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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Avança SP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa667292
Banca
Avança SP
Órgão
UNESP
Ano
2025
Cargo
Ass Adm ( )

Primeira paixão

O amor, nas crianças, é um estado de alma absorvente, pastoso e imenso que, embora não seja uma coisa muito definida, leva o menino apaixonado a uma série de sonhos, de medos, de renúncias, de tramas secretas e, principalmente, de ânsia heroica – quando a gente tem vontade que a amada comece a morrer afogada para a gente salvar.

Eu me lembro de que o meu primeiro e grande amor aconteceu aos seis anos de idade. Apaixonei-me perdidamente por uma moça de 30, por quem me cortaria, me queimaria, me desonraria e morreria, se preciso fosse. Só eu e eu sabíamos daquele caso de bem-querer, embora todo mundo houvesse descoberto nos meus olhos e na minha carinha de crime secreto. Ela era linda – achava eu que a amava – e tudo era perfeito. E só muitos anos mais tarde fui ver que aquilo que os outros diziam era verdade: ela era horrível.

Hoje ela vive ainda, vejo-a de vez em quando, velhinha gasta em tudo, muito mais feia do que quando era horrível; mas sinto pela sua fealdade uma especial ternura, uma imensa gratidão. Foi ela – e isto é importante – a chave que abriu meu coração para o amor e, pelos caminhos do amor, andei o mais que pude, sem queixas e sem arrependimentos.

Hoje, minha filha entrou na sala onde escrevo e veio andando de olhos baixos. Quis pedir que me deixasse em paz, mas seu jeito era tão solene e, ao mesmo tempo, tão humilde, tão vitorioso e tão vencido, que senti solidariedade. Abracei-a antes que começasse a falar. Abraçamo-nos. E ela começou a dizer: “Meu pai, estou noiva”. Perguntei de quem e ela disse o nome de um dos meninos da vizinhança.

Olhei para sua carinha de oito anos, deu vontade de rir, mas seria estragar a festa, quebrar a alegria de um dia de noivado. E falei, com o jeito mais sério que pude: “Meus parabéns, minha filha, espero que vocês sejam muito felizes... E, em 1965, quero entrar com você, de braços dados, na Candelária ou no Outeiro da Glória”. Olhei bem para ela e, em seus olhos da cor de abacate maduro, havia acordes da “Marcha nupcial”, do alemão Felix Mendelssohn.

MARIA, A. Primeira paixão. In: TAUIL, G. (Org.) Vento vadio: as crônicas de Antônio Maria, 2021, p. 277-278. (Adaptado).

Leia o texto a seguir para responder a questão

   

O excerto “Só eu e eu sabíamos daquele caso de bem-querer” permite inferir que:

  1. AO caso de bem-querer do narrador era público.
  2. BO narrador manteve em segredo o seu caso de bem-querer.
  3. CO caso de bem-querer do narrador não era público, mas pelo menos duas pessoas sabiam a seu respeito.
  4. DO narrador esperava que apenas a pessoa de quem gostava soubesse sobre a sua paixão.
  5. EO narrador esperava que todos ao seu redor soubessem que ele estava apaixonado.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — O narrador manteve em segredo o seu caso de bem-querer.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Inferência a partir de "Só eu e eu sabíamos"

Gabarito: letra B. O excerto permite inferir que o narrador manteve em segredo o seu caso de bem-querer, pois a expressão "Só eu e eu sabíamos" — com a repetição enfática do pronome "eu" — indica que apenas ele próprio tinha conhecimento da paixão. A pista textual está no próprio trecho: "Só eu e eu sabíamos daquele caso de bem-querer", que, somada à frase seguinte "embora todo mundo houvesse descoberto nos meus olhos e na minha carinha de crime secreto", reforça o caráter íntimo e oculto do sentimento.

O comando: inferir, não localizar

O enunciado pede uma inferência — verbo "permite inferir" —, ou seja, não se trata de encontrar uma informação literalmente escrita, mas de deduzir algo a partir de pistas do texto. A banca quer que você perceba o subentendido por trás da expressão. Diferente de uma questão de compreensão (que pede uma paráfrase direta), aqui você deve ler nas entrelinhas e concluir o que o autor quis dizer sem afirmar explicitamente.

