Questão de Português — Vocábulo "Que" — INSTITUTO AOCP 2024
Português›Vocábulo "Que"
Código
qa599125
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
Pref Angra
Ano
2024
Cargo
Doc ( )
Um clássico da literatura brasileira, com adaptações para a televisão, o cinema e o teatro, O Meu Pé de Laranja Lima é desses livros que marcam época. Lançado em 1968, trata-se de uma história fortemente autobiográfica, que demonstra a mão de um escritor experiente, ciente do efeito que pode provocar nos leitores com suas cenas e com a composição de seus personagens.
O protagonista Zezé tem 6 anos e mora num bairro modesto, na zona norte do Rio de Janeiro. O pai está desempregado, e a família passa por dificuldades. O menino vive aprontando, sem jamais se conformar com as limitações que o mundo lhe impõe – viaja com sua imaginação, brinca, explora, descobre, responde aos adultos, mete-se em confusões, causa pequenos desastres.
As surras que lhe aplicam seu pai e sua irmã mais velha são seu suplício, a ponto de fazê-lo querer desistir da vida. No entanto, o apego ao mundo que criou felizmente sempre fala mais alto. Só não há remédio para a dor, para a perda. E Zezé muito cedo descobre isso.
A alegria e a tristeza não poderiam estar mais bem combinadas do que nestas páginas. E isso, se não explica, justifica a imensa popularidade alcançada pelo livro.
Adaptado de: AGUIAR, L. A. A literatura de O meu Pé de Laranja
Lima. In: VASCONCELLOS, J. M. O Meu Pé de Laranja Lima. São
Paulo: Melhoramentos, 2019.
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Em “Lançado em 1968, trata-se de uma história fortemente autobiográfica, que demonstra a mão de um escritor experiente, ciente do efeito que pode provocar nos leitores com suas cenas e com a composição de seus personagens.”, os empregos do “que”
Aintroduzem uma ressalva e uma generalização, respectivamente.
Bconectam orações que qualificam e especificam, respectivamente, seus referentes.
Cintroduzem orações que expressam condições.
Dintroduzem orações que funcionam como sujeitos.
Eretomam um único referente: “uma história fortemente bibliográfica”.
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GabaritoB — conectam orações que qualificam e especificam, respectivamente, seus referentes.
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Funções do "que" no trecho: pronome relativo e conjunção integrante
Gabarito: letra B. Os dois "que" do trecho exercem funções distintas: o primeiro é pronome relativo (retoma "uma história fortemente autobiográfica" e introduz uma oração adjetiva que a qualifica), e o segundo é conjunção integrante (introduz uma oração substantiva que especifica o conteúdo do substantivo "efeito"). Como se lê no trecho: "que demonstra a mão de um escritor experiente, ciente do efeito que pode provocar nos leitores".
O comando da questão
A questão pede que se identifique a função sintática de cada ocorrência do vocábulo "que" no trecho destacado. Não se trata de interpretação de sentido, mas de análise morfossintática: é preciso reconhecer que a mesma palavra pode assumir papéis diferentes conforme o contexto. O comando "os empregos do 'que'" já sinaliza que há dois usos distintos a serem analisados — e a alternativa correta precisa descrever corretamente cada um deles, na ordem em que aparecem.
O texto e a localização da resposta
O trecho em análise é o primeiro parágrafo do texto-base:
"Lançado em 1968, trata-se de uma história fortemente autobiográfica, que demonstra a mão de um escritor experiente, ciente do efeito que pode provocar nos leitores com suas cenas e com a composição de seus personagens."
O primeiro "que" aparece logo após "autobiográfica" e retoma esse termo. O segundo "que" aparece após "efeito" e introduz a informação sobre o que esse efeito pode fazer. A distinção entre os dois é o coração da questão.
A técnica que decide: pronome relativo × conjunção integrante
O vocábulo "que" tem mais de dez classificações, mas as três que mais aparecem em provas são: pronome relativo, conjunção integrante e partícula expletiva. Para diferenciá-los, use dois testes clássicos:
Teste do pronome relativo: o "que" pode ser substituído por "o qual / a qual / os quais / as quais" e retoma um termo anterior (o antecedente). Ex.: "a história que demonstra" → "a história a qual demonstra".
