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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Avança SP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa667529
Banca
Avança SP
Órgão
UNITAU
Ano
2025
Cargo
Cont ( )

Medo da eternidade

 

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

 

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

 

– Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.

 

– Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.

 

– Não acaba nunca, e pronto.

 

Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual eu já começara a me dar conta.

 

Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

 

– E agora que é que eu faço? – Perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.

 

– Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

 

Perder a eternidade? Nunca.

 

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

 

– Acabou-se o docinho. E agora?

 

– Agora mastigue para sempre.

 

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.

 

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava era aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar. Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

 

– Olha só o que me aconteceu! – Disse eu em fingidos espanto e tristeza. Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

 

– Já lhe disse, repetiu minha irmã, que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

 

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso. Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

 

LISPECTOR, C. Medo da eternidade. In: LISPECTOR, C. A descoberta do mundo. 1984, p. 446-448. Disponível em <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/5889/medo-da-eternidade>.

Leia o texto a seguir para responder à questão     Com a leitura do texto, conclui-se que:
  1. Ao fato de os chicles não perderem o sabor conforme eram mascados surpreendia à narradora.
  2. Bmascar o mesmo chicle por tanto tempo causava conforto e alegria à narradora.
  3. Ca narradora se afligiu com a ideia de mascar o mesmo chicle, já sem gosto, para sempre.
  4. Da irmã da narradora acreditava que os chicles não pudessem ser mascados por muito tempo.
  5. Etanto a irmã quanto a própria narradora tinham o hábito de mascar o mesmo chicle até a hora de dormir.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — a narradora se afligiu com a ideia de mascar o mesmo chicle, já sem gosto, para sempre.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Medo da Eternidade — Aflição com a Ideia de Eternidade

Gabarito: letra C. A narradora se afligiu com a ideia de mascar o mesmo chicle, já sem gosto, para sempre — como se lê no trecho: "E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito." A alternativa C é a única que capta o sentimento central da crônica: o desconforto diante da eternidade, não o encanto.

O comando pede uma conclusão a partir da leitura — ou seja, uma inferência ancorada no texto, não uma informação literal. A banca quer que você identifique a ideia principal (a tese) da crônica: a narradora, criança, recebe um chicle que "nunca se acaba" e, em vez de se maravilhar, sente medo e aflição diante da perspectiva de mastigá-lo para sempre. O texto é uma crônica narrativa em primeira pessoa, e o clímax emocional está no parágrafo em que ela confessa: "Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo".

A técnica para resolver: grife as palavras que expressam o estado emocional da narradora — "aflitivo", "perplexa", "assustei-me", "contrafeita", "medo", "aflição", "aliviada". Todas apontam para o desconforto. A alternativa correta é a que parafraseia esse sentimento sem acrescentar nada de fora. As demais ou extrapolam (inventam que o chicle perdia o sabor, que a irmã duvidava da durabilidade, que ambos mascavam até dormir) ou contradizem o texto (afirmam conforto e alegria).

A pegadinha central é a extrapolação: a banca oferece alternativas que parecem plausíveis, mas que vão além do que está escrito. Por exemplo, a letra A fala em "perder o sabor", mas o texto diz que o chicle "não tinha gosto de nada" — ou seja, o sabor já tinha acabado, não é que ele "perdia" o sabor. A letra B inverte o sentimento: o texto fala em "medo" e "aflição", não em conforto. A letra D atribui à irmã uma crença que ela não tem — pelo contrário, ela insiste que o chicle "não acaba nunca". A letra E mistura hábitos: a irmã menciona pregar o chicle na cama, mas não diz que a narradora fazia isso.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de inferência, desconfie de alternativas que usam palavras absolutas ("sempre", "nunca", "todos") ou que acrescentam detalhes que não estão no texto. A resposta correta é sempre a que reescreve uma ideia do texto sem inventar nada.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não diz que os chicles perdiam o sabor conforme eram mascados. Na verdade, a narradora percebe que "o adocicado do chicle era bonzinho" e depois "acabou-se o docinho" — mas isso é uma constatação, não uma surpresa. A alternativa inventa uma reação de surpresa que não está no texto. O texto diz que ela ficou "boba" com a ideia de a bala nunca acabar, não com a perda de sabor.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O texto é explícito: "me sentia contrafeita", "me enchia de uma espécie de medo", "só me dava era aflição". Não há conforto nem alegria. A alternativa inverte o sentimento central da narradora. A banca tenta confundir com a reação inicial de encantamento ("parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias"), mas isso é passageiro e logo dá lugar ao medo.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Paráfrase fiel. O texto diz: "E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito." A alternativa reescreve isso: "se afligiu com a ideia de mascar o mesmo chicle, já sem gosto, para sempre". Note que "já sem gosto" corresponde a "não tinha gosto de nada" e "para sempre" corresponde a "eterna". É a única alternativa que capta o sentimento central sem acrescentar nada.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A irmã acredita exatamente o contrário: ela afirma que o chicle "não acaba nunca" e que "dura a vida inteira". A alternativa diz que ela acreditava que não pudessem ser mascados por muito tempo — o oposto do que está escrito. A irmã até ensina como mastigar para sempre: "mastiga a vida inteira".

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A irmã menciona que "até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama". Isso é uma instrução genérica, não um hábito da narradora. O texto não diz que a narradora mascava até a hora de dormir. A alternativa generaliza um conselho da irmã para as duas personagens.

Conclusão: A questão testa a capacidade de identificar a ideia principal de um texto narrativo. A resposta correta é a que parafraseia o sentimento central — a aflição diante da eternidade. As demais ou extrapolam (inventam detalhes) ou contradizem (invertem o sentimento). Lembre-se: em inferência, a resposta mora no texto, não na sua imaginação.

Gabarito: letra C

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