Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — Quadrix 2024

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
qa600789
Banca
Quadrix
Órgão
CRO AM
Ano
2024
Cargo
Adv ( )

O retrato

 


O meu querido amigo Emílio Rouède, que há dias faleceu, foi um homem espirituoso, que forneceria matéria para muitos contos ligeiros.


Em vez de inventar uma anedota, vou contar‑vos uma historieta em que ele figurou, e que tem, por conseguinte, o mérito de ser autêntica.


A coisa passou‑se há um quarto de século pouco mais ou menos. Emílio Rouède tinha se casado havia poucos meses, e estava estabelecido com fotografia na Rua dos Ourives, numa casa que foi demolida quando se tratou de construir a Avenida Central.


Um dia Mme. Rouède, que era uma linda senhora, saiu sozinha à rua, e foi acompanhada por um impertinente que, vendo‑a sorrir, supôs que ela sorrisse não dele mas para ele.


Ela entendeu que o mais prudente era voltar para casa, e assim fez; o conquistador, porém, continuou a segui‑la imperturbavelmente.


Chegando à porta da casa, a moça olhou para trás, a fim de verificar se continuava a perseguição, e esse movimento animou o homenzinho, ao que parece: quando ela entrou, ele entrou também; ela subiu a escada, ele também subiu.


Emílio Rouède estava no atelier, de blusa, a trabalhar, e, ouvindo os passos de sua esposa, foi esperá‑la no topo da escada.

 
O sujeito, quando reparou que havia ali um homem, não teve mais tempo de fugir. Mme. Rouède apresentou‑o ao marido:


– Aqui tens este senhor que me tem acompanhado por toda parte, e entrou comigo. Não sei o que pretende.


– Sei eu, acudiu prontamente o fotógrafo. ‑ Pretende tirar o retrato; não pode ser outra coisa. E voltando‑se para o desconhecido, perguntou‑lhe olhando por cima dos óculos, segundo o seu costume.


– Busto ou corpo inteiro?


O pobre diabo, que não sabia mais de que freguesia era, gaguejou:


– Busto... busto...


– Faça favor.


E levou uma hora a tirar‑lhe o retrato que foi pago, ficando o retratado de ir buscá‑lo daí a três ou quatro dias. Este queria apenas meia dúzia, mas Emílio Rouède convenceu‑o de que devia encomendar duas dúzias e meia.


Quando o freguês saiu, Emílio Rouède disse à esposa, que ria a bandeiras despregadas:


– Tenho pena de não ser dentista, em vez de fotógrafo!


Escusado é dizer que os retratos ficaram na fotografia.


Artur Azevedo.

Texto para responder o item abaixo.   Em realação aos aspectos gerais do texto, julgue o item abaixo.   No texto, os termos “O sujeito” e “um homem” referem‑se ao mesmo personagem.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coesão referencial: "O sujeito" e "um homem" no conto de Artur Azevedo

Gabarito: letra E (Errado). A afirmação de que os termos "O sujeito" e "um homem" se referem ao mesmo personagem é incorreta. No texto, "um homem" refere-se a Emílio Rouède, o marido/fotógrafo, enquanto "O sujeito" refere-se ao desconhecido impertinente que seguiu Mme. Rouède. A prova está na passagem em que o narrador descreve a chegada do perseguidor: "O sujeito, quando reparou que havia ali um homem, não teve mais tempo de fugir." — aqui, "O sujeito" é o perseguidor, e "um homem" é Emílio, que estava no ateliê.

O comando: compreensão de coesão referencial

A questão pede que se julgue uma afirmação sobre os aspectos gerais do texto, especificamente sobre a referência de dois termos. Isso é uma questão de coesão referencial: identificar a que elemento do texto cada expressão remete. Não se trata de inferir nada além do que está escrito; basta rastrear, no próprio texto, o antecedente de cada termo. A técnica é simples: para cada expressão, pergunte "quem é?" e procure a resposta nas frases anteriores.

O texto: quem é quem na historieta

O conto narra a perseguição de um "impertinente" a Mme. Rouède. Os personagens em cena são:

  • Emílio Rouède: o fotógrafo, marido de Mme. Rouède.

  • Mme. Rouède: a esposa.

  • O impertinente/desconhecido/sujeito: o homem que segue a moça.

O trecho decisivo é:

"Emílio Rouède estava no atelier, de blusa, a trabalhar, e, ouvindo os passos de sua esposa, foi esperá‑la no topo da escada. O sujeito, quando reparou que havia ali um homem, não teve mais tempo de fugir."

Aqui, "O sujeito" retoma o perseguidor (o "impertinente" dos parágrafos anteriores). "um homem" é uma nominalização que se refere a Emílio Rouède, que acabou de ser mencionado como aquele que "foi esperá-la no topo da escada". O perseguidor viu "um homem" (Emílio) e por isso não pôde fugir. São, portanto, personagens distintos.

A técnica: rastrear o antecedente

Para resolver, basta seguir a cadeia de referência:

  1. O "impertinente" é apresentado no 4º parágrafo: "foi acompanhada por um impertinente".

  2. Nos parágrafos seguintes, ele é retomado como "o conquistador", "o homenzinho", "o desconhecido".

  3. No trecho citado, "O sujeito" é mais uma retomada desse mesmo perseguidor.

  4. "um homem" é uma expressão indefinida que se refere a Emílio Rouède, que estava no ateliê.

A armadilha da banca é fazer o candidato achar que "um homem" e "O sujeito" são a mesma pessoa, quando na verdade são dois personagens diferentes. A palavra "homem" é genérica e poderia, em outro contexto, referir-se ao próprio sujeito, mas aqui o contexto imediato ("havia ali um homem") deixa claro que se trata de outra pessoa — o marido.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A afirmação de que "O sujeito" e "um homem" referem-se ao mesmo personagem está errada. Como demonstrado, "O sujeito" é o perseguidor, e "um homem" é Emílio Rouède. A alternativa contradiz o texto, pois inverte a referência dos termos.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A afirmação é errada, e é exatamente isso que a alternativa E diz. O gabarito é a letra E, pois a proposição do enunciado é falsa.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a ambiguidade potencial da palavra "homem", que poderia referir-se ao próprio sujeito. Mas o contexto imediato ("havia ali um homem") desfaz a ambiguidade: o homem é o marido, não o perseguidor.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de coesão referencial, sublinhe o termo e pergunte "quem é?" — a resposta está sempre nas frases anteriores. Desconfie de expressões genéricas ("um homem", "a pessoa", "o indivíduo") e verifique o contexto imediato.

Conclusão: a questão testa a habilidade de rastrear referentes. "O sujeito" = perseguidor; "um homem" = Emílio Rouède. São personagens distintos, logo a afirmação é errada.

Gabarito: letra E

Link permanente: /questoes/qa600789