Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Avança SP 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa606290
Banca
Avança SP
Órgão
SAEP Pirassununga
Ano
2024
Cargo
Serv Limp ( )

Eu, Tarzan

 

Uma das cenas mais inverossímeis e mais fascinantes da literatura mundial é do Tarzan aprendendo a ler nos livros de seu pai. Todos conhecem a história — pelo menos todos os que, como eu, devoravam os livros do Tarzan. Lord e Lady Greystoke são abandonados por marinheiros amotinados em algum ponto da costa oriental da África.

 

Constroem uma casa sobre árvores na qual colocam seus pertences, inclusive os livros do lorde, e dentro da qual a lady dá à luz um filho. Os pais morrem pouco depois do nascimento da criança, que é criada por orangotangos. Um dia o jovem Tarzan resolve examinar o interior da cabana onde nasceu e descobre os livros do pai. Através de um processo de associações e deduções, Tarzan aprende a ler e a escrever, sozinho, não fosse ele um aristocrata.

 

O autor dos livros do Tarzan, Edgar Rice Burroughs, acreditava que, mesmo criado por orangotangos, um lorde inglês era um lorde inglês, dotado de um intelecto superior, e isso bastava para explicar a sua incrível autoalfabetização. Mas sempre achei que foi muita sorte do Tarzan seu pai não ser, por exemplo, um latinista.

 

Tarzan aprendeu inglês nos livros deixados pelo pai e pôde comunicar-se com outros humanos com facilidade desde o seu primeiro encontro com a civilização. Mas, e se tivesse aprendido latim? Não conseguiria se comunicar com ninguém, salvo pessoas que sabem latim. Pessoas, reconhecidamente, pouco tolerantes com as limitações alheias, e está aí — ou melhor, está lá, no passado — meu professor de latim que não me deixa mentir.

 

— Esse Tarzan, francamente. É um selvagem!

 

— Sei o que você quer dizer. Esse seu hábito de comer carne crua com as mãos, rosnando, o sangue escorrendo pelos cantos da boca...

 

— Não, não. Isso eu nem tinha notado. Mas ele é fraquíssimo nas declinações!

 

Enfim, a história de Tarzan e do seu aprendizado é uma boa metáfora para a importância de uma biblioteca, e de uma biblioteca adequada, na Educação. E também sugere a importância do fortuito na vida das pessoas. Pois como seria se, em vez dos livros que ajudaram Tarzan a descobrir coisas básicas — como o nome de tudo e o fato de que ele era um homem e não um animal —, ele tivesse descoberto grossos tomos filosóficos na cabana? Pode-se imaginar até o primeiro diálogo entre Tarzan e sua futura companheira.

 

— Eu, ser ontológico enquanto entidade histórica, você, Jane.

 

Não, Tarzan descobriu nos livros deixados pelo pai o que toda biblioteca deve ser, uma mistura do prático e do maravilhoso. É o lugar onde começamos a nos conhecer.

 

VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo: Objetiva, 2020.

Leia o texto para responder à questão     Para o narrador do texto, a história de Tarzan demonstra:
  1. Aa inteligência de que são dotados os aristocratas.
  2. Ba arrogância de falantes de latim e de inglês.
  3. Ca importância da leitura de livros adequados para a formação das pessoas.
  4. Da inteligência de orangotangos.
  5. Ea relevância do aprendizado de idiomas como latim.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — a importância da leitura de livros adequados para a formação das pessoas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A história de Tarzan como metáfora da biblioteca

Gabarito: letra C. Para o narrador, a história de Tarzan demonstra a importância da leitura de livros adequados para a formação das pessoas — ideia que ele explicita ao chamar a narrativa de "uma boa metáfora para a importância de uma biblioteca, e de uma biblioteca adequada, na Educação". A alternativa C é a única que parafraseia fielmente essa tese central, sem acrescentar, restringir ou contradizer o texto.

O comando: compreensão, não inferência

O enunciado pergunta "o que a história demonstra para o narrador". Isso é uma questão de compreensão/recorrência: a resposta está explícita no texto, expressa na voz do próprio narrador. Não se trata de deduzir algo das entrelinhas, mas de localizar a passagem em que o autor avalia o sentido da história. A técnica é: procurar a tese — e, em crônicas como esta, a tese costuma aparecer na conclusão, exatamente onde Verissimo a coloca.

O texto: a tese mora no último parágrafo

O narrador reconta a história de Tarzan (aprender a ler sozinho nos livros do pai) e, em seguida, abandona a narrativa para comentá-la. É nesse comentário que está a resposta. Ele diz:

"Enfim, a história de Tarzan e do seu aprendizado é uma boa metáfora para a importância de uma biblioteca, e de uma biblioteca adequada, na Educação."

