Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — INSTITUTO AOCP 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa601732
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
IF Baiano
Ano
2024
Cargo
Ass ( )
ABOLIÇÃO
Meu poema é rédea
que toca cavalo
em galopes ligeiros...
e sigo – andarilho
em meio a tanto medo
nos golpes dos homens contra o porvir...
meu poema advir
de uma caminhada fugaz
- tantos temporais –
e da negritude
de um povo que não se lembra mais
que a cada dia
no Pelourinho da Bahia
um escravo morria...
sou um cavaleiro
sobre um alazão de prata
à procura de uma pátria
campeando tantas mágoas.
Meu poema é da praça
é da rua
é da senzala
meu quilombo tem as marcas
das sentenças impregnadas
de injustiças raciais.
Já não sou mais cavaleiro
vou deixar este torrão
ficam tantas caminhadas
meu cavalo alazão
e a mais pura ilusão
de uma vida abolida
a ferro
a fogo
a água de invernada.
MOTA, Otávio. Apocalipse Man: poesia e teatro. Salvador: Edições O ViceRey, 1987, p. 63.
Texto 03 A respeito das ideias presentes no poema, é correto afirmar que
Aa poesia é instrumento de alienação diante das questões sociais que atravessam o cotidiano do eu-lírico.
Ba construção poética resulta das rápidas experiências do eu-lírico e abarca as questões identitárias e existenciais.
Ca poesia, por ser norma e instrumento de dominação, restringe-se ao mundo privado do sujeito poético.
Da poesia, por ser quixotesca (“sou um cavaleiro/sobre um alazão de prata”), resume-se ao campo da fantasia de quem a produz.
Eo sujeito poético, apesar de fazer referências à função social de sua poesia, não está à procura de uma nação, mas, tão somente, atém-se aos aspectos formais do poema.
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GabaritoB — a construção poética resulta das rápidas experiências do eu-lírico e abarca as questões identitárias e existenciais.
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A poesia como construção identitária e existencial no poema "Abolição"
Gabarito: letra B. A alternativa B é a única que sintetiza corretamente as ideias do poema: a construção poética resulta das experiências rápidas do eu-lírico ("meu poema advir de uma caminhada fugaz") e abarca questões identitárias ("da negritude de um povo") e existenciais ("à procura de uma pátria", "campeando tantas mágoas"). O texto mostra que a poesia nasce da vivência e da memória, não da alienação ou da fantasia.
O comando: compreensão das ideias do poema
O enunciado pede que se identifique a afirmação correta sobre as ideias presentes no poema. Isso é uma questão de compreensão — a resposta deve estar ancorada no que o texto efetivamente diz, sem extrapolações. É preciso ler o poema como um todo, percebendo o movimento do eu-lírico: ele parte de uma imagem de cavaleiro em fuga, passa pela memória da escravidão e chega à desilusão final. A alternativa correta deve captar essa trajetória.
O texto: tema, tese e movimento argumentativo
O poema "Abolição", de Otávio Mota, apresenta um eu-lírico que reflete sobre sua própria poesia e sua relação com a história e a identidade negra. Logo no início, ele diz:
"Meu poema é rédea / que toca cavalo / em galopes ligeiros..."
A poesia é comparada a uma rédea que conduz o cavalo — ou seja, é um instrumento de movimento, de direção. Em seguida, o eu-lírico afirma que seu poema "advir de uma caminhada fugaz" e "da negritude de um povo que não se lembra mais" da escravidão no Pelourinho. Aqui está o cerne: a poesia nasce da experiência e da memória coletiva. Depois, ele se vê como "cavaleiro sobre um alazão de prata à procura de uma pátria", o que revela uma busca identitária e existencial. No final, porém, ele abandona essa imagem: "Já não sou mais cavaleiro / vou deixar este torrão", deixando claro que a ilusão de uma "vida abolida" não se concretizou.
A técnica: como testar cada alternativa
A armadilha central desta questão é a leitura literal de imagens poéticas. O eu-lírico se compara a um cavaleiro, mas isso não significa que o poema seja mera fantasia — é uma metáfora da busca. Da mesma forma, dizer que a poesia é "da praça, da rua, da senzala" mostra sua função social, não alienação. Para cada alternativa, pergunte: o texto autoriza essa afirmação, ou ela exige acrescentar algo de fora?
Poema "Abolição"
1Construção poética
Nasce da experiência ("caminhada fugaz")
Memória coletiva ("negritude de um povo")
Função social ("da praça, da rua, da senzala")
2Busca do eu-lírico
Identitária ("à procura de uma pátria")
Existencial ("campeando tantas mágoas")
3Imagem do cavaleiro
Metáfora da busca
Não é fantasia (pegadinha da literalidade)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "a poesia é instrumento de alienação diante das questões sociais". Isso contradiz o texto: o poema é explicitamente engajado, pois o eu-lírico diz que seu poema "é da praça, é da rua, é da senzala" e que seu "quilombo tem as marcas das sentenças impregnadas de injustiças raciais". A poesia, aqui, é um instrumento de conscientização e memória, não de alienação. A banca tenta inverter o sentido, mas o texto é claro.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa B afirma que "a construção poética resulta das rápidas experiências do eu-lírico e abarca as questões identitárias e existenciais". Isso está diretamente ancorado no texto:
"meu poema advir / de uma caminhada fugaz / - tantos temporais – / e da negritude / de um povo que não se lembra mais"
A "caminhada fugaz" são as rápidas experiências; a "negritude de um povo" é a questão identitária; e a busca por "uma pátria" e as "mágoas" são as questões existenciais. A alternativa parafraseia fielmente o poema, sem acrescentar nada de fora.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C diz que "a poesia, por ser norma e instrumento de dominação, restringe-se ao mundo privado do sujeito poético". Isso é duplamente falso: o poema não é "norma" nem "instrumento de dominação" — pelo contrário, ele denuncia a dominação ("injustiças raciais"). Além disso, a poesia não se restringe ao mundo privado: o eu-lírico afirma que ela "é da praça, é da rua, é da senzala", ou seja, é pública e coletiva. A alternativa extrapola e contradiz o texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D afirma que "a poesia, por ser quixotesca ('sou um cavaleiro/sobre um alazão de prata'), resume-se ao campo da fantasia de quem a produz". Aqui está a pegadinha da literalidade: a imagem do cavaleiro é uma metáfora, não uma declaração de que o poema é fantasia. O eu-lírico usa essa imagem para expressar sua busca, mas o poema trata de temas reais e históricos (escravidão, injustiça). Reduzir o poema à fantasia é extrapolar o sentido figurado.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E diz que "o sujeito poético, apesar de fazer referências à função social de sua poesia, não está à procura de uma nação, mas, tão somente, atém-se aos aspectos formais do poema". Isso contradiz o texto: o eu-lírico afirma explicitamente estar "à procura de uma pátria". Além disso, o poema não se atém apenas a aspectos formais — ele tem forte conteúdo social e existencial. A alternativa tenta negar o que o texto afirma.
Conclusão
A questão exige que você leia o poema além das imagens literais, percebendo que as metáforas (cavaleiro, alazão) servem para expressar uma busca real. A alternativa B é a única que capta a essência do poema: a poesia nasce da experiência e da memória, e abrange identidade e existência. As demais ou contradizem o texto, ou extrapolam o sentido figurado.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de interpretação de poema, desconfie de alternativas que tomam metáforas ao pé da letra (como "cavaleiro" = fantasia). Pergunte sempre: qual é a função dessa imagem no contexto? Ela expressa uma busca, uma crítica, uma memória — não uma fuga da realidade.