Teste da conjunção integrante: a oração que ele introduz pode ser trocada por "isso". Ex.: "ciente do efeito que pode provocar" → "ciente do efeito disso" (o "que" inicia a oração "pode provocar nos leitores", que funciona como complemento de "efeito").
Aplicando ao trecho:
Primeiro "que": "uma história fortemente autobiográfica, que demonstra a mão de um escritor experiente" → substituível por "a qual" ("uma história fortemente autobiográfica, a qual demonstra..."). É pronome relativo, e a oração que introduz é adjetiva restritiva — ela qualifica o antecedente "história", acrescentando uma característica (demonstra a mão de um escritor experiente).
Segundo "que": "ciente do efeito que pode provocar nos leitores" → a oração "pode provocar nos leitores" funciona como complemento nominal de "efeito" (o efeito de quê? de poder provocar nos leitores). O "que" é conjunção integrante, e a oração é substantiva completiva nominal — ela especifica o conteúdo do substantivo "efeito".
A alternativa B captura exatamente essa distinção: o primeiro "que" conecta uma oração que qualifica o referente (a história), e o segundo conecta uma oração que especifica o referente (o efeito).
"introduzem uma ressalva e uma generalização, respectivamente."
Erro: troca de conceito. O primeiro "que" não introduz ressalva (ideia de oposição/limitação, típica de conjunções concessivas como "embora"), e o segundo não introduz generalização (ideia de ampliação, típica de pronomes indefinidos). Ambos os "que" têm função sintática, não valor semântico de ressalva ou generalização.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"conectam orações que qualificam e especificam, respectivamente, seus referentes."
Correta. O primeiro "que" (pronome relativo) introduz oração adjetiva que qualifica "história" — acrescenta a característica de "demonstrar a mão de um escritor experiente". O segundo "que" (conjunção integrante) introduz oração substantiva que especifica o conteúdo de "efeito" — diz exatamente o que esse efeito pode fazer (provocar nos leitores). A ordem "respectivamente" está correta: primeiro qualifica, depois especifica.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"introduzem orações que expressam condições."
Erro: contradiz o texto. Orações condicionais são introduzidas por conjunções como "se", "caso", "contanto que" — nunca por "que" nesse contexto. Nenhuma das duas orações expressa condição ("se X, então Y"); a primeira é adjetiva e a segunda é substantiva.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"introduzem orações que funcionam como sujeitos."
Erro: troca de conceito. Apenas orações substantivas subjetivas funcionam como sujeito (ex.: "É importante que você estude"). Aqui, a segunda oração funciona como complemento nominal de "efeito", não como sujeito. A primeira é adjetiva, e orações adjetivas nunca funcionam como sujeito.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"retomam um único referente: 'uma história fortemente bibliográfica'."
Erro: contradiz o texto + troca de conceito. O primeiro "que" retoma "história", mas o segundo não retoma nada — é conjunção integrante, sem antecedente. Além disso, há um erro material: o texto diz "autobiográfica", não "bibliográfica". A alternativa tenta unificar os dois "que" como se fossem pronomes relativos com o mesmo referente, o que é falso.
Conclusão
A questão testa a polissemia sintática do "que": a mesma palavra pode ser pronome relativo (retomando um termo e introduzindo oração adjetiva) ou conjunção integrante (introduzindo oração substantiva). O teste decisivo é a substituição: "a qual" para pronome relativo, "isso" para conjunção integrante. A alternativa B é a única que descreve corretamente as duas funções, na ordem em que aparecem.
PEGA ESSA DICA!
Ao encontrar dois "que" no mesmo período, identifique primeiro se há um antecedente (substantivo ou pronome antes do "que"). Se houver e o "que" puder ser trocado por "o qual", é pronome relativo. Se não houver antecedente e a oração puder ser trocada por "isso", é conjunção integrante.