O texto: a paixão secreta do narrador

No segundo parágrafo, o narrador conta sua primeira paixão, aos seis anos, por uma moça de 30. Ele diz: "Só eu e eu sabíamos daquele caso de bem-querer". A repetição do pronome "eu" — "eu e eu" — é uma ênfase estilística: não há outra pessoa envolvida no segredo, nem mesmo a amada. Logo em seguida, ele acrescenta: "embora todo mundo houvesse descoberto nos meus olhos e na minha carinha de crime secreto". Essa segunda parte confirma que, embora as pessoas percebessem algo (pelos olhos e pela expressão), o conhecimento íntimo do sentimento era exclusivamente dele. Portanto, a ideia central é: o caso era secreto, conhecido apenas pelo narrador.

A técnica: desmontar a expressão

A expressão "Só eu e eu sabíamos" é uma reduplicação enfática do pronome. Na língua coloquial, dizer "eu e eu" reforça a solidão do sujeito: não há "eu e você", não há "eu e ele" — há apenas o próprio eu, repetido. Isso significa que ninguém mais sabia, nem a moça amada, nem qualquer outra pessoa. A alternativa B capta exatamente isso: "O narrador manteve em segredo o seu caso de bem-querer".

NÃO CAIA NESSA!

A banca arma com a leitura literal de "eu e eu" — o candidato pode pensar que são duas pessoas (o narrador e mais alguém), caindo na alternativa C. Mas a repetição não indica duas pessoas; é um recurso de ênfase para dizer "só eu mesmo".

Análise das alternativas

1Reduplicação enfática do pronome
Não são duas pessoas
Reforça exclusividade do eu
2Inferência
Caso mantido em segredo
Conhecimento íntimo só do narrador
3Confirmação no texto
"crime secreto"
"carinha de crime secreto"
"Só eu e eu sabíamos"
LEVELsoulevel.com.br
"Só eu e eu sabíamos": Reduplicação enfática do pronome (Não são duas pessoas, Reforça exclusividade do eu); Inferência (Caso mantido em segredo, Conhecimento íntimo só do narrador); Confirmação no texto ("crime secreto", "carinha de crime secreto")

Alternativa A — ❌ Incorreta

"O caso de bem-querer do narrador era público."

Contradiz o texto. O trecho diz "Só eu e eu sabíamos", o que exclui publicidade. Além disso, o narrador fala em "crime secreto" e "carinha de crime secreto", reforçando o caráter oculto. A alternativa inverte o sentido: o caso não era público.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"O narrador manteve em segredo o seu caso de bem-querer."

Paráfrase fiel da inferência. A expressão "Só eu e eu sabíamos" indica que apenas o narrador conhecia o caso; a palavra "segredo" resume o subentendido. O texto ainda fala em "crime secreto", confirmando o sigilo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"O caso de bem-querer do narrador não era público, mas pelo menos duas pessoas sabiam a seu respeito."

Extrapola e contradiz. A primeira parte (não público) está correta, mas a segunda ("pelo menos duas pessoas sabiam") é uma leitura literal equivocada de "eu e eu". A repetição do pronome não indica duas pessoas; indica ênfase na exclusividade do eu. O texto não autoriza a existência de outra pessoa sabendo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"O narrador esperava que apenas a pessoa de quem gostava soubesse sobre a sua paixão."

Extrapola. O texto não diz que o narrador esperava que a moça soubesse; pelo contrário, ele mantém o caso em segredo. Não há pista de desejo de revelação. A alternativa acrescenta uma expectativa inexistente.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"O narrador esperava que todos ao seu redor soubessem que ele estava apaixonado."

Contradiz o texto. O narrador fala em "crime secreto" e diz que "todo mundo houvesse descoberto" — ou seja, as pessoas perceberam contra a vontade dele, não porque ele esperava. A alternativa inverte a relação: ele queria esconder, não revelar.

Conclusão

A questão testa sua capacidade de inferir o subentendido de uma expressão enfática. A regra de ouro: desconfie de leituras literais e pergunte-se "o que o autor quer dizer com isso?". Aqui, "eu e eu" = "só eu mesmo", logo, segredo absoluto. Gabarito: letra B.

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