Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — INSTITUTO AOCP 2024
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Código
qa601733
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
IF Baiano
Ano
2024
Cargo
Ass ( )
ABOLIÇÃO
Meu poema é rédea
que toca cavalo
em galopes ligeiros...
e sigo – andarilho
em meio a tanto medo
nos golpes dos homens contra o porvir...
meu poema advir
de uma caminhada fugaz
- tantos temporais –
e da negritude
de um povo que não se lembra mais
que a cada dia
no Pelourinho da Bahia
um escravo morria...
sou um cavaleiro
sobre um alazão de prata
à procura de uma pátria
campeando tantas mágoas.
Meu poema é da praça
é da rua
é da senzala
meu quilombo tem as marcas
das sentenças impregnadas
de injustiças raciais.
Já não sou mais cavaleiro
vou deixar este torrão
ficam tantas caminhadas
meu cavalo alazão
e a mais pura ilusão
de uma vida abolida
a ferro
a fogo
a água de invernada.
MOTA, Otávio. Apocalipse Man: poesia e teatro. Salvador: Edições O ViceRey, 1987, p. 63.
Texto 03 Quanto aos aspectos linguísticos, semânticos e poéticos do Texto 03, é INCORRETO afirmar que
Anos dois primeiros versos, o autor faz uso de metáfora para definir o seu poema.
Bno trecho “Meu poema é da praça/ é da rua/ é da senzala”, o autor usou da estratégia de paralelismo sintático para a construção dos versos.
Cos elementos linguísticos destacados nos versos “de um povo que não se lembra mais/ que a cada dia/ no Pelourinho da Bahia” pertencem à mesma classe gramatical.
Dno verso “vou deixar este torrão”, o termo destacado denota aproximação do sujeito poético em relação ao espaço de onde enuncia.
Eno verso “vou deixar este torrão”, há uma perífrase verbal composta por um verbo auxiliar mais um verbo principal no infinitivo.
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GabaritoC — os elementos linguísticos destacados nos versos “de um povo que não se lembra mais/ que a cada dia/ no Pelourinho da Bahia” pertencem à mesma classe gramatical.
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Análise morfossintática e semântica no poema "Abolição"
Gabarito: letra C. A alternativa C é a INCORRETA — e é exatamente ela que a banca pede. Os elementos destacados no trecho “de um povo que não se lembra mais / que a cada dia / no Pelourinho da Bahia” não pertencem à mesma classe gramatical: o primeiro “que” é pronome relativo (retoma “povo”), enquanto o segundo “que” é conjunção integrante (introduz a oração subordinada substantiva objetiva direta “que a cada dia no Pelourinho da Bahia um escravo morria”). Como o comando pede a afirmativa INCORRETA, o gabarito é a letra C.
O comando: o que a banca quer
O enunciado pede a alternativa INCORRETA quanto aos aspectos linguísticos, semânticos e poéticos. Isso inverte a lógica de resolução: em vez de procurar a única verdadeira, você deve procurar a única falsa — e as demais, ainda que você não concorde plenamente, devem ser aceitas como corretas. A banca mistura três frentes de análise (morfologia, sintaxe e semântica), então o método é testar cada afirmativa contra o texto e contra a gramática normativa.
O texto: o movimento do poema
O poema de Otávio Mota constrói uma identidade poética que se define pela negritude e pela memória da escravidão (“da negritude / de um povo que não se lembra mais / que a cada dia / no Pelourinho da Bahia / um escravo morria”). O eu lírico se apresenta como cavaleiro que busca uma pátria, mas, ao final, decide partir (“vou deixar este torrão”), abandonando a ilusão de uma vida abolida. Para a questão, o que importa é a análise linguística pontual de cada trecho citado — não a interpretação global.
A técnica que decide a questão
A pegadinha central está na classificação morfológica do “que”. Em português, o “que” pode ser:
Pronome relativo: retoma um termo anterior e introduz oração adjetiva (ex.: “o povo que não se lembra”).
Conjunção integrante: introduz oração subordinada substantiva (ex.: “lembra que a cada dia um escravo morria”).
Conjunção causal, comparativa, etc.: com outros valores.
Partícula expletiva: em casos como “é que”.
No trecho, o primeiro “que” é pronome relativo — equivale a “o qual” e retoma “povo”. O segundo “que” é conjunção integrante — liga o verbo “lembra” à oração que funciona como seu objeto direto. São classes diferentes, o que torna a alternativa C falsa.
“de um povo que não se lembra mais / que a cada dia / no Pelourinho da Bahia”
O primeiro “que” poderia ser substituído por “o qual” sem prejuízo: “de um povo o qual não se lembra mais”. O segundo não admite essa troca: “não se lembra mais de que a cada dia um escravo morria” — aqui o “que” é conjunção integrante. Essa é a prova definitiva.
Análise das alternativas
"Que" no trecho
11º "que" (retoma "povo")
Pronome relativo
Equivale a "o qual"
22º "que" (liga "lembra" à oração)
Conjunção integrante
Introduz oração substantiva objetiva direta
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Alternativa A — ✅ Correta
A afirmativa diz que “nos dois primeiros versos, o autor faz uso de metáfora para definir o seu poema”. Confere: “Meu poema é rédea / que toca cavalo”. Há uma comparação implícita (sem conectivo comparativo) entre o poema e uma rédea — o poema é apresentado como algo que conduz, que guia, como uma rédea guia o cavalo. Isso é metáfora, figura de palavra. A alternativa está correta.
Alternativa B — ✅ Correta
A afirmativa aponta paralelismo sintático em “Meu poema é da praça / é da rua / é da senzala”. De fato, há repetição da estrutura “é da + substantivo”, com a mesma função sintática (predicativo do sujeito) e a mesma forma verbal. Isso é paralelismo sintático — a repetição de estruturas equivalentes. A alternativa está correta.
Alternativa C — ❌ Incorreta ⟵ GABARITO
Como demonstrado, os dois “que” destacados pertencem a classes gramaticais diferentes: o primeiro é pronome relativo; o segundo é conjunção integrante. A afirmativa de que pertencem à mesma classe é falsa. Erro do catálogo: troca de conceito — a banca confunde a aparência idêntica das palavras com a função morfológica distinta.
Alternativa D — ✅ Correta
A afirmativa diz que “este” denota aproximação do sujeito poético em relação ao espaço. O pronome demonstrativo “este” indica proximidade do falante (1ª pessoa), em oposição a “esse” (2ª pessoa) e “aquele” (3ª pessoa). No verso “vou deixar este torrão”, o eu lírico se refere ao lugar de onde fala como próximo — daí a denotação de aproximação. A alternativa está correta.
Alternativa E — ✅ Correta
A afirmativa identifica uma perífrase verbal (locução verbal) em “vou deixar”: o verbo “ir” funciona como auxiliar e “deixar” como principal no infinitivo. A locução verbal expressa futuro próximo. A alternativa está correta.
Conclusão
A questão testa a classificação morfológica do “que” — um dos pontos mais cobrados em concursos. A regra de ouro: quando o “que” puder ser substituído por “o qual/a qual/os quais/as quais”, é pronome relativo; quando introduzir uma oração que completa o sentido de um verbo ou nome, é conjunção integrante. Como a banca pediu a INCORRETA, o gabarito é a letra C — a única que o texto e a gramática não sustentam.
PEGA ESSA DICA!
Ao encontrar dois “que” no mesmo trecho, teste cada um isoladamente: troque por “o qual” (relativo) ou verifique se introduz oração subordinada substantiva (integrante). Essa distinção resolve a maioria das questões de morfossintaxe.