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Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — Instituto Consulplan 2024

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
qa602443
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
Pref Divinópolis
Ano
2024
Cargo
At CD (Divinópolis)
O taxista de cabelo branco

      Dos taxistas aqui da esquina, só sei o nome do Adão. Na primeira vez que peguei seu táxi, ele apontou para fora da janela, disse “olha só, as goiabeiras da Henrique Schaumann tão carregadas” e, quando reparei nas goiabas que brotavam no canteiro central da avenida, já éramos amigos de infância. Adão conhece todas as árvores frutíferas espalhadas pela cidade e, sempre que me leva a algum lugar, faz um relatório detalhado de seu esparso pomar: conta que as jacas do parque da Luz tão quase caindo em cima dos carros, que a mangueira da avenida Pacaembu tá atraindo um bando de maritacas, que houve um bafafá na zona leste porque a prefeitura ameaçou cortar um abacateiro, lá na rua Padre Adelino.
      Muito diferente do Adão é o taxista de cabelo branco. Seu nome não sei e admito que, até a última quinta, não estava interessado em saber. Havia, entre mim e o taxista de cabelo branco, um certo desconforto. Veja, não sou homem de alimentar inimizades e costumo preferir o acordo ao conflito, mas em algumas ocasiões não há consenso possível: antes da última Copa do Mundo eu reclamei do Dunga, o sujeito resolveu apoiar o obtuso treinador e, irritado, fez um longo discurso defendendo a supremacia da prudência, da ordem e da disciplina sobre a ousadia, a criatividade e a beleza – como eu poderia ficar calado?
      Estou longe de ser um aventureiro. Sou caseiro e covarde como um cocker-spaniel. Talvez por isso mesmo, por procurar no mundo o que não trago em mim, é que prefira o gol de bicicleta, o “Soneto da fidelidade” e um solo de chaleira de Hermeto Pascoal à seleção alemã, aos enxadristas russos, à ponte Rio-Niterói. O taxista de cabelo branco, contudo, não pensa como eu. Quando tentei convencê-lo de que o futebol não tinha nenhum sentido senão pela beleza, ele riu, e, como todos os arautos da mediocridade, mencionou 82 com desprezo. Eu afirmei que preferia a derrota de 82 à vitória de 94, e foi aí que a conversa melou de vez; ele bufou, ligou o rádio e aquele ruído instalou-se entre nós, definitivamente.
      Não, não definitivamente. Na última quinta, eu e o taxista de cabelo branco estávamos na Vinte e Três de Maio, a caminho de Congonhas, imersos em nossa silenciosa discórdia, quando tocou meu celular. Durante os últimos meses, eu e minha mulher vínhamos procurando um lugar para morar. Depois de um sem-número de tristes visitas a quintais azulejados, pesadelos de cerejeira & esquadrias de alumínio, finalmente encontramos uma linda casa com jardim, uma mesa à sombra duma jabuticabeira, onde vislumbramos cafés da manhã que entrariam pela tarde, almoços que entrariam pela noite e os filhos, claro, que em breve entrarão em nossas vidas. Fizemos uma proposta um pouco abaixo do que o proprietário estava pedindo, ele ficou de pensar, sumiu e, quando já estávamos quase desistindo de receber uma resposta, eis que meu celular começa a tremer e gritar, exibindo o nome do homem na telinha, pequeno oráculo de cristal líquido. Atendi, nervoso. Ele disse que topava, fechamos negócio.
     Quando desliguei, já estávamos no aeroporto, o carro encostando no meio-fio, com o pisca-alerta ligado. “Comprei uma casa!”, eu disse, exultante, ao motorista. “Vou pegar dinheiro do banco, vou pagar juros por muitos e muitos anos, mas terei uma casa!”. O taxista de cabelo branco me sorriu, genuinamente feliz. “Não tem problema pagar pro banco. Importante é que a casa é sua. É um grande passo na vida.”
      Sorri de volta, entendendo e compartilhando a alegria de meu ex-antípoda: endividar-se para garantir um teto e um jardim era o meio caminho entre nós dois, um ato contendo a mesma medida de ousadia e prudência. Apertamos as mãos e fui para o Rio de Janeiro, contente com meu futuro e acreditando na concórdia universal.
(À maneira de Braga: O taxista de cabelo branco, por Antonio Prata. Literatura. Equipe IMS. Em: junho de 2011.)
Sobre os aspectos coesivos do texto, assinale a afirmativa INCORRETA.
  1. AEm “ele apontou para fora da janela” (1º§), o pronome “ele” retoma a expressão “Adão”.
  2. BNo fragmento “[...] finalmente encontramos uma linda casa com jardim, [...]”, o termo “encontramos” diz respeito ao “narrador e sua mulher”.
  3. CEm “[...] ele bufou, ligou o rádio e aquele ruído instalou-se entre nós, definitivamente.”, o termo grifado remete a “Adão, o motorista de cabelo branco”.
  4. DNo trecho “[...] antes da última Copa do Mundo eu reclamei do Dunga, o sujeito resolveu apoiar o obtuso treinador [...]”, a expressão destacada se refere ao “taxista de cabelo branco”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Em “[...] ele bufou, ligou o rádio e aquele ruído instalou-se entre nós, definitivamente.”, o termo grifado remete a “Adão, o motorista de cabelo branco”.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coesão referencial: quem é o referente de cada pronome?

