Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Figuras de Linguagem — Avança SP 2025

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
qa667323
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Vinhedo
Ano
2025
Cargo
Prof (Vinhedo)

Menino dado

 

— Quer esse menininho para o senhor? Pode levar. 

 

Aconteceu no Rio, como acontecem tantas coisas. O rapaz entrou no café da rua Luís de Camões e começou a oferecer o filho de seis meses. Em voz baixa, ao pé do ouvido, como esses vendedores clandestinos que nos propõem um relógio submersível. Com esta diferença: era dado, de presente. Uns não o levaram a sério, outros não acharam interessante a doação. Que iriam fazer com aquela coisinha exigente, boca aberta para mamar e devorar a escassa comida, corpo a vestir, pés a calçar, e mais dentista e médico e farmácia e colégio e tudo que custa um novo ser, em dinheiro e aflição? 

 

— Fique com ele. É muito bonzinho, não chora nem reclama. Não lhe cobro nada... 

 

Podia ser que fizesse aquilo em bem do menino, por um desses atos de renúncia que significam amor absoluto. O tom era sério, e a cara, angustiada. O rapaz era pobre, visivelmente. Mas todos ali o eram também, em graus diferentes. E a ninguém apetecia ganhar um bebê, ou, senão, quem nutria esse desejo o sofreava. Mesmo sem jamais ter folheado o Código Penal, toda gente sabe que carregar com filho dos outros dá cadeia, muita.

 

Mas o pai insistia, com bons modos e boas razões: desempregado, abandonado pela mulher. O bebê, de olhinhos tranquilos, olhava sem reprovação para tudo. De fato, não era de reclamar, e parecia que ele próprio queria ser dado. Até que apareceu uma senhora gorda e topou o oferecimento: 

 

— Já tenho seis lá em casa, que mal faz inteirar sete? Moço, eu fico com ele. 

 

Disse mais que morava em Senador Camará, num sobradão assim assim, e lá se foi com o presente. O pai se esquecera de perguntar lhe o nome, ou preferia não saber. Nenhum papel escrito selara o ajuste; nem havia ajuste. Havia um bebê que mudou de mãos e agora começa a fazer falta ao pai. 

 

— Pra que fui dar esse menino? — interroga-se ele. Chega em casa e não sabe como explicar à mulher o que fizera. Porque não fora abandonado por ela; os dois tinham apenas brigado, e o marido, na vermelhidão da raiva, saíra com o filho para dá-lo a quem quisesse. 

 

A mulher nem teve tempo de brigar outra vez. Correram os dois em busca do menino dado, foram ao vago endereço, perguntaram pela vaga senhora. Não há notícia. No estirão do subúrbio, no estirão maior deste Rio, como pode um bebê fazer-se notar? E logo esse, manso de natureza, pronto a aceitar quaisquer pais que lhe deem, talvez na pré-consciência mágica de que pais deixaram de ter importância.

 

E o pai volta ao café da rua Luís de Camões, interroga um e outro, nada: ninguém mais viu aquela senhora. Disposto a procurá-la por toda parte, ele anuncia: 

 

— Fico sem camisa, mas compro o menino pelo preço que ela quiser. 

 

ANDRADE, C. D. Menino dado. Correio da Manhã. Disponível em 

<https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/19403/menino-dado>.

Leia o texto a seguir para responder à questão.

   

Observa-se a repetição da conjunção aditiva em “corpo a vestir, pés a calçar, e mais dentista e médico e farmácia e colégio e tudo que custa um novo ser, em dinheiro e aflição?” como um recurso estilístico do narrador. Esse recurso corresponde à figura de linguagem:

  1. Ainversão.
  2. Banacoluto.
  3. Cpolissíndeto.
  4. Dsilepse.
  5. Eonomatopeia.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — polissíndeto.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Polissíndeto: A Repetição Deliberada de Conectivos

Gabarito: letra C. O trecho “corpo a vestir, pés a calçar, e mais dentista e médico e farmácia e colégio e tudo que custa um novo ser, em dinheiro e aflição?” é um caso clássico de polissíndeto, figura de construção que consiste na repetição intencional de uma conjunção (aqui, o “e”) para gerar efeito de acumulação, ênfase e ritmo. A banca pede exatamente o nome desse recurso estilístico, e a passagem do texto o comprova: a conjunção aditiva “e” é repetida sucessivamente, ligando os elementos de uma enumeração.

O Comando: Reconhecer a Figura de Linguagem

A questão não pede interpretação de sentido, mas sim o reconhecimento de uma figura de linguagem a partir de um trecho específico. O comando é direto: “Esse recurso corresponde à figura de linguagem”. Isso significa que você deve identificar o mecanismo estilístico empregado — no caso, a repetição de um conectivo — e nomeá-lo corretamente. Não há inferência a fazer; a resposta está na definição da figura e na observação do trecho.