E arremata no parágrafo final:

"Não, Tarzan descobriu nos livros deixados pelo pai o que toda biblioteca deve ser, uma mistura do prático e do maravilhoso. É o lugar onde começamos a nos conhecer."

A tese é dupla: (1) a biblioteca adequada é essencial na Educação; (2) ela deve combinar o prático e o maravilhoso. A alternativa C captura exatamente isso: "a importância da leitura de livros adequados para a formação das pessoas". Cada palavra da alternativa encontra eco no texto — "adequados" ecoa "biblioteca adequada"; "formação das pessoas" ecoa "na Educação" e "onde começamos a nos conhecer".

A técnica: teste da paráfrase

Para cada alternativa, pergunte: o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora? A correta é a única que se sustenta inteiramente no que está escrito. As distratoras, como veremos, ou extrapolam (trazem ideias que o texto não defende), ou tangenciam (falam de assunto correlato, mas não do que o narrador conclui).

Alternativa A — ❌ Incorreta

A inteligência de que são dotados os aristocratas.

O texto menciona essa ideia, mas a atribui ao autor dos livros, Edgar Rice Burroughs, não ao narrador:

"O autor dos livros do Tarzan, Edgar Rice Burroughs, acreditava que, mesmo criado por orangotangos, um lorde inglês era um lorde inglês, dotado de um intelecto superior, e isso bastava para explicar a sua incrível autoalfabetização."

Note o verbo: "acreditava" — é a crença de Burroughs, e o narrador a apresenta com distanciamento crítico ("Mas sempre achei que foi muita sorte do Tarzan seu pai não ser, por exemplo, um latinista"). A alternativa extrapola: transforma a opinião de um personagem citado na tese do narrador. O narrador não diz que a história demonstra a inteligência aristocrática; ele a usa para falar de biblioteca e educação.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A arrogância de falantes de latim e de inglês.

O texto faz uma piada com o professor de latim ("Pessoas, reconhecidamente, pouco tolerantes com as limitações alheias") e com o diálogo imaginado entre Tarzan e Jane ("— Esse Tarzan, francamente. É um selvagem!"). Mas isso é humor, não tese. O narrador não conclui que a história demonstra a arrogância de falantes de latim ou inglês — ele usa o latim como contrafactual para ilustrar a importância de a biblioteca ser adequada (se Tarzan tivesse aprendido latim, não conseguiria se comunicar). A alternativa tangencia: pega um elemento secundário (a piada) e o transforma em ideia central, ignorando a conclusão explícita.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A importância da leitura de livros adequados para a formação das pessoas.

Como provado acima, é a paráfrase direta da tese do narrador. O texto diz que a história é "uma boa metáfora para a importância de uma biblioteca, e de uma biblioteca adequada, na Educação" e que a biblioteca "é o lugar onde começamos a nos conhecer". A alternativa reescreve isso com outras palavras, sem acrescentar nem suprimir nada. É a única inteiramente sustentada pelo texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A inteligência de orangotangos.

O texto menciona que Tarzan foi "criado por orangotangos", mas em nenhum momento atribui a eles inteligência especial ou diz que a história demonstra isso. Os orangotangos são apenas o ambiente de criação; o foco é o que Tarzan descobre nos livros. A alternativa extrapola: inventa uma ideia que não está no texto, usando um elemento periférico da narrativa.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A relevância do aprendizado de idiomas como latim.

O texto usa o latim como exemplo do que NÃO seria adequado para Tarzan: "Mas, e se tivesse aprendido latim? Não conseguiria se comunicar com ninguém". O latim serve para mostrar que a biblioteca precisa ser adequada — não para defender a relevância do aprendizado de idiomas. A alternativa inverte o sentido: transforma um contrafactual (o que teria dado errado) em uma tese positiva. O narrador não diz que aprender latim é relevante; diz que, naquele contexto, teria sido inútil.

Fechamento

A regra de ouro desta questão: quando o enunciado pergunta "o que o texto demonstra", procure a tese explícita do autor — e desconfie de alternativas que soem plausíveis mas tragam ideias que o texto apenas menciona de passagem, cita como opinião alheia ou usa como piada. A correta é sempre a que reescreve a conclusão, sem tirar nem pôr.

NÃO CAIA NESSA!

Grife os verbos que indicam voz alheia — "acreditava", "dizia", "achava" — para não confundir a opinião de personagens citados com a tese do narrador. Aqui, "Burroughs acreditava" é a chave para eliminar a alternativa A.

Gabarito: letra C

Link permanente: /questoes/qa606290