Gabarito: letra C. A afirmativa C é a INCORRETA — e, como o enunciado pede a afirmativa INCORRETA, ela é o gabarito. O erro está na troca do referente: o pronome "ele" em "ele bufou, ligou o rádio" não remete a Adão, mas ao taxista de cabelo branco. A passagem que prova isso está no 3º parágrafo: "Quando tentei convencê-lo de que o futebol não tinha nenhum sentido senão pela beleza, ele riu, e, como todos os arautos da mediocridade, mencionou 82 com desprezo. Eu afirmei que preferia a derrota de 82 à vitória de 94, e foi aí que a conversa melou de vez; ele bufou, ligou o rádio e aquele ruído instalou-se entre nós, definitivamente." — o "ele" retoma o taxista de cabelo branco, não Adão.

O comando: identificar a afirmativa INCORRETA

O enunciado pede que você assinale a afirmativa INCORRETA sobre os aspectos coesivos do texto. Isso muda tudo: as alternativas A, B e D estão corretas (descrevem corretamente a retomada de termos), e a C é a única falsa. A banca não quer que você ache a verdadeira, mas a que contradiz o texto. Grife o comando antes de ler as alternativas: "assinale a afirmativa INCORRETA" — a resposta é a que contém um erro de referência.

O texto: dois taxistas, dois referentes

O texto apresenta dois personagens distintos: Adão (o taxista que conhece árvores frutíferas) e o taxista de cabelo branco (com quem o narrador tem uma "silenciosa discórdia" sobre futebol). A coesão referencial é o mecanismo que evita a repetição de nomes, usando pronomes para retomar termos já mencionados. Para acertar a questão, você precisa rastrear o referente de cada pronome, ou seja, descobrir a que personagem ele se refere. A banca explora exatamente a confusão entre os dois taxistas.

A técnica: rastrear o referente

Quando um pronome aparece, pergunte: quem é o antecedente mais próximo e coerente? No trecho da alternativa C, o pronome "ele" aparece logo após a fala do narrador sobre a preferência pela derrota de 82. Quem bufou e ligou o rádio? O taxista de cabelo branco, que estava irritado com a opinião do narrador. Adão, por outro lado, é o taxista amigável que fala de árvores — não tem relação com a discussão sobre futebol. A alternativa C troca o referente, atribuindo a Adão uma ação que é do outro taxista.

Análise das alternativas

Afirmativa

Referente indicado

Referente real no texto

Correta?

