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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Avança SP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa667322
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Vinhedo
Ano
2025
Cargo
Prof (Vinhedo)

Menino dado

 

— Quer esse menininho para o senhor? Pode levar. 

 

Aconteceu no Rio, como acontecem tantas coisas. O rapaz entrou no café da rua Luís de Camões e começou a oferecer o filho de seis meses. Em voz baixa, ao pé do ouvido, como esses vendedores clandestinos que nos propõem um relógio submersível. Com esta diferença: era dado, de presente. Uns não o levaram a sério, outros não acharam interessante a doação. Que iriam fazer com aquela coisinha exigente, boca aberta para mamar e devorar a escassa comida, corpo a vestir, pés a calçar, e mais dentista e médico e farmácia e colégio e tudo que custa um novo ser, em dinheiro e aflição? 

 

— Fique com ele. É muito bonzinho, não chora nem reclama. Não lhe cobro nada... 

 

Podia ser que fizesse aquilo em bem do menino, por um desses atos de renúncia que significam amor absoluto. O tom era sério, e a cara, angustiada. O rapaz era pobre, visivelmente. Mas todos ali o eram também, em graus diferentes. E a ninguém apetecia ganhar um bebê, ou, senão, quem nutria esse desejo o sofreava. Mesmo sem jamais ter folheado o Código Penal, toda gente sabe que carregar com filho dos outros dá cadeia, muita.

 

Mas o pai insistia, com bons modos e boas razões: desempregado, abandonado pela mulher. O bebê, de olhinhos tranquilos, olhava sem reprovação para tudo. De fato, não era de reclamar, e parecia que ele próprio queria ser dado. Até que apareceu uma senhora gorda e topou o oferecimento: 

 

— Já tenho seis lá em casa, que mal faz inteirar sete? Moço, eu fico com ele. 

 

Disse mais que morava em Senador Camará, num sobradão assim assim, e lá se foi com o presente. O pai se esquecera de perguntar lhe o nome, ou preferia não saber. Nenhum papel escrito selara o ajuste; nem havia ajuste. Havia um bebê que mudou de mãos e agora começa a fazer falta ao pai. 

 

— Pra que fui dar esse menino? — interroga-se ele. Chega em casa e não sabe como explicar à mulher o que fizera. Porque não fora abandonado por ela; os dois tinham apenas brigado, e o marido, na vermelhidão da raiva, saíra com o filho para dá-lo a quem quisesse. 

 

A mulher nem teve tempo de brigar outra vez. Correram os dois em busca do menino dado, foram ao vago endereço, perguntaram pela vaga senhora. Não há notícia. No estirão do subúrbio, no estirão maior deste Rio, como pode um bebê fazer-se notar? E logo esse, manso de natureza, pronto a aceitar quaisquer pais que lhe deem, talvez na pré-consciência mágica de que pais deixaram de ter importância.

 

E o pai volta ao café da rua Luís de Camões, interroga um e outro, nada: ninguém mais viu aquela senhora. Disposto a procurá-la por toda parte, ele anuncia: 

 

— Fico sem camisa, mas compro o menino pelo preço que ela quiser. 

 

ANDRADE, C. D. Menino dado. Correio da Manhã. Disponível em 

<https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/19403/menino-dado>.

Leia o texto a seguir para responder à questão.     Depreende-se, com a leitura do texto, que:
  1. AA mulher concordava com o marido sobre não poderem mais criar o bebê.
  2. BO pai do bebê decidiu dá-lo de presente a quem o quisesse por ele não parar de chorar.
  3. CA senhora que adotou o bebê não informou o pai sobre seu nome porque era mal-intencionada.
  4. DA atitude do pai, de dar o bebê a quem o quisesse, foi inconsequente.
  5. EOs pais do bebê não tinham condição de criá-lo por serem muito pobres.
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GabaritoD — A atitude do pai, de dar o bebê a quem o quisesse, foi inconsequente.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Interpretação de Texto: A Inconsequência do Pai em "Menino Dado"

Gabarito: letra D. A atitude do pai, de dar o bebê a quem o quisesse, foi inconsequente. O texto comprova isso ao revelar que o pai agiu por impulso, numa briga com a mulher, e depois se arrepende amargamente, disposto a "ficar sem camisa" para recuperar o filho. A passagem que ancora essa leitura é o trecho em que o narrador explica o motivo real da doação: "Porque não fora abandonado por ela; os dois tinham apenas brigado, e o marido, na vermelhidão da raiva, saíra com o filho para dá-lo a quem quisesse."

O comando da questão pede uma inferência ("Depreende-se"), ou seja, uma conclusão que não está literalmente escrita, mas que é obrigatoriamente sustentada por pistas do texto. Não se trata de localizar uma informação explícita, mas de deduzir algo que o autor deixou nas entrelinhas. A alternativa correta é aquela que o texto autoriza — e não aquela que parece verdadeira no mundo real ou que completa lacunas com a imaginação do leitor.

