Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FUNDATEC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa604373
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref Bagé
Ano
2024
Cargo
Eng ( )

Não dá para saber

Por Tríssia Ordovás Sartori

 

A menina passa por mim na Rua Borges de Medeiros toda vestida de preto, com cabelos esvoaçantes na cor lilás e coturnos adornados por asas de morcego, que se abrem e se fecham a cada passo — cada pé carrega um pedaço delas. Fiquei fascinada pelo movimento da parte do bicho feita em couro e pelo jeito blasé dela. E nem gosto de gente blasé.

 

Comecei a imaginar se ela estava nem aí para a opinião alheia, ao escolher um acessório tão inusitado, ou se fazia questão de provocar alguma comoção, já que era pouco provável não notá-la. Saber o que se passa exigiria uma aproximação e um interesse mútuo de troca. E a questão instigante, de verdade, é que não dá para saber. Ao menos não só de olhar para ela.

 

Não dá para saber se aquela mensagem de WhatsApp lida ás pressas entre uma reunião e outra tinha o tom grave do interlocutor ao escrevê-la como pareceu. Se a mensagem era piada interna ou só uma distração. Ou se a abreviação de beijo como bjs era motivo suficiente para provocar mal-estar ou se tratava apenas de um coloquialismo.

 

Não dá para saber como teriam sido os próximos dias com gente querida que nos deixou precocemente e só aparece nos sonhos. Como vai ser daqui para frente comemorar aniversário, Dia das Mães, natais em outra configuração, com o lugar a mesa sem ser preenchido.

 

Não dá para saber no que as pessoas se transformam depois que nosso vínculo com elas muda, antes da partilha de bens, depois da mudança. Assim como não dá para saber como vai ser a nova vida, o período de luto de uma história que se encerra, as possibilidades que surgem com a tomada de decisão. Com o despertar para si, com o conhecimento dos próprios desejos e limitações.

 

Não dá para saber se Schopenhauer tem alguma razão ao falar que querer é essencialmente sofrer, que o prazer da realização dura pouco e que estamos divididos entre o desejo de ter e o tédio de possuir. Não dá para saber se minha opinião é distorcida, já que considero o filósofo pessimista demais para o meu gosto.

 

Não dá para saber se o curso com a escritora favorita tem potencial de desencadear textos poéticos ou apenas satisfazer a expectativa. Não dá para saber se a pedra empurrada morro acima, repetidamente, vai um dia virar poesia como virou com Drummond. Ou vai ser prosa.

 

Também não dá para saber se todas essas suposições fazem sentido para os outros. Se o pingente do Pequeno Príncipe ressoa nos outros como em mim. Se o clichê literário do “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” encontra eco em outros corações, se as relações verdadeiras nunca são perda de tempo.

 

Não dá para saber por que a lei do retorno insiste em não retornar de forma rápida, nem dá para saber se ela existe, de fato. Se a maldade está na língua e falar dos outros é um sinal de descontentamento com a própria vida.

 

Não dá para saber o que as pessoas mais ousadas pensam sobre a opinião alheia: não se importam ou se importam muito? Não dá para saber – e essa dúvida é muito instigante.

 

(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/trissia-ordovas-sartori/noticia/2024/04/nao-dapara-

saber-clvh6t0tu00dn01g38dqc2p98.html – texto adaptado especialmente para esta prova).

Assinale a alternativa que indica algo sobre o qual a autora se expressa com certeza.
  1. AO desejo da menina pela qual passou é chamar a atenção.
  2. BComo serão os próximos dias sem pessoas queridas que nos deixaram.
  3. CO filósofo Schopenhauer é pessimista demais para o seu gosto.
  4. DO curso com uma escritora favorita vai desencadear uma nova obra de qualidade.
  5. EA obra “Pequeno Príncipe” impacta a todos da mesma maneira.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — O filósofo Schopenhauer é pessimista demais para o seu gosto.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O que a autora afirma com certeza — Gabarito: letra C.

A alternativa C é a correta porque a autora expressa, com certeza, sua opinião sobre Schopenhauer: "considero o filósofo pessimista demais para o meu gosto". O verbo "considero" marca uma avaliação pessoal e categórica, sem hesitação. As demais alternativas tratam de suposições ou extrapolações que o texto não sustenta como certezas.

