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Questão de Português — Denotação e Conotação — Avança SP 2025

PortuguêsDenotação e Conotação
Código
qa667426
Banca
Avança SP
Órgão
Pref SM Arcanjo
Ano
2025
Cargo
Prof (SM Arcanjo)

A tarde a multidão

 

Todos estão tristes às 4h25 da tarde, na avenida Nossa Senhora de Copacabana. São muitas pessoas e todos os rostos são apreensivos. É como se houvesse uma causa comum, essencial, anterior. Todos caminham amargurados às 4h25 da tarde, na avenida Nossa Senhora de Copacabana.

 

Por quê, se não vai chover e se o mar não vai transbordar? Por que esse ar de todos, tão aflito, de quem não se sabe achar?

 

Tempos atrás, passei pela avenida Nossa Senhora de Copacabana, todos eram felizes. O amargurado era eu. Hoje, na multidão, não tenho mais que dois problemas. Dói-me a botina nova, no pé esquerdo, e vou comprar um ferro elétrico. Quanto à botina, bastará descalçá-la quando chegar em casa. E sentir a dor passando, que é um prazer muito maior que o de nunca ter tido dor nenhuma. Mas, o ferro elétrico? E o ferro elétrico? Como é que se compra um ferro elétrico?

 

Pergunta-me o homem do balcão:

 

— Como é que o senhor quer o ferro elétrico?

 

Hesito e respondo, na medida do possível:

 

— Um que seja bem elétrico.

 

Sim, porque se vou comprar um ferro elétrico, quanto mais elétrico for, melhor. Se fosse comprar um quadro-negro, tinha que ser o mais negro de todos.

 

Volto à rua e as pessoas estão ainda mais aflitas às 5h15 da tarde, na avenida Nossa Senhora de Copacabana. A tarde vã, desperdiçada, no rosto de cada semelhante. Como se cada um tivesse uma coisa sem remédio na parte alta da cavidade torácica. Uma angústia, uma falta de ar, malgrado a tarde estival.

 

Falta de exercício respiratório. Nada mais que isso. O homem se desentende consigo mesmo porque se esquece de respirar. É preciso aspirar, no mínimo, quatro litros de oxigênio em cada tomada de ar. O homem de hoje não respira, ofega. Como os cachorros. E isto altera o equilíbrio moral de cada um.

 

Aflige-me o pobre olhar das multidões. Por nada. Não há culpa ou causa comum. Cada qual carrega o seu deserto, seu calvário particular, porque na angústia, no fundo da grande angústia, há uma cômoda preguiça, um estágio de lânguido torpor como o do ópio. Não há nada a fazer pelas pessoas da tarde, na avenida Nossa Senhora de Copacabana.

 

MARIA, A. A tarde e a multidão. In: TAUIL, G.

(Org.) Vento vadio: as crônicas de Antônio Maria, 2021, p. 122-123.

Leia o texto a seguir para responder à questão.

 

Ao dizer “um estágio de lânguido torpor como o do ópio” para tratar da angústia, o narrador se refere:

  1. Aà clareza nos pensamentos voltados à superação de situações angustiantes.
  2. Bà motivação excessiva voltada ao enfrentamento de uma situação angustiante.
  3. Cao excesso de pensamentos fantasiosos em meio a situações angustiantes.
  4. Dà falta de energia ou de motivação para agir em meio a situações angustiantes.
  5. Eà falta de objetivos claros na vida, que impedem a permanência da angústia.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — à falta de energia ou de motivação para agir em meio a situações angustiantes.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Denotação e Conotação: O Sentido de "Lânguido Torpor como o do Ópio"

Gabarito: letra D. Ao comparar a angústia a "um estágio de lânguido torpor como o do ópio", o narrador se refere à falta de energia ou de motivação para agir — o ópio é uma droga que entorpece, e "lânguido torpor" significa um estado de prostração, moleza e inércia. A passagem que ancora essa leitura está no último parágrafo: "na angústia, no fundo da grande angústia, há uma cômoda preguiça, um estágio de lânguido torpor como o do ópio". A palavra "preguiça" e a expressão "lânguido torpor" apontam diretamente para a ausência de disposição, e não para clareza, motivação ou excesso de pensamentos.

O Comando: Compreensão de Sentido Contextual

A questão pede que você identifique o que o narrador quer dizer com uma expressão específica. Isso é uma tarefa de interpretação de sentido contextual: a palavra "ópio" não está sendo usada em seu sentido literal (a droga em si), mas como comparação para descrever um estado emocional. O comando "se refere" indica que você deve buscar o significado implícito que a expressão carrega no texto, não o significado de dicionário isolado.

