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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Instituto Consulplan 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa604499
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
SEED PR
Ano
2024
Cargo
Prof ( )

O padeiro

 

Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento – mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante, me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a “greve do pão dormido”. De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que não obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo. Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:

 

– Não é ninguém, é o padeiro!

 

Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia de gritar aquilo?

 

“Então você não é ninguém?”

 

Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: “não é ninguém, não senhora, é o padeiro”. Assim ficara sabendo que não era ninguém...

 

Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno.

 

Era pela madrugada que deixava a redação do jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina – e muitas vezes já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.

 

Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou um artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; “não é ninguém, é o padeiro!”.

 

E assobiava pelas escadas.

 

(BRAGA, Rubem. O padeiro. In: Para gostar de ler. São Paulo: Ática, 1989.)

Texto para responder a questão.

   

Ao mencionar a “greve do pão dormido”, o narrador:

  1. ACritica o sistema de produção do pão.
  2. BAponta um problema econômico grave que afeta a todos.
  3. CExplica uma situação que o leva a refletir sobre a vida do padeiro.
  4. DDemonstra sua insatisfação com a falta de pão fresco pela manhã.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Explica uma situação que o leva a refletir sobre a vida do padeiro.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A função da "greve do pão dormido" na crônica

Gabarito: letra C. Ao mencionar a "greve do pão dormido", o narrador explica uma situação que o leva a refletir sobre a vida do padeiro — é o que se comprova no próprio texto: a greve é apenas o ponto de partida para a lembrança do padeiro, que ocupa todo o restante da crônica. A passagem que ancora essa leitura é o trecho em que, após tomar o café com pão dormido, o narrador diz: "E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente." A greve, portanto, não é o tema central; ela é o gatilho da memória e da reflexão sobre a humildade do padeiro.

O comando da questão é de compreensão ("Ao mencionar... o narrador:"), ou seja, pede que você identifique a função que a menção à greve exerce no texto — não o que você acha sobre greves, nem o que o texto diz sobre economia. A resposta correta é uma paráfrase do que está escrito: a greve é apresentada como um fato cotidiano que desencadeia a narrativa sobre o padeiro. As alternativas erradas, por sua vez, ou extrapolam o texto (A e B) ou contradizem o tom do narrador (D).

O texto é uma crônica narrativa de Rubem Braga. O narrador começa descrevendo a falta do pão costumeiro e a explicação da "greve do pão dormido" — um lock-out dos patrões. Mas logo em seguida ele diz: "Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente." A partir daí, toda a crônica é dedicada à lembrança do padeiro que se anunciava com "Não é ninguém, é o padeiro!", e à lição de humildade que o narrador recebeu. A greve, portanto, é apenas o pretexto para a reflexão — não o assunto principal.

A técnica para resolver é simples: pergunte-se qual é o papel daquela informação no desenvolvimento do texto. Se a greve fosse o tema, o texto continuaria falando dela; mas o texto muda de assunto imediatamente para o padeiro. A alternativa correta é a que descreve exatamente essa transição: a greve é uma situação que "leva o narrador a refletir sobre a vida do padeiro". As demais alternativas tentam fazer da greve um problema maior do que ela é no texto — um erro clássico de extrapolação.

  1. 1Greve do pão dormido
  2. 2Fato cotidiano (gatilho)
  3. 3Lembrança do padeiro
  4. 4Reflexão sobre humildade
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não critica o sistema de produção do pão. O narrador até aceita o pão dormido com naturalidade: "Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim." Não há nenhuma crítica ao modo de produção; a greve é apenas mencionada como um fato que explica a falta do pão. A alternativa acrescenta uma opinião que o autor não externa.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não trata de um "problema econômico grave que afeta a todos". A greve é descrita como um lock-out dos patrões, mas o narrador não a apresenta como uma crise econômica; ele a trata com leveza e segue sua rotina. A alternativa generaliza e amplia o alcance do texto, que é uma crônica pessoal, não uma análise econômica.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Correta. A menção à greve é o ponto de partida para a lembrança do padeiro. O texto diz: "E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente." Toda a narrativa seguinte é sobre o padeiro e a lição de humildade. A alternativa parafraseia com precisão essa função: a greve é uma situação que "leva o narrador a refletir sobre a vida do padeiro".

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O narrador não demonstra insatisfação com a falta de pão fresco. Pelo contrário, ele aceita a situação com resignação e até humor: "Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim." A alternativa inverte o tom do narrador, que é de aceitação, não de reclamação.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação — oferece alternativas que soam plausíveis (crítica ao sistema, problema econômico) mas que não estão no texto. A correta é a que descreve a função narrativa, não um julgamento.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, grife o comando ("Ao mencionar... o narrador:") e pergunte: qual é o papel dessa menção no texto? Se a menção é um pretexto para outro assunto, a resposta deve refletir essa transição.

Gabarito: letra C — a única que descreve com fidelidade o papel da "greve do pão dormido" no texto: um gatilho para a reflexão sobre o padeiro.

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