Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — INSTITUTO AOCP 2024
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Código
qa601736
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
IF Baiano
Ano
2024
Cargo
Ass ( )
ABOLIÇÃO
Meu poema é rédea
que toca cavalo
em galopes ligeiros...
e sigo – andarilho
em meio a tanto medo
nos golpes dos homens contra o porvir...
meu poema advir
de uma caminhada fugaz
- tantos temporais –
e da negritude
de um povo que não se lembra mais
que a cada dia
no Pelourinho da Bahia
um escravo morria...
sou um cavaleiro
sobre um alazão de prata
à procura de uma pátria
campeando tantas mágoas.
Meu poema é da praça
é da rua
é da senzala
meu quilombo tem as marcas
das sentenças impregnadas
de injustiças raciais.
Já não sou mais cavaleiro
vou deixar este torrão
ficam tantas caminhadas
meu cavalo alazão
e a mais pura ilusão
de uma vida abolida
a ferro
a fogo
a água de invernada.
MOTA, Otávio. Apocalipse Man: poesia e teatro. Salvador: Edições O ViceRey, 1987, p. 63.
Texto 03 No que diz respeito aos elementos textuais, semânticos, poéticos e linguísticos presentes no Texto 03, é correto afirmar que
Aem “nos golpes dos homens contra o porvir...”, o termo em destaque indica aproximação.
Bno verso “sobre um alazão de prata”, o elemento em destaque denota ideia de lugar.
Cem “de um povo que não se lembra mais”, o pronome oblíquo destacado aparece em posição enclítica.
Ddo ponto de vista da regência, o verbo em destaque no trecho “que toca cavalo/ em galopes ligeiros...” se relaciona com um complemento indireto.
Eno verso “Meu poema é da praça”, a função da linguagem em evidência é a conativa, uma vez que a intenção do locutor é convencer seu interlocutor por meio do verbo no imperativo.
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GabaritoB — no verso “sobre um alazão de prata”, o elemento em destaque denota ideia de lugar.
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Análise sintática e semântica no poema "Abolição"
Gabarito: letra B. No verso "sobre um alazão de prata", a expressão "sobre um alazão" funciona como adjunto adverbial de lugar — indica a posição do cavaleiro (em cima do cavalo). A banca pede a análise dos elementos textuais, semânticos, poéticos e linguísticos, e a única alternativa inteiramente correta é a B, que identifica corretamente o valor semântico da locução prepositiva "sobre um alazão".
O comando da questão é de análise linguística: pede-se que o candidato examine aspectos sintáticos (regência, colocação pronominal), semânticos (valor de preposições) e pragmáticos (função da linguagem) presentes no poema. Não se trata de interpretação global do texto, mas de reconhecer, em trechos específicos, o funcionamento da língua. Para resolver, é preciso testar cada afirmação contra o verso citado, verificando se a classificação apresentada é a correta.
O poema de Otávio Mota trabalha com a memória da escravidão e a busca por liberdade. O eu lírico se apresenta como cavaleiro que "campeia mágoas" e, ao final, abandona o "torrão", deixando "a mais pura ilusão / de uma vida abolida". A linguagem é marcada por imagens concretas (rédea, cavalo, alazão, senzala, quilombo) e por um tom de denúncia. Para a questão, o que importa é a estrutura linguística dessas imagens.
A técnica central aqui é a análise sintática e semântica de termos específicos. Cada alternativa aponta um elemento do texto e faz uma afirmação sobre ele. O método é: (1) localizar o trecho; (2) identificar a classe e a função do termo destacado; (3) verificar se a descrição da alternativa corresponde à realidade linguística. A pegadinha da banca está em alternativas que parecem plausíveis, mas contêm um erro sutil de classificação.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura conceitos próximos — valor semântico de preposição (lugar × aproximação), regência (transitivo direto × indireto), colocação pronominal (ênclise × próclise) e função da linguagem (poética × conativa). A alternativa B acerta ao identificar "sobre" como locução de lugar; as demais erram ao trocar um conceito por outro.
Alternativa A — ❌ Incorreta
"nos golpes dos homens contra o porvir..."
A preposição "contra" indica oposição, não aproximação. O verso fala de golpes dirigidos contra o futuro (o porvir), ou seja, uma ação contrária a algo. A alternativa troca o valor semântico da preposição: "contra" expressa oposição/contrariedade, enquanto "aproximação" seria expressa por preposições como "para", "a" ou "até". O erro é de troca_conceito.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"sou um cavaleiro / sobre um alazão de prata"
A locução "sobre um alazão" indica a posição do cavaleiro em relação ao cavalo — ele está em cima do animal. Trata-se de um adjunto adverbial de lugar (ou locativo). A preposição "sobre", nesse contexto, tem valor espacial, respondendo à pergunta "onde?". A alternativa está correta.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"de um povo que não se lembra mais"
O pronome "se" aparece em posição proclítica (antes do verbo), não enclítica. Ênclise seria "lembra-se". A próclise é obrigatória quando há palavra atrativa antes do verbo — aqui, o pronome relativo "que" atrai o "se" para antes de "lembra". A alternativa inverte o conceito de colocação pronominal: troca próclise por ênclise. O erro é de troca_conceito.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"que toca cavalo / em galopes ligeiros..."
O verbo "tocar", no sentido de "atingir" ou "fazer contato com", é transitivo direto — exige complemento sem preposição. No verso, "cavalo" é objeto direto ("toca cavalo"). A alternativa afirma que o verbo se relaciona com um complemento indireto, o que é falso. A expressão "em galopes ligeiros" é adjunto adverbial de modo, não complemento verbal. O erro é de troca_conceito (confunde objeto direto com indireto).
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Meu poema é da praça"
A função da linguagem em evidência é a poética, centrada na mensagem e em sua construção estética — o poema fala sobre si mesmo e sobre sua origem. A função conativa (apelativa) busca convencer o interlocutor, geralmente com verbos no imperativo, o que não ocorre no verso. Não há imperativo nem apelo direto ao leitor. A alternativa extrapola ao atribuir uma intenção persuasiva que o texto não apresenta. O erro é de fora_do_escopo (a função conativa não está presente).
Conclusão: a questão testa a capacidade de classificar corretamente elementos linguísticos. A única alternativa que acerta é a B, pois "sobre um alazão" é, de fato, adjunto adverbial de lugar. As demais erram ao trocar o valor de preposições, inverter a colocação pronominal, confundir regência ou atribuir função de linguagem inexistente. O método é sempre o mesmo: localize o trecho, identifique a classe e a função, e confronte com a descrição da alternativa.