O Texto: A Angústia como Preguiça e Torpor

O cronista descreve a multidão na avenida como "amargurada", "aflita", com "uma coisa sem remédio na parte alta da cavidade torácica". No entanto, ele oferece um diagnóstico próprio: "Falta de exercício respiratório. Nada mais que isso." E aprofunda: "O homem de hoje não respira, ofega." A chave para a questão está no último parágrafo, onde ele explica a natureza dessa angústia:

"Cada qual carrega o seu deserto, seu calvário particular, porque na angústia, no fundo da grande angústia, há uma cômoda preguiça, um estágio de lânguido torpor como o do ópio."

A expressão "lânguido torpor" é o núcleo da questão. "Lânguido" significa fraco, sem energia, abatido. "Torpor" significa entorpecimento, falta de reação, insensibilidade. A comparação com o ópio — substância que causa sonolência e apatia — reforça a ideia de inércia e falta de disposição. O narrador não diz que a angústia traz clareza ou motivação; ele diz que ela é uma "cômoda preguiça", um estado de paralisia.

A Técnica: Como Testar Cada Alternativa

A armadilha central desta questão é a extrapolação: a banca oferece alternativas que soam plausíveis sobre a angústia em geral, mas que não são sustentadas pelo texto. O método é simples: para cada alternativa, pergunte "onde o texto autoriza isto?". A resposta correta é a única que encontra apoio direto nas palavras "preguiça" e "lânguido torpor".

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora o conhecimento de mundo do candidato sobre a angústia (que pode gerar pensamentos, motivação, etc.) para fazê-lo escolher uma alternativa que extrapola o que o texto diz. A resposta está na letra do texto, não na sua experiência pessoal.

1Núcleo semântico
Lânguido = fraco, sem energia
Torpor = entorpecimento, inércia
Ópio = apatia, sonolência
2Âncora no texto
"Cômoda preguiça"
Falta de disposição
3Sentido correto
Falta de energia ou motivação para agir
4Sentidos descartados
Clareza de pensamento
Motivação excessiva
Pensamentos fantasiosos
Falta de objetivos de vida
Sentido de "lânguido torpor como o do ópio"
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Sentido de "lânguido torpor como o do ópio": Núcleo semântico (Lânguido = fraco, sem energia, Torpor = entorpecimento, inércia, Ópio = apatia, sonolência); Âncora no texto ("Cômoda preguiça", Falta de disposição); Sentido correto (Falta de energia ou motivação para agir); Sentidos descartados (Clareza de pensamento, Motivação excessiva, Pensamentos fantasiosos, Falta de objetivos de vida)

Alternativa A — ❌ Incorreta

à clareza nos pensamentos voltados à superação de situações angustiantes.

O texto não menciona clareza de pensamento nem superação. Pelo contrário, o narrador descreve a angústia como um estado de "torpor" e "preguiça", que são o oposto de clareza e ação. Esta alternativa contradiz o texto ao atribuir um efeito positivo (clareza) a um estado descrito como entorpecimento.

Alternativa B — ❌ Incorreta

à motivação excessiva voltada ao enfrentamento de uma situação angustiante.

A expressão "lânguido torpor" indica falta de energia, não excesso. "Motivação excessiva" é o antônimo do que o texto descreve. Esta alternativa contradiz o texto ao inverter o sentido do termo "torpor".

Alternativa C — ❌ Incorreta

ao excesso de pensamentos fantasiosos em meio a situações angustiantes.

O texto não fala em pensamentos fantasiosos. A comparação com o ópio sugere um estado de entorpecimento e apatia, não de imaginação fértil. Esta alternativa extrapola ao introduzir uma ideia (pensamentos fantasiosos) que não tem base no texto.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

à falta de energia ou de motivação para agir em meio a situações angustiantes.

Esta é a única alternativa que parafraseia fielmente o sentido de "lânguido torpor como o do ópio". O texto associa a angústia a uma "cômoda preguiça" e a um estado de torpor, que é exatamente a falta de energia e motivação. A comparação com o ópio, que causa sonolência e inércia, reforça essa leitura.

Alternativa E — ❌ Incorreta

à falta de objetivos claros na vida, que impedem a permanência da angústia.

Esta alternativa é duplamente problemática. Primeiro, o texto não menciona "objetivos claros". Segundo, ela afirma que a falta de objetivos impede a angústia, mas o texto diz que a angústia é o torpor. Esta alternativa extrapola ao introduzir um conceito (objetivos de vida) e ainda contradiz a relação estabelecida no texto.

Conclusão

A questão testa sua capacidade de ancorar o sentido de uma expressão no contexto. A palavra "ópio" não é o foco; o foco é o estado que ela descreve: "lânguido torpor". Ao ler "cômoda preguiça" e "lânguido torpor", a resposta D é a única que não acrescenta nada de fora do texto. Lembre-se: em questões de sentido contextual, a resposta correta é sempre a que parafraseia o texto, nunca a que inventa uma ideia nova.

Gabarito: letra D

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