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Questão de Português — Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc) — Avança SP 2025

PortuguêsPontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)
Código
qa667324
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Vinhedo
Ano
2025
Cargo
Prof (Vinhedo)

Menino dado

 

— Quer esse menininho para o senhor? Pode levar. 

 

Aconteceu no Rio, como acontecem tantas coisas. O rapaz entrou no café da rua Luís de Camões e começou a oferecer o filho de seis meses. Em voz baixa, ao pé do ouvido, como esses vendedores clandestinos que nos propõem um relógio submersível. Com esta diferença: era dado, de presente. Uns não o levaram a sério, outros não acharam interessante a doação. Que iriam fazer com aquela coisinha exigente, boca aberta para mamar e devorar a escassa comida, corpo a vestir, pés a calçar, e mais dentista e médico e farmácia e colégio e tudo que custa um novo ser, em dinheiro e aflição? 

 

— Fique com ele. É muito bonzinho, não chora nem reclama. Não lhe cobro nada... 

 

Podia ser que fizesse aquilo em bem do menino, por um desses atos de renúncia que significam amor absoluto. O tom era sério, e a cara, angustiada. O rapaz era pobre, visivelmente. Mas todos ali o eram também, em graus diferentes. E a ninguém apetecia ganhar um bebê, ou, senão, quem nutria esse desejo o sofreava. Mesmo sem jamais ter folheado o Código Penal, toda gente sabe que carregar com filho dos outros dá cadeia, muita.

 

Mas o pai insistia, com bons modos e boas razões: desempregado, abandonado pela mulher. O bebê, de olhinhos tranquilos, olhava sem reprovação para tudo. De fato, não era de reclamar, e parecia que ele próprio queria ser dado. Até que apareceu uma senhora gorda e topou o oferecimento: 

 

— Já tenho seis lá em casa, que mal faz inteirar sete? Moço, eu fico com ele. 

 

Disse mais que morava em Senador Camará, num sobradão assim assim, e lá se foi com o presente. O pai se esquecera de perguntar lhe o nome, ou preferia não saber. Nenhum papel escrito selara o ajuste; nem havia ajuste. Havia um bebê que mudou de mãos e agora começa a fazer falta ao pai. 

 

— Pra que fui dar esse menino? — interroga-se ele. Chega em casa e não sabe como explicar à mulher o que fizera. Porque não fora abandonado por ela; os dois tinham apenas brigado, e o marido, na vermelhidão da raiva, saíra com o filho para dá-lo a quem quisesse. 

 

A mulher nem teve tempo de brigar outra vez. Correram os dois em busca do menino dado, foram ao vago endereço, perguntaram pela vaga senhora. Não há notícia. No estirão do subúrbio, no estirão maior deste Rio, como pode um bebê fazer-se notar? E logo esse, manso de natureza, pronto a aceitar quaisquer pais que lhe deem, talvez na pré-consciência mágica de que pais deixaram de ter importância.

 

E o pai volta ao café da rua Luís de Camões, interroga um e outro, nada: ninguém mais viu aquela senhora. Disposto a procurá-la por toda parte, ele anuncia: 

 

— Fico sem camisa, mas compro o menino pelo preço que ela quiser. 

 

ANDRADE, C. D. Menino dado. Correio da Manhã. Disponível em 

<https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/19403/menino-dado>.

Leia o texto a seguir para responder à questão.

   

A segunda vírgula empregada em “O tom era sério, e a cara, angustiada” indica:

  1. Auma oração adjetiva explicativa.
  2. Bum aposto do substantivo “cara”.
  3. Cuma construção pleonástica.
  4. Da elipse do verbo “era”, reaproveitado da oração antecedente.
  5. Euma oração reduzida de particípio.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — a elipse do verbo “era”, reaproveitado da oração antecedente.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Uso da Vírgula: Elipse do Verbo (Zeugma)

Gabarito: letra D. A segunda vírgula em “O tom era sério, e a cara, angustiada” indica a elipse do verbo “era”, que é reaproveitado da oração antecedente — fenômeno conhecido como zeugma. A estrutura completa seria: “O tom era sério, e a cara era angustiada”. A vírgula marca exatamente essa omissão, como se lê no trecho do texto.

“O tom era sério, e a cara, angustiada.”

