Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Quadrix 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa600783
Banca
Quadrix
Órgão
CRO AM
Ano
2024
Cargo
Adv ( )

O retrato

 


O meu querido amigo Emílio Rouède, que há dias faleceu, foi um homem espirituoso, que forneceria matéria para muitos contos ligeiros.


Em vez de inventar uma anedota, vou contar‑vos uma historieta em que ele figurou, e que tem, por conseguinte, o mérito de ser autêntica.


A coisa passou‑se há um quarto de século pouco mais ou menos. Emílio Rouède tinha se casado havia poucos meses, e estava estabelecido com fotografia na Rua dos Ourives, numa casa que foi demolida quando se tratou de construir a Avenida Central.


Um dia Mme. Rouède, que era uma linda senhora, saiu sozinha à rua, e foi acompanhada por um impertinente que, vendo‑a sorrir, supôs que ela sorrisse não dele mas para ele.


Ela entendeu que o mais prudente era voltar para casa, e assim fez; o conquistador, porém, continuou a segui‑la imperturbavelmente.


Chegando à porta da casa, a moça olhou para trás, a fim de verificar se continuava a perseguição, e esse movimento animou o homenzinho, ao que parece: quando ela entrou, ele entrou também; ela subiu a escada, ele também subiu.


Emílio Rouède estava no atelier, de blusa, a trabalhar, e, ouvindo os passos de sua esposa, foi esperá‑la no topo da escada.

 
O sujeito, quando reparou que havia ali um homem, não teve mais tempo de fugir. Mme. Rouède apresentou‑o ao marido:


– Aqui tens este senhor que me tem acompanhado por toda parte, e entrou comigo. Não sei o que pretende.


– Sei eu, acudiu prontamente o fotógrafo. ‑ Pretende tirar o retrato; não pode ser outra coisa. E voltando‑se para o desconhecido, perguntou‑lhe olhando por cima dos óculos, segundo o seu costume.


– Busto ou corpo inteiro?


O pobre diabo, que não sabia mais de que freguesia era, gaguejou:


– Busto... busto...


– Faça favor.


E levou uma hora a tirar‑lhe o retrato que foi pago, ficando o retratado de ir buscá‑lo daí a três ou quatro dias. Este queria apenas meia dúzia, mas Emílio Rouède convenceu‑o de que devia encomendar duas dúzias e meia.


Quando o freguês saiu, Emílio Rouède disse à esposa, que ria a bandeiras despregadas:


– Tenho pena de não ser dentista, em vez de fotógrafo!


Escusado é dizer que os retratos ficaram na fotografia.


Artur Azevedo.

Texto para responder o item abaixo.   Em realação aos aspectos gerais do texto, julgue o item abaixo.   Como se anuncia no primeiro parágrafo, ao se falar da morte de um amigo, o texto tem um tom melancólico.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Tom do texto: humor e ironia, não melancolia

Gabarito: letra E (Errado). A afirmação de que o texto tem "tom melancólico" por se falar da morte de um amigo é incorreta: o texto é uma narrativa humorística e irônica, e a menção à morte no primeiro parágrafo é apenas um recurso introdutório para contar uma "historieta" engraçada. A prova está no próprio desenrolar da narrativa, repleta de situações cômicas, como o fotógrafo que "convenceu-o de que devia encomendar duas dúzias e meia" de retratos e a fala final: "Tenho pena de não ser dentista, em vez de fotógrafo!".

O comando: julgar o tom do texto

A questão pede que você julgue se o texto tem um tom melancólico. Isso é uma questão de compreensão global: você precisa captar a intenção predominante do autor. Não se trata de localizar uma informação explícita, mas de perceber o efeito de sentido que o texto produz como um todo. O comando "julgar" exige que você avalie a afirmação à luz do texto inteiro, não apenas do primeiro parágrafo.

O texto: uma historieta cômica

O texto "O retrato", de Artur Azevedo, é uma crônica narrativa que conta uma anedota protagonizada por Emílio Rouède, um fotógrafo. A situação é cômica: um homem segue a esposa do fotógrafo até sua casa, e o marido, em vez de se irritar, aproveita a situação para vender um serviço, fazendo o perseguidor tirar um retrato e ainda convencendo-o a encomendar "duas dúzias e meia" de cópias. O desfecho é irônico: o fotógrafo lamenta não ser dentista, pois poderia arrancar um dente do importuno, e os retratos ficam na fotografia, ou seja, o "freguês" foi enganado.

O tom predominante é de humor e ironia. Veja os indícios:

  • A esposa "ria a bandeiras despregadas" (riso intenso).

  • O fotógrafo age com fingida naturalidade, tratando o perseguidor como um cliente.

  • A fala final é uma piada: "Tenho pena de não ser dentista, em vez de fotógrafo!" — ou seja, ele gostaria de ter causado mais dano ao importuno.

  • O último parágrafo: "Escusado é dizer que os retratos ficaram na fotografia" — confirma que o perseguidor foi ludibriado.

Nada disso é melancólico. A morte do amigo, mencionada no início, é apenas um pretexto para introduzir a história: "Em vez de inventar uma anedota, vou contar-vos uma historieta em que ele figurou". O autor não lamenta a morte; ele a usa como gancho para narrar um caso engraçado.

A técnica: tom ≠ tema

A banca explora uma confusão comum: associar a menção à morte a um tom triste. Mas o tom (ou atitude do autor) é diferente do tema (o assunto). O tema pode ser a morte, mas o tom pode ser irônico, crítico, humorístico etc. Aqui, o autor trata a morte de forma leve e bem-humorada, pois o foco é a anedota.

NÃO CAIA NESSA!

A banca usa a palavra "morte" no primeiro parágrafo para ativar seu conhecimento de mundo (morte = tristeza) e fazer você extrapolar um tom melancólico que o texto não tem. A resposta correta exige que você ignore o senso comum e se atenha ao que o texto realmente faz: contar uma piada.

Análise da alternativa

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o texto tem tom melancólico. Isso contradiz o texto, que é claramente humorístico. A menção à morte é apenas introdutória; o desenvolvimento é uma comédia de enganos. Portanto, a alternativa está errada.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa nega o tom melancólico, e isso está correto. O texto é uma narrativa cômica, com ironia e humor, como se vê na reação do fotógrafo e no desfecho. A morte do amigo é tratada com leveza, servindo apenas de moldura para a historieta. Portanto, a afirmação do enunciado é falsa.

Conclusão

Para resolver questões de tom, pergunte-se: qual é a atitude do autor diante do assunto? Não confunda o assunto (morte) com o tratamento dado a ele (humor). Aqui, o texto é uma piada, não um lamento. Gabarito: letra E (Errado).

Link permanente: /questoes/qa600783