Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Quadrix 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa600879
Banca
Quadrix
Órgão
CRO AM
Ano
2024
Cargo
Ag Fisc ( )
Esta gente
O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente.
Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente.
Gente com mente?
com sã mente?
que sinta que não mente?
que sinta o dente são e a mente?
Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente.
O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente.
Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente.
NENHUMA!
A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente.
Ana Hatherly. In: Um calculador de improbabilidades.
Texto para o item abaixo. Em relação aos aspectos gerais do texto, julgue o item a seguir. No fim do poema, a ideia de não saber que é gente implica, entre outros elementos, não reconhecer em si mesmo o direito de ser livre.
CCerto
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GabaritoC — Certo
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A consciência de si como condição da liberdade — inferência no poema
Gabarito: C (Certo). A afirmação está correta: no fim do poema, a ideia de "não saber que é gente" implica, entre outros elementos, não reconhecer em si mesmo o direito de ser livre. A prova está na passagem final, que estabelece uma relação de causa e consequência entre a falta de consciência e a dominação — e a liberdade é o oposto lógico dessa dominação.
"A gente / só é dominada por essa gente / quando não sabe que é gente."
O trecho diz que a dominação ocorre quando a pessoa não se reconhece como gente. Ora, se a dominação é a negação da liberdade, então não se reconhecer como gente implica não se perceber como sujeito livre, ou seja, não reconhecer em si o direito de ser livre. A inferência é legítima porque está ancorada na relação de condição estabelecida pelo texto.
O comando: compreensão ou inferência?
O enunciado pede para julgar uma afirmação sobre os "aspectos gerais do texto". A afirmação não está literalmente escrita — o poema não diz "não reconhecer o direito de ser livre" —, mas é uma inferência que o texto autoriza. A banca não pede uma paráfrase direta, mas uma dedução baseada em pistas textuais. Por isso, a resposta não está na superfície, mas na relação lógica entre os versos finais.
O texto: tema e movimento argumentativo
O poema de Ana Hatherly é uma reflexão sobre a identidade e a resistência. O eu lírico contrapõe dois grupos: "a gente" (as pessoas autênticas, que têm "dente" e "mente") e "essa gente" (os dominadores, os prepotentes). O poema defende que a dominação só ocorre quando as pessoas perdem a consciência de sua própria humanidade. Os versos finais são a chave:
"A gente / só é dominada por essa gente / quando não sabe que é gente."
Aqui, "não saber que é gente" é a condição para a dominação. Saber que é gente, portanto, é o que permite resistir e ser livre. A liberdade é o estado oposto à dominação: quem é dominado não é livre. Logo, não saber que é gente implica não se reconhecer como livre.
A técnica: inferência com pista no texto
A inferência legítima se apoia em um pressuposto — uma pista deixada pelo próprio texto. No caso, a pista é a palavra "quando", que estabelece uma relação de condição: a dominação depende da falta de consciência. A partir dessa relação, podemos deduzir que a consciência de si é o que garante a liberdade. A alternativa não acrescenta nada de fora; ela apenas explicita o que o texto sugere.
Análise da assertiva
Assertiva — ✅ Certo
A afirmação é correta porque o texto sustenta a relação entre "não saber que é gente" e a ausência de reconhecimento da própria liberdade. Veja o raciocínio:
O poema diz que a dominação ocorre "quando não sabe que é gente".
Ser dominado é o oposto de ser livre.
Portanto, não saber que é gente implica não se reconhecer como livre, ou seja, não reconhecer em si o direito de ser livre.
A alternativa usa a expressão "entre outros elementos", o que é coerente: o texto não esgota as implicações, mas a liberdade é uma delas, pois é a negação da dominação.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de inferência, pergunte-se: "o texto me obriga a concluir isso?" Se a conclusão decorre de uma relação lógica presente no texto (como a condição expressa por "quando"), a inferência é válida. Se você precisar buscar fora do texto, é extrapolação.
Conclusão: A assertiva está certa, pois a passagem final do poema estabelece que a dominação — e, por extensão, a falta de liberdade — decorre de não se reconhecer como gente. A alternativa é uma inferência ancorada no texto, não uma extrapolação.