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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Avança SP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa667437
Banca
Avança SP
Órgão
Pref SM Arcanjo
Ano
2025
Cargo
Prof (SM Arcanjo)

A candura da chuva

 

E as chuvas voltaram. Elas, que nos tinham abandonado, para nos advertir de quanto precisamos delas. No jardim, o verde da folhagem resplandeceu. Uma goteira intermitente, caindo sobre uma folha grande(nunca sei os nomes das plantas), repete, em espaços certos, um som musical que me agrada. Foi por causa de gota assim, repetida, que Chopin criou o prelúdio da Gota d’água.

 

Para mim, em minha deliciosa clausura, o que a chuva tem de mais importante são os sons. Tantos e tão variados. Sobre as folhas, sobre a areia, sobre o cimento, sobre o balde de alumínio. Depois, escorrendo nas telhas. Quem mora engavetado num apartamento não sabe o que seja a chuva correndo, escorrendo, se esfregando nas telhas. É preciso morar em casas térreas.

 

Quando nós éramos meninos, as casas tinham uma outra telha de vidro, e a gente não só ouvia, como via a chuva deslizando, resvalando, tinindo no beiral da nossa casa já morta, lá longe, onde os bois mugiam suplicantes de madrugada. Lá longe, onde os carneiros, no entardecer, tinham olhos desavisados. Lá longe, onde os sapos assobiavam uma música dodecafônica. Lá longe, onde dormem, profundamente, os nossos mortos e a nossa puerícia. Quão enganosa e ligeira foi a infância!

 

Esta chuva, que está caindo desde ontem e continua caindo, agora me traz algumas esperanças que estavam a morrer. Não se detenham, amigos, em pensamentos pessimistas, nem chorem a dor que ainda não doeu. Somos homens e a palavra “homem” sinonimiza com força e liberdade. Eu sou livre, mesmo neste quarto de portas fechadas. Só o fato de eu querer continuar preso me cobre de todas as liberdades da vida. Meu corpo, grande e farto, coberto de liberdades. O espírito diáfano, com uma asa em cada omoplata, tem todo o céu do sonho para voar.

 

Faz-me bem esta chuva. Não quero dizer, com isto, que a poesia tenha voltado. Nem irei garantir que ela tenha havido um dia. Quero comunicar, a sei lá quem, que estou bem e que este bem, que me vai por dentro e me veste o corpo, deve estar com alguns de vocês, que preferem a chuva ao êxito; a chuva ao poder; a chuva ao dinheiro; a chuva à sociedade; a chuva ao smoking. Tenho chuva e amor. Uma coisa e outra são prazeres que embevecem. As duas coisas se completam, em nós... e o homem aquiescente aceita a paz, afinal, como o único bem da terra.

 

Ah, não estou ligando para as notícias dos jornais. Não foi Deus quem as escreveu. Foramos homens. Estão todas truncadas, intrigadas, todas. Sou livre. A liberdade completa é não querer e não poder. Brindemos essa chuva, que me aumenta a capacidade de ir escrevendo essas verdades intatas, sem grande sentido aparente, sem nenhuma importância fundamental. O fundamental que fique a cargo dos poderosos. Não quero mais que a música reminiscente da chuva que está caindo e a mão do amor sobre minha fronte e meus cabelos.

 

MARIA, A. A candura da chuva. In: TAUIL, G. (Org.) Vento vadio: as crônicas de Antônio Maria, 2021, p. 132-134.

Leia o texto a seguir para responder à questão.   O penúltimo parágrafo do texto permite depreender que:
  1. ANa concepção do narrador, a chuva simboliza o êxito e o poder.
  2. BO narrador se sente reconfortado pela chuva, que lhe provoca bem-estar.
  3. CO narrador se sente enclausurado, sem o poder de escolha, em função da chuva persistente.
  4. DCertos valores como o dinheiro e o êxito se opõem à chuva, porque esta simboliza a pobreza, segundo o narrador.
  5. ENa concepção do narrador, não é possível sentir-se bem escolhendo a chuva ao amor.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — O narrador se sente reconfortado pela chuva, que lhe provoca bem-estar.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A Candura da Chuva: Bem-Estar e Liberdade Interior

Gabarito: letra B. O penúltimo parágrafo permite depreender que o narrador se sente reconfortado pela chuva, que lhe provoca bem-estar — a passagem "Faz-me bem esta chuva" e a declaração "estou bem" ancoram diretamente essa leitura. A alternativa B é a única que parafraseia fielmente o efeito da chuva sobre o narrador, sem acrescentar ou inverter ideias.