O comando: o que a banca pede

O enunciado pede algo sobre o qual a autora se expressa com certeza. Isso é uma questão de compreensão (recorrência): precisamos localizar no texto uma afirmação categórica, explícita, sem marcas de dúvida ou condicionalidade. Não se trata de inferir, mas de identificar o que está dito de forma direta e assertiva.

O texto: a estrutura da dúvida

O texto é construído em torno da repetição de "Não dá para saber" — a autora enumera diversas situações sobre as quais não temos como ter certeza: a intenção da menina de preto, o tom de uma mensagem, o futuro sem pessoas queridas, o efeito de um curso, o impacto do Pequeno Príncipe, entre outras. Essa estrutura cria um contraste: quase tudo é incerto, mas uma coisa ela afirma com convicção: sua opinião sobre Schopenhauer.

No parágrafo sobre o filósofo, lemos:

"Não dá para saber se Schopenhauer tem alguma razão ao falar que querer é essencialmente sofrer... Não dá para saber se minha opinião é distorcida, já que considero o filósofo pessimista demais para o meu gosto."

Aqui, a autora não diz "não dá para saber se ele é pessimista"; ela afirma "considero o filósofo pessimista demais para o meu gosto". O verbo "considero" é uma marca de opinião pessoal e categórica — ela não está em dúvida sobre o que pensa, apenas reconhece que sua opinião pode ser "distorcida" por considerar o filósofo pessimista. A certeza está na avaliação subjetiva, não na verdade objetiva sobre Schopenhauer.

A técnica: distinguir certeza de suposição

A chave é identificar marcas linguísticas de modalização: palavras e construções que indicam o grau de compromisso do autor com o que diz. Quando a autora usa "não dá para saber", ela sinaliza incerteza. Quando usa "considero", "é", "são", ela afirma com convicção. A alternativa correta é aquela que reproduz uma afirmação categórica — não uma hipótese, não uma possibilidade, não uma dedução.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto diz que a autora "Comecei a imaginar se ela estava nem aí para a opinião alheia... ou se fazia questão de provocar alguma comoção". A palavra "imaginar" indica especulação, não certeza. A alternativa transforma uma hipótese em fato, afirmando que o desejo da menina é chamar a atenção — o texto não autoriza essa conclusão.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O texto afirma: "Não dá para saber como teriam sido os próximos dias com gente querida que nos deixou precocemente". A alternativa diz que a autora se expressa com certeza sobre isso, o que é exatamente o oposto. Ela inverte o sentido do trecho.

Alternativa C — ✅ Correta

Gabarito. O texto afirma: "já que considero o filósofo pessimista demais para o meu gosto". A autora expressa com certeza sua opinião pessoal sobre Schopenhauer. O verbo "considero" é categórico — não há dúvida sobre o que ela pensa, apenas sobre se sua opinião é "distorcida". A certeza está na avaliação subjetiva.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto diz: "Não dá para saber se o curso com a escritora favorita tem potencial de desencadear textos poéticos ou apenas satisfazer a expectativa". A alternativa afirma que o curso vai desencadear uma nova obra de qualidade — o texto não diz isso, apenas especula sobre o potencial. Além disso, "qualidade" é um juízo de valor que o texto não emite.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: generalização indevida. O texto diz: "Se o pingente do Pequeno Príncipe ressoa nos outros como em mim" — ou seja, a autora não sabe se a obra impacta os outros da mesma forma. A alternativa afirma que impacta todos da mesma maneira, o que é uma generalização absoluta que o texto não sustenta. A palavra "todos" é um alerta clássico de restrição indevida.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o que a autora afirma com certeza (sua opinião sobre Schopenhauer) e o que ela especula (quase tudo o mais). As alternativas A, B, D e E pegam trechos que começam com "não dá para saber" e os transformam em certezas.

PEGA ESSA DICA!

Grife o comando: "se expressa com certeza" pede uma afirmação categórica, não uma hipótese. Desconfie de alternativas que usam verbos como "vai", "é", "todos" quando o texto usa "não dá para saber", "imaginar", "se".

Conclusão: a única alternativa que reproduz uma afirmação categórica da autora é a C, ancorada no trecho "considero o filósofo pessimista demais para o meu gosto". As demais ou extrapolam, ou contradizem, ou generalizam o que o texto apresenta como incerto.

Gabarito: letra C.

Link permanente: /questoes/qa604373