O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente.
Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente.
Gente com mente?
com sã mente?
que sinta que não mente?
que sinta o dente são e a mente?
Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente.
O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente.
Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente.
NENHUMA!
A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente.
Ana Hatherly. In: Um calculador de improbabilidades.
Texto para o item abaixo. Em relação aos aspectos gerais do texto, julgue o item a seguir. No Texto, as referências de “gente” são distintas.
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GabaritoC — Certo
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Polissemia de "gente" no poema de Ana Hatherly
Gabarito: C (Certo). No texto, a palavra "gente" é usada com referências distintas: ora designa um grupo de pessoas (coletivo), ora funciona como pronome indefinido equivalente a "nós". Essa alternância é a chave da leitura do poema, que opõe "a gente" (nós, o povo) a "essa gente" (os dominadores). A afirmação do item é, portanto, correta.
O comando
O item pede um julgamento sobre os "aspectos gerais do texto": se as referências de "gente" são distintas. Isso é uma questão de compreensão e interpretação — não de gramática normativa, mas de semântica e coesão referencial. É preciso observar como a mesma palavra é empregada em diferentes passagens e perceber que ela não aponta sempre para o mesmo referente.
O texto
O poema "Esta gente", de Ana Hatherly, é uma reflexão sobre dominação e identidade. O eu lírico afirma que "o que é preciso é gente" — gente com dente, que mostre o dente, que não seja "decente" nem "docente", ou seja, gente autêntica, que não se submete. Em seguida, contrapõe "essa gente" (os dominadores) a "a gente" (nós, o povo). Veja os trechos decisivos:
"O que é preciso é gente / que atire fora com essa gente."
"Essa gente dominada por essa gente / não sente como a gente / não quer / ser dominada por gente."
"A gente / só é dominada por essa gente / quando não sabe que é gente."
Aqui, "essa gente" refere-se aos opressores, enquanto "a gente" refere-se ao povo, a nós. Ainda há o uso genérico de "gente" no sentido de "pessoas" ("o que é preciso é gente"). Portanto, a palavra "gente" assume pelo menos três referentes distintos ao longo do texto.
A técnica
A questão explora a polissemia — a propriedade de uma mesma palavra apresentar múltiplos sentidos conforme o contexto. No poema, "gente" é polissêmica: pode ser substantivo coletivo ("gente com dente" = pessoas) ou pronome indefinido ("a gente" = nós). Essa distinção é essencial para a interpretação: o eu lírico quer que "a gente" (nós) não seja dominada por "essa gente" (eles).
Para resolver, basta rastrear os referentes de cada ocorrência de "gente" e verificar se são os mesmos. Como não são, o item está certo.
Análise das alternativas
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A afirmação é verdadeira. O texto emprega "gente" com referências distintas, como provam os trechos citados. A oposição entre "a gente" e "essa gente" é estrutural no poema.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A afirmação de que as referências são as mesmas é falsa. O texto contradiz essa leitura, pois opõe "a gente" (nós) a "essa gente" (eles). Quem marcou E provavelmente leu o poema de forma superficial, sem perceber a alternância de sentidos.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a polissemia de "gente". O candidato pode achar que a palavra tem sempre o mesmo referente, mas o texto alterna entre "pessoas", "nós" e "eles".
PEGA ESSA DICA!
Em questões de polissemia, sublinhe cada ocorrência da palavra e pergunte: "a quem ou a quê ela se refere aqui?". Se os referentes mudam, a palavra é polissêmica.
Conclusão: como as referências de "gente" são de fato distintas, o item está Certo.