Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Orações Subordinadas Adverbiais — FUNDATEC 2024

PortuguêsOrações Subordinadas Adverbiais
Código
qa604385
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref Bagé
Ano
2024
Cargo
Eng ( )

Não dá para saber

Por Tríssia Ordovás Sartori

 

A menina passa por mim na Rua Borges de Medeiros toda vestida de preto, com cabelos esvoaçantes na cor lilás e coturnos adornados por asas de morcego, que se abrem e se fecham a cada passo — cada pé carrega um pedaço delas. Fiquei fascinada pelo movimento da parte do bicho feita em couro e pelo jeito blasé dela. E nem gosto de gente blasé.

 

Comecei a imaginar se ela estava nem aí para a opinião alheia, ao escolher um acessório tão inusitado, ou se fazia questão de provocar alguma comoção, já que era pouco provável não notá-la. Saber o que se passa exigiria uma aproximação e um interesse mútuo de troca. E a questão instigante, de verdade, é que não dá para saber. Ao menos não só de olhar para ela.

 

Não dá para saber se aquela mensagem de WhatsApp lida ás pressas entre uma reunião e outra tinha o tom grave do interlocutor ao escrevê-la como pareceu. Se a mensagem era piada interna ou só uma distração. Ou se a abreviação de beijo como bjs era motivo suficiente para provocar mal-estar ou se tratava apenas de um coloquialismo.

 

Não dá para saber como teriam sido os próximos dias com gente querida que nos deixou precocemente e só aparece nos sonhos. Como vai ser daqui para frente comemorar aniversário, Dia das Mães, natais em outra configuração, com o lugar a mesa sem ser preenchido.

 

Não dá para saber no que as pessoas se transformam depois que nosso vínculo com elas muda, antes da partilha de bens, depois da mudança. Assim como não dá para saber como vai ser a nova vida, o período de luto de uma história que se encerra, as possibilidades que surgem com a tomada de decisão. Com o despertar para si, com o conhecimento dos próprios desejos e limitações.

 

Não dá para saber se Schopenhauer tem alguma razão ao falar que querer é essencialmente sofrer, que o prazer da realização dura pouco e que estamos divididos entre o desejo de ter e o tédio de possuir. Não dá para saber se minha opinião é distorcida, já que considero o filósofo pessimista demais para o meu gosto.

 

Não dá para saber se o curso com a escritora favorita tem potencial de desencadear textos poéticos ou apenas satisfazer a expectativa. Não dá para saber se a pedra empurrada morro acima, repetidamente, vai um dia virar poesia como virou com Drummond. Ou vai ser prosa.

 

Também não dá para saber se todas essas suposições fazem sentido para os outros. Se o pingente do Pequeno Príncipe ressoa nos outros como em mim. Se o clichê literário do “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” encontra eco em outros corações, se as relações verdadeiras nunca são perda de tempo.

 

Não dá para saber por que a lei do retorno insiste em não retornar de forma rápida, nem dá para saber se ela existe, de fato. Se a maldade está na língua e falar dos outros é um sinal de descontentamento com a própria vida.

 

Não dá para saber o que as pessoas mais ousadas pensam sobre a opinião alheia: não se importam ou se importam muito? Não dá para saber – e essa dúvida é muito instigante.

 

(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/trissia-ordovas-sartori/noticia/2024/04/nao-dapara-

saber-clvh6t0tu00dn01g38dqc2p98.html – texto adaptado especialmente para esta prova).

Assinale a alternativa que indica o sentido introduzido pela conjunção “como” .
  1. ACausa.
  2. BComparação.
  3. CModo.
  4. DIntensidade.
  5. ECondição.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Modo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Sentido da conjunção “como” — Gabarito: letra C.

A questão pede o sentido introduzido pela conjunção “como” no texto, e a resposta é Modo. A conjunção “como” pode introduzir diferentes relações (causa, comparação, conformidade, modo), e o contexto do texto é o que decide. No trecho em que aparece, “como” indica a maneira como algo acontece, não uma causa, comparação, intensidade ou condição. A banca explora justamente a polissemia dessa conjunção, e a chave está em identificar a relação semântica que ela estabelece na passagem específica.