Aqui, a vírgula não separa um aposto, não introduz uma oração adjetiva, não cria pleonasmo nem reduz uma oração de particípio: ela sinaliza que o verbo “era” foi omitido na segunda oração, porque já apareceu na primeira. Essa é a função clássica da vírgula para marcar elipse (omissão de termo sem referente) ou, mais especificamente, zeugma (omissão de termo já mencionado).

O Comando

A questão pergunta o que a segunda vírgula indica — ou seja, qual é a função sintática desse sinal de pontuação no trecho. Não se trata de interpretação de sentido, mas de análise gramatical: é preciso reconhecer o fenômeno que a vírgula marca. O comando é direto: “indica” pede que você identifique o uso específico da vírgula, não que explique o sentido do texto.

O Texto e a Estrutura

No trecho, há duas orações coordenadas:

  • 1ª oração: “O tom era sério” — sujeito “O tom”, verbo “era”, predicativo “sério”.

  • 2ª oração: “e a cara, angustiada” — sujeito “a cara”, verbo omitido, predicativo “angustiada”.

O verbo “era” é o mesmo nas duas orações; na segunda, ele é suprimido para evitar repetição, e a vírgula indica essa supressão. Isso é zeugma, um tipo específico de elipse em que o termo omitido já foi expresso anteriormente.

A Técnica: Elipse × Zeugma

  • Elipse: omissão de um termo que não foi mencionado antes. Ex.: “Na casa de mamãe, roupa lavada; na minha, contas embaixo da porta” (omite-se “há/está”).

  • Zeugma: omissão de um termo já expresso anteriormente. Ex.: “O meu pai foi peão, minha mãe, solidão” (omite-se “foi”).

No trecho da questão, o verbo “era” já apareceu na primeira oração, então a omissão é zeugma. A vírgula é o marcador dessa omissão.

Análise das Alternativas

Vírgula marcando elipse (zeugma)
  • 1O que é zeugma
    • Omissão de termo já expresso
    • Evita repetição
  • 2No trecho
    • 1ª oração: "O tom era sério"
    • 2ª oração: "a cara, angustiada"
    • Verbo "era" omitido
  • 3Distinções
    • Elipse: termo não mencionado antes
    • Zeugma: termo já mencionado
    • Aposto: explica outro termo
    • Pleonasmo: repetição intencional
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Oração adjetiva explicativa é aquela introduzida por pronome relativo (que, o qual, cujo) e que acrescenta uma explicação, sempre entre vírgulas. Ex.: “O homem, que era sábio, venceu.” No trecho, não há pronome relativo nem oração com verbo explícito; há apenas um termo solto “angustiada”. Portanto, não é oração adjetiva. A alternativa confunde o uso da vírgula para isolar orações explicativas com a marcação de elipse.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Aposto é um termo que explica ou especifica outro, geralmente entre vírgulas. Ex.: “Ares, o deus da guerra, inspirava os troianos.” No trecho, “angustiada” não explica “cara”; ela é o predicativo do sujeito “a cara”, e o verbo “era” está oculto. Não há aposto. A alternativa troca o conceito de aposto pelo de predicativo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Pleonasmo é a repetição intencional de uma ideia para reforço. Ex.: “Subir para cima”, “sair para fora”. No trecho, não há redundância; há omissão de um termo. A alternativa inverte o fenômeno: em vez de repetir, o texto suprime.

Alternativa D — ✅ Correta

Como explicado, a vírgula marca a elipse do verbo “era”, que é reaproveitado da oração antecedente. Isso é zeugma. A alternativa está correta e é o gabarito.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Oração reduzida de particípio é aquela em que o verbo está numa forma nominal (particípio) e não é introduzida por conjunção. Ex.: “Terminada a prova, saí.” No trecho, não há particípio; há um verbo omitido. A alternativa confunde a forma nominal com a elipse.

Conclusão

A segunda vírgula em “O tom era sério, e a cara, angustiada” indica a elipse do verbo “era”, fenômeno conhecido como zeugma. A alternativa D é a única que descreve corretamente essa função.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar a função da vírgula, pergunte-se: há um termo omitido? Se sim, é elipse/zeugma. Se há um termo explicativo, é aposto. Se há um pronome relativo, é oração adjetiva. Essa distinção resolve a maioria das questões de pontuação.

Gabarito: letra D

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