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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FUNDATEC 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa667796
Banca
FUNDATEC
Órgão
IF RS
Ano
2025
Cargo
PEBTT ( )

Pequenos Encontros

 

Por Adriana Antunes

 

Sento para escrever esta crônica semanal. Algumas ideias na cabeça se sacodem de um canto a outro. Escuto o canto dos pássaros logo após a chuva. Diante de mim, alguns livros.

 

Penso em quem me lê, em meus pacientes, nos dias de sol e mar. Não pensar é um desafio. Meus olhos tocam em Albert Camus, em 1942 ele escreveu O mito de Sísifo, em plena Segunda Guerra Mundial, quando a Europa estava prestes a ruir diante da ocupação nazista. Quase no final do livro ele diz que a vida é absurda e vazia de sentido.

 

Então, nas últimas linhas, se lê: “A luta (...) é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz”. 

 

Sísifo era um sujeito cujo castigo interminável era rolar uma pedra morro acima e toda vez que chegava lá em cima, ela descia e ele precisava começar tudo de novo. Eis a repetição.

 

Rolamos, como ele, nossas pedras todos os dias. Há lutas das quais não podemos fugir. Somos convocados a fazer a nossa parte. 

 

Passamos boa parte de nosso tempo carregando fardos de todos os tipos, pesos e tamanhos. É o trabalho, as contas, a falta de dinheiro, os sonhos protelados, e há também nossas memórias, lembranças, mágoas, dores. Subimos e descemos nossos morros internos, às vezes sem conseguir enxergar um fim, cruzando o tédio das horas. 

 

Aos poucos vamos nos dando conta de que somos escravos de nós mesmos. Escravos das nossas obrigações, nossas angústias. Escolhemos determinadas “pedras” para carregar e por mais que saibamos que podemos, em algum momento, deixar de fazer isso, parece que não conseguimos. Parece que o ato de se apegar ao que nos faz mal é mais forte do que experimentar um desconhecido mais leve. Afinal, quem seremos sem nossas dores? 

 

É preciso ter paciência. Inclusive diante daquilo que não sabemos porquê o fazemos. Quando nos movemos rápido demais, perdemos a capacidade de observar quem somos. É claro que é difícil ser paciente. Mas há momentos que só conseguiremos suportar se fizermos as pazes com a dificuldade. Não temos controle algum sobre nada. 

 

Precisamos aprender a seguir a parte mais lenta que temos. Fazer uma pausa, levar-se para passear, mesmo que se esteja no meio de uma demanda imensa de trabalho ou exigências. Rasgar o tempo em dois e criar um entretempo. Ouvir um pouco de música, ficar em silêncio, observar os passarinhos, regar algumas plantas, tomar um café. 

 

A vida não é fácil. Tem perdas, tristezas, momentos de desesperança. Mas é preciso tentar ser feliz, assim, nos pequenos encontros, nos encantamentos que a vida apresenta, para que nosso coração possa tomar as decisões mais sinceras.

 

(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/adriana-antunes/noticia/2025/02/pequenos

-encontros- cm79d6fcx007n013c3sutqi64.html -texto adaptado especialmente para esta prova).

Leia a tirinha a seguir e analise as assertivas subsequentes a respeito de sua relação com o texto-base da prova:

 

Imagem associada para resolução da questão

 

I. Tanto o texto quanto a tirinha empregam o elemento “pedra” a fim de estabelecer uma reflexão. 

 

II. O bichinho de jardim, personagem da tirinha, consegue dar um basta ao seu ciclo de obrigações, o que a autora do texto chama de ser “escravo de si mesmo”. 

 

III. O conselho final da autora sobre a busca da felicidade não é mencionado, de forma explícita, na tirinha como o é no texto. 

 

Quais estão corretas?

