analise as assertivas e assinale a alternativa que aponta a(s) correta(s).
I. O texto é escrito em prosa, dividido em parágrafos e poderia ser classificado como uma crônica, apesar de possuir traços de injunção.
II. Há uma espécie de ironia ou sarcasmo na conclusão do texto, no trecho: “e por favor não cante pelo nariz e deixe Schumann em paz”.
III. Consideradas as instruções dadas pelo narrador, pode-se afirmar, com alto grau de certeza, que o narrador entende bastante de música.
IV. No que diz respeito a alguns verbos empregados, é possível estabelecer uma comparação entre o texto “Instruções para cantar” e os anúncios publicitários em geral.
AApenas I.
BApenas I, II e IV.
CApenas I e II.
DApenas I e III.
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GabaritoB — Apenas I, II e IV.
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Análise das assertivas sobre o texto “Instruções para cantar”
Gabarito: letra B (Apenas I, II e IV). A assertiva I está correta porque o texto é escrito em prosa, dividido em parágrafos e, apesar de ter traços de injunção (verbos no imperativo), pode ser classificado como crônica, gênero que narra fatos cotidianos com intenção poética ou crítica. A assertiva II está correta porque o trecho final “e por favor não cante pelo nariz e deixe Schumann em paz” apresenta ironia, ao misturar uma recomendação prática com uma referência erudita de forma sarcástica. A assertiva IV está correta porque os verbos no imperativo (“quebre”, “deixe”, “cante”, “compre”) aproximam o texto dos anúncios publicitários, que também usam esse modo verbal para orientar o leitor. A assertiva III está incorreta porque o texto não fornece elementos suficientes para afirmar, com alto grau de certeza, que o narrador entende bastante de música; as instruções são poéticas e subjetivas, não técnicas.
O comando pede que se analisem as assertivas e se assinale a alternativa que aponta a(s) correta(s). Trata-se de uma questão de compreensão e interpretação de texto, em que é preciso verificar cada afirmação à luz do que está escrito (ou logicamente pressuposto) no texto-base. A banca mistura itens de compreensão (localizar informações explícitas) com itens de interpretação (inferir sentidos implícitos, como a ironia). O candidato deve, portanto, ler o texto com atenção e testar cada assertiva, perguntando: “o texto autoriza esta afirmação?”.
O texto “Instruções para cantar”, de Júlio Cortázar, é um texto injuntivo (traz instruções) com forte carga poética e irônica. O narrador dá orientações absurdas e subjetivas (“quebre os espelhos de sua casa”, “cante uma nota só, escute por dentro”), misturando sensações (“um gosto de pão, um tato de dedos, uma sombra de cavalo”) e referências eruditas (“deixe Schumann em paz”). A tese implícita é a de que cantar não é uma técnica, mas uma experiência sensorial e intuitiva. Essa mistura de injunção com lirismo é o que permite classificá-lo como crônica, gênero que transita entre o cotidiano e a reflexão poética.
A técnica central para resolver a questão é distinguir o que está explícito (compreensão) do que é inferência legítima (interpretação). A assertiva III é o distrator clássico: ela extrapola, pois o texto não afirma que o narrador entende de música; ele apenas dá instruções poéticas. A banca explora a tendência do candidato de “completar” o texto com conhecimento de mundo (achar que quem fala de Schumann e solfejo entende de música), mas isso não está autorizado pelo texto. A assertiva II, por sua vez, exige inferência: a ironia não está dita, mas é perceptível no tom do trecho final, que mistura uma recomendação banal (“não cante pelo nariz”) com uma ordem erudita (“deixe Schumann em paz”), criando um efeito de sarcasmo.
Assertivas sobre o texto
1I — Prosa, crônica com traços de injunção
Correta
2II — Ironia/sarcasmo no trecho final
Correta
3III — Narrador entende de música
Incorreta (extrapolação)
4IV — Verbos no imperativo como anúncios
Correta
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Assertiva I — ✅ Correta
A assertiva I afirma que o texto é escrito em prosa, dividido em parágrafos e poderia ser classificado como crônica, apesar de possuir traços de injunção. Isso está correto. O texto é claramente em prosa (não é verso) e está dividido em dois parágrafos. Quanto ao gênero, trata-se de uma crônica, pois narra/reflete sobre um aspecto do cotidiano (cantar) com intenção poética e irônica, como se vê no trecho:
“Comece por quebrar os espelhos de sua casa, deixe cair os braços, olhe vagamente a parede, esqueça.”
A presença de verbos no imperativo (“comece”, “deixe”, “olhe”, “esqueça”, “cante”, “compre”) confere traços de injunção, mas isso não impede a classificação como crônica, pois o gênero é flexível e pode incorporar outros tipos textuais. A assertiva está correta.
Assertiva II — ✅ Correta
A assertiva II afirma que há ironia ou sarcasmo na conclusão do texto, no trecho: “e por favor não cante pelo nariz e deixe Schumann em paz”. Isso está correto. A ironia está na quebra de expectativa: após instruções poéticas e subjetivas, o narrador termina com uma recomendação prática e banal (“não cante pelo nariz”) seguida de uma ordem erudita e autoritária (“deixe Schumann em paz”). O tom é sarcástico porque mistura o trivial com o erudito, sugerindo que a “técnica” de cantar é, na verdade, uma piada. A ironia é uma figura de pensamento em que se diz o contrário do que se quer significar, e aqui o efeito é claramente irônico. A assertiva está correta.
Assertiva III — ❌ Incorreta
A assertiva III afirma que, consideradas as instruções dadas pelo narrador, pode-se afirmar, com alto grau de certeza, que o narrador entende bastante de música. Isso está incorreto. O texto não fornece elementos para essa conclusão. As instruções são poéticas e subjetivas, não técnicas:
“Cante uma nota só, escute por dentro. Se ouvir (mas isto acontecerá muito depois) algo como uma paisagem afundada no medo...”
Não há menção a teoria musical, técnica vocal ou qualquer conhecimento especializado. A referência a “cadernos de solfejo” e “Schumann” pode sugerir algum contato com o universo musical, mas isso não autoriza afirmar, com alto grau de certeza, que o narrador entende bastante de música. A assertiva extrapola: acrescenta uma informação que não está no texto. O erro é de extrapolação.
Assertiva IV — ✅ Correta
A assertiva IV afirma que, no que diz respeito a alguns verbos empregados, é possível estabelecer uma comparação entre o texto “Instruções para cantar” e os anúncios publicitários em geral. Isso está correto. Tanto o texto quanto os anúncios publicitários utilizam verbos no modo imperativo para orientar o leitor:
“Depois compre cadernos de solfejo e uma casaca, e por favor não cante pelo nariz e deixe Schumann em paz.”
Os verbos “compre”, “cante”, “deixe” estão no imperativo, modo verbal típico de textos injuntivos e publicitários, que buscam influenciar o comportamento do interlocutor. A comparação é válida, pois ambos os gêneros usam o imperativo como recurso persuasivo. A assertiva está correta.
Conclusão: As assertivas I, II e IV estão corretas, e a III está incorreta. Portanto, a alternativa que aponta a(s) correta(s) é a letra B (Apenas I, II e IV). A regra de ouro desta questão é: desconfie de afirmações que exigem “alto grau de certeza” sobre algo que o texto não afirma explicitamente — isso é extrapolação. Sempre teste cada assertiva perguntando: “o texto autoriza isto?”.