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Questão de Português — Significação de Vocábulo e Expressões — Avança SP 2025

PortuguêsSignificação de Vocábulo e Expressões
Código
qa667530
Banca
Avança SP
Órgão
UNITAU
Ano
2025
Cargo
Cont ( )

Medo da eternidade

 

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

 

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

 

– Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.

 

– Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.

 

– Não acaba nunca, e pronto.

 

Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual eu já começara a me dar conta.

 

Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

 

– E agora que é que eu faço? – Perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.

 

– Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

 

Perder a eternidade? Nunca.

 

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

 

– Acabou-se o docinho. E agora?

 

– Agora mastigue para sempre.

 

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.

 

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava era aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar. Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

 

– Olha só o que me aconteceu! – Disse eu em fingidos espanto e tristeza. Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

 

– Já lhe disse, repetiu minha irmã, que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

 

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso. Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

 

LISPECTOR, C. Medo da eternidade. In: LISPECTOR, C. A descoberta do mundo. 1984, p. 446-448. Disponível em <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/5889/medo-da-eternidade>.

Leia o texto a seguir para responder à questão

   

A expressão “elixir do longo prazer”, empregada no texto – “Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer” –, denota:

  1. Auma avaliação positiva da narradora sobre o fato de o chicle poder ser mascado por muito tempo.
  2. Buma avaliação positiva da narradora sobre a formulação das balas comuns.
  3. Ca consideração da irmã da narradora de que os chicles se tratavam de uma verdadeira alquimia.
  4. Da visão da narradora sobre as balas cor-de-rosa serem alimentos com efeitos terapêuticos.
  5. Ea visão da irmã da narradora sobre as propriedades mágicas das balas e dos chicles.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — uma avaliação positiva da narradora sobre o fato de o chicle poder ser mascado por muito tempo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Sentido de "elixir do longo prazer" no contexto

Gabarito: letra A. A expressão "elixir do longo prazer" denota uma avaliação positiva da narradora sobre o fato de o chicle poder ser mascado por muito tempo. O trecho que sustenta isso é: "Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer" — e o contexto imediato mostra que a narradora, encantada com a ideia de uma bala que "nunca se acaba", vê no chicle algo mágico e desejável. As demais alternativas ou atribuem a expressão à irmã, ou a tratam como descrição literal, ou fogem ao que o texto afirma.

O comando

A questão pede que se identifique o que a expressão denota — ou seja, o sentido que ela adquire no contexto. Não se trata de buscar o significado de dicionário de "elixir" ou "prazer", mas de perceber como a narradora usa essas palavras para expressar sua avaliação do chicle. O verbo "denota" aqui aponta para o sentido contextual, que pode ser conotativo (figurado) — e é exatamente o caso: "elixir" não é um remédio de verdade, mas uma metáfora para algo que traz prazer duradouro.

O texto

A crônica narra a experiência da narradora criança ao ganhar um chicle que, segundo a irmã, "nunca se acaba". O trecho-chave está no 4º parágrafo:

"Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre."

Aqui, a narradora avalia positivamente o chicle: ela o chama de "elixir" — palavra que remete a poção mágica, capaz de dar vida longa ou prazer extremo — e o associa a "longo prazer", exatamente a característica que a irmã lhe atribuiu: "esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira". A expressão, portanto, condensa a admiração da menina diante da possibilidade de um doce infinito.

A técnica que decide

A armadilha central é confundir o ponto de vista: quem faz a avaliação? O texto é narrado em 1ª pessoa pela menina, e a expressão aparece em um trecho em que ela pega a pastilha e a examina. A irmã apenas explica o funcionamento do chicle; quem o chama de "elixir" é a narradora, encantada. Além disso, a expressão é figurada — "elixir" não é um remédio real, mas uma metáfora para o prazer duradouro. A alternativa correta precisa captar esses dois pontos: avaliação positiva e atribuída à narradora.

Análise das alternativas

1Quem avalia
Narradora (encantada)
Irmã (só explica)
2Sentido
Metáfora (não literal)
Prazer duradouro do chicle
3Armadilhas
Trocar o sujeito da avaliação
Tomar "elixir" como remédio
Generalizar para balas comuns
"Elixir do longo prazer"
LEVELsoulevel.com.br
"Elixir do longo prazer": Quem avalia (Narradora (encantada), Irmã (só explica)); Sentido (Metáfora (não literal), Prazer duradouro do chicle); Armadilhas (Trocar o sujeito da avaliação, Tomar "elixir" como remédio, Generalizar para balas comuns)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A afirma que a expressão denota "uma avaliação positiva da narradora sobre o fato de o chicle poder ser mascado por muito tempo". Isso está diretamente ancorado no trecho:

"Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer."

O termo "elixir" carrega conotação de algo precioso, mágico, que proporciona prazer — e "longo prazer" remete à durabilidade do chicle, que "nunca se acaba". A narradora, ao usar essa expressão, avalia positivamente a possibilidade de mastigar por muito tempo. É a única alternativa que combina o sujeito da avaliação (a narradora) e o objeto (o prazer duradouro).

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B diz que a expressão denota "uma avaliação positiva da narradora sobre a formulação das balas comuns". Erro: troca de referente. O texto não fala de "balas comuns" — fala especificamente do chicle, que é apresentado como algo extraordinário, que "nunca se acaba". A narradora não avalia a formulação de balas comuns; ela está maravilhada com a excepcionalidade do chicle. A alternativa extrapola ao introduzir um elemento (balas comuns) que não está no texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C afirma que a expressão reflete "a consideração da irmã da narradora de que os chicles se tratavam de uma verdadeira alquimia". Erro: atribuição indevida de ponto de vista. A expressão "elixir do longo prazer" é usada pela narradora, não pela irmã. A irmã apenas explica o funcionamento do chicle ("esta bala nunca se acaba"), mas não o chama de "elixir" nem demonstra considerá-lo alquimia. A alternativa confunde as vozes do texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D diz que a expressão denota "a visão da narradora sobre as balas cor-de-rosa serem alimentos com efeitos terapêuticos". Erro: sentido literal indevido. "Elixir" aqui é metáfora, não remédio. A narradora não atribui ao chicle efeitos terapêuticos; ela o vê como fonte de prazer duradouro, não como medicamento. A alternativa toma a conotação como denotação, interpretando "elixir" em seu sentido literal de poção medicinal.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E afirma que a expressão reflete "a visão da irmã da narradora sobre as propriedades mágicas das balas e dos chicles". Erro: atribuição indevida de ponto de vista e generalização. Novamente, a expressão é da narradora, não da irmã. Além disso, o texto fala apenas do chicle, não de "balas e chicles" em geral. A alternativa generaliza e confunde as vozes.

Conclusão

A questão testa a habilidade de identificar o sentido contextual de uma expressão e de atribuir corretamente o ponto de vista. A alternativa A é a única que combina a avaliação positiva da narradora com o objeto correto (o prazer duradouro do chicle). As demais ou trocam o sujeito da avaliação, ou interpretam literalmente a metáfora, ou generalizam para além do texto.

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões de sentido de expressão, grife quem fala (narrador, personagem) e verifique se o sentido é literal ou figurado. Pergunte: "essa expressão está sendo usada no sentido de dicionário ou com um valor simbólico?" — e confira se a alternativa respeita o ponto de vista do texto.

Gabarito: letra A

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