A — “ele” apontou para fora da janela

Adão

Adão (antecedente imediato)

✅ Sim

B — “encontramos” uma linda casa

Narrador e sua mulher

Narrador e sua mulher (“eu e minha mulher”)

✅ Sim

C — “ele” bufou, ligou o rádio

Adão

Taxista de cabelo branco (contexto da discussão sobre futebol)

❌ Não (gabarito)

D — “o sujeito” apoiou o Dunga

Taxista de cabelo branco

Taxista de cabelo branco

✅ Sim

1Rastrear o referente
Antecedente mais próximo
Contexto coerente
2Personagens do texto
Adão (árvores frutíferas)
Taxista de cabelo branco (futebol)
3Pegadinha da banca
Troca o referente do pronome
Atribui ação ao personagem errado
Coesão referencial
LEVELsoulevel.com.br
Coesão referencial: Rastrear o referente (Antecedente mais próximo, Contexto coerente); Personagens do texto (Adão (árvores frutíferas), Taxista de cabelo branco (futebol)); Pegadinha da banca (Troca o referente do pronome, Atribui ação ao personagem errado)

Alternativa A — ✅ Correta

A afirmativa A está correta. No trecho "ele apontou para fora da janela", o pronome "ele" retoma Adão, o taxista mencionado na frase anterior: "Dos taxistas aqui da esquina, só sei o nome do Adão. Na primeira vez que peguei seu táxi, ele apontou para fora da janela". O antecedente imediato é "Adão", e a ação de apontar as goiabeiras é característica dele. Não há erro aqui.

Alternativa B — ✅ Correta

A afirmativa B está correta. O termo "encontramos" (1ª pessoa do plural) refere-se ao narrador e sua mulher, como fica claro no trecho: "eu e minha mulher vínhamos procurando um lugar para morar. Depois de um sem-número de tristes visitas... finalmente encontramos uma linda casa com jardim". O sujeito implícito de "encontramos" é "nós" (narrador + esposa), retomando a expressão "eu e minha mulher". A concordância e a referência estão corretas.

Alternativa C — ❌ Incorreta ⟵ GABARITO

A afirmativa C está incorreta. O pronome "ele" em "ele bufou, ligou o rádio" não remete a Adão, mas ao taxista de cabelo branco. A prova está no 3º parágrafo: "Quando tentei convencê-lo de que o futebol não tinha nenhum sentido senão pela beleza, ele riu... Eu afirmei que preferia a derrota de 82 à vitória de 94, e foi aí que a conversa melou de vez; ele bufou, ligou o rádio". O contexto é a discussão sobre futebol, que envolve o narrador e o taxista de cabelo branco — não Adão. A alternativa troca o referente, criando uma falsa retomada.

Alternativa D — ✅ Correta

A afirmativa D está correta. A expressão "o sujeito" em "antes da última Copa do Mundo eu reclamei do Dunga, o sujeito resolveu apoiar o obtuso treinador" refere-se ao taxista de cabelo branco. O trecho completo mostra: "antes da última Copa do Mundo eu reclamei do Dunga, o sujeito resolveu apoiar o obtuso treinador e, irritado, fez um longo discurso defendendo a supremacia da prudência...". Quem apoia o Dunga e faz discurso é o taxista de cabelo branco, personagem com quem o narrador discute. A retomada está correta.

NÃO CAIA NESSA!

A banca troca o referente do pronome "ele" na alternativa C, atribuindo a Adão uma ação que é do taxista de cabelo branco. A confusão é facilitada porque ambos são taxistas, mas o contexto da discussão sobre futebol deixa claro quem é quem.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar coesão referencial, sempre volte ao texto e identifique o antecedente mais próximo e coerente. Pergunte: "quem pratica essa ação?" — a resposta está no contexto imediato.

Conclusão: a única afirmativa que contradiz o texto é a C, pois troca o referente do pronome "ele". As demais estão corretas. Portanto, Gabarito: letra C.

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