O comando e o método

O enunciado é direto: “Assinale a alternativa que indica o sentido introduzido pela conjunção ‘como’”. Isso é uma questão de gramática aplicada ao texto — não basta saber a lista de sentidos possíveis de “como”; é preciso ler o trecho e ver qual relação ele estabelece ali. O modo de cobrança é de conceito (função da conjunção), mas a resolução depende do contexto. A técnica é: localize a ocorrência de “como” no texto, identifique a oração que ela introduz e pergunte: essa oração responde a “de que maneira?”, “por quê?”, “em comparação com quê?”, “em que condição?”. A resposta que encaixar é a correta.

O texto e a passagem decisiva

O texto é uma crônica reflexiva sobre a impossibilidade de saber o que se passa na mente dos outros. A conjunção “como” aparece em várias passagens, mas a que decide a questão está no trecho:

“Não dá para saber como teriam sido os próximos dias com gente querida que nos deixou precocemente e só aparece nos sonhos.”

Aqui, “como” introduz uma oração que indica a maneira — o modo — como teriam sido esses dias. Não há ideia de causa (não responde a “por quê”), nem de comparação (não há dois termos sendo comparados), nem de intensidade ou condição. A oração “como teriam sido os próximos dias” funciona como adjunto adverbial de modo, respondendo à pergunta “de que maneira?”.

A regra e a pegadinha

A conjunção “como” é polissêmica: pode ser causal (“Como choveu, não saí”), comparativa (“Ela é tão alta como o irmão”), conformativa (“Fiz como você pediu”) e modal (“Fez como queria”, indicando modo). A banca adora cobrar essa distinção, e a pegadinha clássica é escolher “comparação” ou “causa” sem verificar o contexto. No trecho, não há comparação entre dois elementos — não há “tão... como” nem “mais... como”. Também não há causa: a oração não explica o motivo de algo. O que há é a maneira como os dias teriam sido.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a polissemia de “como”. A alternativa B (comparação) é a mais sedutora, pois “como” frequentemente introduz comparação, mas aqui não há dois termos comparados. A alternativa A (causa) também tenta, mas a oração não responde a “por quê”.

Análise das alternativas

Conjunção "como"
  • 1Sentidos possíveis
    • Causa ("Como choveu, não saí")
    • Comparação ("tão alta como o irmão")
    • Conformidade ("Fiz como você pediu")
    • Modo ("Fez como queria")
  • 2No texto
    • "como teriam sido os próximos dias"
    • Responde a "de que maneira?"
    • Adjunto adverbial de modo
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

Causa. A conjunção “como” pode ser causal, como em “Como estava chovendo, não saí”. No texto, porém, a oração “como teriam sido os próximos dias” não expressa o motivo de nada. Não há relação de causa e consequência. A alternativa extrapola um sentido possível da conjunção sem ancoragem no trecho.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Comparação. “Como” é comparativo em estruturas do tipo “tão... como”, “mais... como”. No trecho, não há dois elementos sendo comparados. A oração “como teriam sido os próximos dias” não estabelece paralelo entre duas situações. A alternativa confunde o valor comparativo com o modal, sem base no texto.

Alternativa C — ✅ Correta

Modo. A oração “como teriam sido os próximos dias” indica a maneira — o modo — como esses dias teriam ocorrido. Responde à pergunta “de que maneira?”. É exatamente o valor de adjunto adverbial de modo. A passagem confirma:

“Não dá para saber como teriam sido os próximos dias com gente querida que nos deixou precocemente e só aparece nos sonhos.”

Aqui, “como” = “de que modo”, “de que maneira”. Não há causa, comparação, intensidade ou condição.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Intensidade. “Como” pode indicar intensidade em construções exclamativas (“Como é lindo!”), mas no trecho não há exagero ou gradação. A oração não expressa “em que medida”. A alternativa inventa um sentido que o contexto não autoriza.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Condição. “Como” não é conjunção condicional típica (essas são “se”, “caso”, “desde que”). No trecho, não há ideia de condição — nada é apresentado como condição para outra coisa. A alternativa foge ao valor real da conjunção no contexto.

Conclusão

A resposta é a letra C, pois “como” introduz oração subordinada adverbial modal, indicando a maneira como algo acontece. Para acertar questões assim, sempre localize a ocorrência da conjunção no texto e teste qual pergunta ela responde: “de que maneira?” (modo), “por quê?” (causa), “em comparação com quê?” (comparação), “em que condição?” (condição). A alternativa que encaixar é a correta.

Gabarito: letra C.

Link permanente: /questoes/qa604385