O texto narra a história de um pai que, num momento de raiva após uma briga com a esposa, sai de casa com o filho de seis meses e o oferece a desconhecidos num café. A princípio, o narrador até levanta a hipótese de um ato de amor: "Podia ser que fizesse aquilo em bem do menino, por um desses atos de renúncia que significam amor absoluto." Mas essa hipótese é descartada logo em seguida, quando o narrador revela a verdadeira motivação: o pai não foi abandonado pela mulher; os dois apenas brigaram, e ele, "na vermelhidão da raiva", saiu com o filho para dá-lo a quem quisesse. Essa revelação é a chave para a inferência correta: o ato foi impensado, precipitado, inconsequente.

A inconsequência fica ainda mais evidente no desfecho. O pai, ao chegar em casa, "não sabe como explicar à mulher o que fizera" e, arrependido, corre com ela em busca do menino. A frase final — "Fico sem camisa, mas compro o menino pelo preço que ela quiser" — mostra o desespero de quem age tarde demais. O texto, portanto, não apenas narra o ato, mas o qualifica implicitamente como um erro, uma atitude tomada sem pensar nas consequências.

A técnica para resolver esta questão é simples: teste cada alternativa perguntando: o texto AUTORIZA isto, ou exige acrescentar algo de fora? A alternativa correta é a única que se sustenta inteiramente nas pistas textuais, sem extrapolação, sem opinião embutida e sem contradizer o que está escrito.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que "A mulher concordava com o marido sobre não poderem mais criar o bebê." O texto contradiz essa ideia. A mulher não concordou com nada; ela nem sabia da doação. O narrador revela: "Porque não fora abandonado por ela; os dois tinham apenas brigado, e o marido, na vermelhidão da raiva, saíra com o filho para dá-lo a quem quisesse." A mulher só descobre o ocorrido depois, quando o pai volta para casa. A alternativa extrapola ao inventar um acordo que não existe no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o pai decidiu dar o bebê "por ele não parar de chorar". O texto contradiz essa informação. O pai, ao oferecer o menino, diz: "É muito bonzinho, não chora nem reclama." O narrador também descreve o bebê como "de olhinhos tranquilos" e "manso de natureza". A alternativa troca o vocábulo: inverte a característica do bebê, que é calmo, e não chorão. O motivo real da doação foi a raiva da briga, não o choro.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a senhora "não informou o pai sobre seu nome porque era mal-intencionada". O texto não sustenta essa conclusão. O narrador diz: "O pai se esquecera de perguntar-lhe o nome, ou preferia não saber." Ou seja, a falta de informação partiu do pai, não da senhora. A alternativa extrapola ao atribuir má intenção à senhora, algo que o texto não afirma em nenhum momento. Não há pista de que ela fosse mal-intencionada; ela apenas aceitou o bebê.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que a atitude do pai foi inconsequente. O texto autoriza essa inferência. O pai agiu por impulso, "na vermelhidão da raiva", sem pensar nas consequências. Depois, arrepende-se: "Chega em casa e não sabe como explicar à mulher o que fizera." E, no final, desesperado, diz: "Fico sem camisa, mas compro o menino pelo preço que ela quiser." A palavra "inconsequente" resume perfeitamente o ato de dar o próprio filho a um desconhecido num momento de raiva, sem avaliar o que isso significaria. A inferência é legítima, pois se apoia em pistas claras do texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que os pais "não tinham condição de criá-lo por serem muito pobres". O texto não sustenta essa conclusão. É verdade que o pai é descrito como "pobre, visivelmente", e que ele alega estar "desempregado". Mas o texto não diz que a pobreza foi o motivo da doação. O motivo real foi a briga: "os dois tinham apenas brigado". A alternativa extrapola ao transformar a pobreza em causa, quando o texto a apresenta apenas como contexto. Além disso, a mulher não concordou em abrir mão do filho, o que reforça que a pobreza não era o motivo.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a tendência de completar lacunas com o senso comum. As alternativas A, B, C e E parecem plausíveis, mas cada uma acrescenta ou inverte informações que o texto não traz. A correta exige inferir a inconsequência, ancorada na revelação do motivo real da doação.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de inferência, desconfie de alternativas que usam palavras absolutas ("sempre", "nunca", "todos") ou que atribuem intenções não mencionadas. A resposta certa é a que o texto obriga a concluir, não a que parece verdadeira no mundo real.

Conclusão: a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a letra D. As demais ou contradizem o texto (A e B), ou extrapolam ao acrescentar informações (C e E). A regra de ouro: inferência legítima tem pista no texto; extrapolação é invenção do leitor.

Gabarito: letra D

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