O Texto: Onde a Repetição Mora

No segundo parágrafo, o narrador descreve o que as pessoas pensam ao recusar o bebê: “Que iriam fazer com aquela coisinha exigente, boca aberta para mamar e devorar a escassa comida, corpo a vestir, pés a calçar, e mais dentista e médico e farmácia e colégio e tudo que custa um novo ser, em dinheiro e aflição?”. A enumeração de custos e necessidades é costurada pela conjunção “e”, repetida de forma deliberada. Essa repetição não é acidental; é um recurso expressivo que intensifica a sensação de acúmulo de responsabilidades, tornando a lista quase exaustiva e opressiva.

A Técnica: Polissíndeto × Assíndeto

O polissíndeto é a figura de construção (ou sintaxe) que se caracteriza pela repetição de conectivos (geralmente “e”, “nem”, “ou”) entre os termos de uma enumeração. Seu efeito é de acúmulo, ênfase e ritmo cadenciado, como se cada elemento fosse acrescentado com peso próprio. O oposto é o assíndeto, que suprime os conectivos, criando um efeito de rapidez e subjetividade (ex.: “Chegou, bebeu, comeu, partiu”).

No trecho, temos a repetição de “e” em “dentista e médico e farmácia e colégio e tudo”. Isso é polissíndeto puro. A banca explora justamente essa distinção: quem confunde as duas figuras pode cair na armadilha de achar que é assíndeto, mas o assíndeto não repete conectivo — ele o omite.

NÃO CAIA NESSA!

A banca não oferece “assíndeto” como alternativa, mas a confusão mental entre as duas figuras é o erro mais comum. O polissíndeto repete o conectivo; o assíndeto omite. No trecho, o “e” aparece várias vezes — logo, é polissíndeto.

Análise das Alternativas

1Polissíndeto
Repete conectivos
Efeito: acúmulo, ênfase, ritmo
2Assíndeto
Omite conectivos
Efeito: rapidez, subjetividade
3Inversão (hipérbato)
Altera ordem direta
4Anacoluto
Quebra estrutura sintática
Termo solto
5Silepse
Concordância com a ideia
Figuras de construção
LEVELsoulevel.com.br
Figuras de construção: Polissíndeto (Repete conectivos, Efeito: acúmulo, ênfase, ritmo); Assíndeto (Omite conectivos, Efeito: rapidez, subjetividade); Inversão (hipérbato) (Altera ordem direta); Anacoluto (Quebra estrutura sintática, Termo solto); Silepse (Concordância com a ideia)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Inversão (ou hipérbato) é a figura que altera a ordem direta dos termos da oração (sujeito + verbo + complemento) por razões estilísticas. No trecho, a ordem é normal: “dentista e médico e farmácia e colégio” são objetos diretos do verbo “custar”, dispostos em sequência natural. Não há inversão sintática. A alternativa tangencia o tema, pois fala de uma figura de construção, mas não corresponde ao que ocorre no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Anacoluto é a quebra da estrutura sintática da frase, deixando um termo “solto”, sem função sintática definida (ex.: “Eu, não sei o que fazer”). No trecho, a estrutura está íntegra: todos os termos se ligam coerentemente ao verbo. Não há termo solto nem ruptura. A alternativa contradiz o texto, pois atribui uma desorganização sintática que não existe.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Polissíndeto é a repetição de uma conjunção coordenativa para dar ênfase e ritmo à enumeração. O trecho “e mais dentista e médico e farmácia e colégio e tudo” é o exemplo perfeito: a conjunção aditiva “e” é repetida sucessivamente, ligando os elementos e criando um efeito de acúmulo. O próprio enunciado já aponta a pista: “Observa-se a repetição da conjunção aditiva”. A figura que nomeia essa repetição é o polissíndeto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Silepse é a concordância que se faz com a ideia, e não com a forma gramatical (ex.: “A multidão gritava, e eu os ouvia” — concordância com a ideia de plural). No trecho, não há qualquer desvio de concordância. A alternativa extrapola o texto, pois introduz um fenômeno gramatical que não está presente.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Onomatopeia é a figura de som que imita ruídos e sons naturais (ex.: “tic-tac”, “cocoricó”). No trecho, não há imitação de sons; há apenas uma enumeração de substantivos. A alternativa tangencia o tema, pois fala de uma figura de linguagem, mas de uma categoria completamente diferente (figura de som, não de construção).

Fechamento

A regra de ouro para questões de figuras de linguagem é: identifique o mecanismo (repetição? omissão? inversão? exagero?) e confronte com a definição. No trecho, o mecanismo é a repetição da conjunção “e” — isso só pode ser polissíndeto. Guarde o par: polissíndeto repete conectivo; assíndeto omite. Essa distinção resolve a maioria das questões sobre o tema.

Gabarito: letra C

Link permanente: /questoes/qa667323