O comando pede uma inferência ("permite depreender"), ou seja, uma conclusão ancorada em pistas do texto, não uma informação literalmente escrita. A diferença é crucial: enquanto a compreensão localiza o explícito, a inferência exige que você deduza a partir de vestígios — e a dedução só é válida se o texto obrigar àquela conclusão. Aqui, a pista está no penúltimo parágrafo, que abre com a frase-chave:

"Faz-me bem esta chuva."

E desenvolve a ideia com a confissão "estou bem" e a enumeração de preferências — "a chuva ao êxito; a chuva ao poder; a chuva ao dinheiro" —, mostrando que a chuva não é símbolo de pobreza ou aprisionamento, mas fonte de prazer e paz interior. O narrador ainda afirma: "Tenho chuva e amor. Uma coisa e outra são prazeres que embevecem." — ou seja, a chuva gera bem-estar, e não o contrário.

A armadilha central da questão é a inversão da relação de causa e consequência. As alternativas C e D tentam fazer você acreditar que a chuva aprisiona ou simboliza pobreza, quando o texto diz exatamente o oposto: o narrador se sente livre mesmo "neste quarto de portas fechadas" e escolhe a chuva em detrimento do êxito, do poder e do dinheiro — não por pobreza, mas por valoração pessoal. A alternativa A também inverte: a chuva não simboliza êxito e poder; ela é preferida a eles. Já a E contradiz o texto ao separar chuva e amor, quando o narrador os une como prazeres que se completam.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa inverte a relação estabelecida no texto. O narrador não diz que a chuva simboliza êxito e poder; ele afirma que prefere a chuva ao êxito e ao poder:

"que preferem a chuva ao êxito; a chuva ao poder; a chuva ao dinheiro"

A chuva é contraposta a esses valores, não identificada com eles. Erro de troca de conceito (inversão de sentido).

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa parafraseia o efeito da chuva sobre o narrador. O texto afirma:

"Faz-me bem esta chuva."

E complementa: "estou bem" e "Tenho chuva e amor. Uma coisa e outra são prazeres que embevecem." A chuva provoca bem-estar — é exatamente o que a alternativa diz. Inferência legítima, ancorada em pistas explícitas.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa contradiz o texto. O narrador não se sente enclausurado nem sem poder de escolha; ele afirma o contrário:

"Eu sou livre, mesmo neste quarto de portas fechadas."

A chuva não o aprisiona; ela o reconforta. A alternativa extrapola a ideia de "clausura" (mencionada no 2º parágrafo como "deliciosa clausura") e a transforma em algo negativo, que o texto não sustenta.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa acrescenta opinião que o texto não externa. O narrador prefere a chuva ao dinheiro e ao êxito, mas não diz que a chuva simboliza pobreza. A preferência é por valores pessoais, não por privação material. O texto:

"que preferem a chuva ao êxito; a chuva ao poder; a chuva ao dinheiro"

mostra uma escolha valorativa, não uma associação com pobreza. Erro de extrapolação (acrescenta juízo de valor ausente).

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa contradiz o texto ao separar chuva e amor. O narrador os une como prazeres complementares:

"Tenho chuva e amor. Uma coisa e outra são prazeres que embevecem. As duas coisas se completam"

Portanto, é perfeitamente possível sentir-se bem escolhendo a chuva e o amor — eles não se opõem. Erro de contradição com o texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca inverte a relação de causa e consequência: a chuva não aprisiona nem empobrece; ela gera bem-estar e liberdade interior. Desconfie de alternativas que trocam o efeito pela causa.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de inferência, pergunte: "o texto obriga a essa conclusão?" Se a alternativa exige acrescentar algo de fora (como "pobreza" ou "aprisionamento"), ela é extrapolação — e extrapolar é errar.

Conclusão: a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a B, pois a chuva, no penúltimo parágrafo, é apresentada como fonte de bem-estar e prazer — e não como símbolo de êxito, pobreza ou aprisionamento.

Gabarito: letra B

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