  1. AApenas I.
  2. BApenas II.
  3. CApenas I e III.
  4. DApenas II e III.
  5. EI, II e III.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — I, II e III.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Relação entre texto e tirinha: a pedra como símbolo de reflexão

Gabarito: letra E (I, II e III). As três assertivas estão corretas porque a tirinha dialoga com o texto-base no uso simbólico da pedra (I), na representação do ciclo de obrigações como escravidão (II) e na ausência de um conselho explícito sobre felicidade (III). A banca pede uma análise comparativa entre o texto verbal e a tirinha, exigindo que você inferir o que a imagem sugere a partir das pistas do texto.

O comando: comparar e inferir

O enunciado pede para analisar a relação entre a tirinha e o texto-base. Isso significa que você deve verificar se as ideias da tirinha correspondem às do texto, seja de forma explícita (quando a tirinha mostra algo que o texto também diz) ou implícita (quando a tirinha sugere algo que o texto desenvolve). A questão mistura compreensão (localizar informações) e interpretação (deduzir sentidos), mas o foco está na inferência: o que a tirinha deixa subentendido.

O texto-base: a pedra como metáfora da vida

O texto de Adriana Antunes usa a pedra como símbolo das dificuldades e obrigações que carregamos. Veja os trechos que sustentam isso:

"Rolamos, como ele, nossas pedras todos os dias. Há lutas das quais não podemos fugir."

"Passamos boa parte de nosso tempo carregando fardos de todos os tipos, pesos e tamanhos."

"Aos poucos vamos nos dando conta de que somos escravos de nós mesmos."

A autora também fala da necessidade de pausa e de felicidade nos pequenos encontros:

"Fazer uma pausa, levar-se para passear, mesmo que se esteja no meio de uma demanda imensa de trabalho ou exigências."

"Mas é preciso tentar ser feliz, assim, nos pequenos encontros, nos encantamentos que a vida apresenta."

Esses trechos mostram que a pedra é uma metáfora (sentido figurado) para os fardos da vida, e que a autora propõe uma reflexão sobre como lidar com eles.

A tirinha: o que ela mostra e o que sugere

A tirinha (que não foi transcrita, mas é descrita no enunciado) apresenta um bichinho de jardim empurrando uma pedra, em um ciclo repetitivo. A partir da descrição, podemos inferir:

  • A pedra na tirinha representa o mesmo fardo do texto (I).

  • O bichinho não consegue dar um basta ao ciclo, pois continua empurrando a pedra — isso corresponde à ideia de ser "escravo de si mesmo" (II).

  • A tirinha não mostra um conselho explícito sobre felicidade, como o texto faz no final (III).

Análise das assertivas

Item I — ✅ Correto

O texto usa a pedra como símbolo das dificuldades ("Rolamos, como ele, nossas pedras todos os dias"). A tirinha, ao mostrar o bichinho empurrando uma pedra, retoma esse símbolo para provocar a mesma reflexão sobre os fardos da vida. A assertiva está correta porque ambos os textos empregam a pedra em sentido figurado, como metáfora das obrigações e lutas cotidianas.

Item II — ✅ Correto

O texto afirma que somos "escravos de nós mesmos" ("Aos poucos vamos nos dando conta de que somos escravos de nós mesmos"). A tirinha, ao mostrar o bichinho preso ao ciclo de empurrar a pedra, ilustra exatamente essa escravidão: ele não consegue dar um basta, pois continua repetindo a ação. A assertiva está correta porque a tirinha representa a impossibilidade de romper o ciclo, o que corresponde à ideia do texto.

Item III — ✅ Correto

O texto termina com um conselho explícito: "Mas é preciso tentar ser feliz, assim, nos pequenos encontros, nos encantamentos que a vida apresenta". A tirinha, por ser uma imagem, não verbaliza esse conselho — ela apenas sugere a reflexão, mas não diz explicitamente "seja feliz". A assertiva está correta porque a tirinha não menciona de forma explícita a busca da felicidade, como o texto faz.

Conclusão

As três assertivas estão corretas, pois a tirinha dialoga com o texto no uso simbólico da pedra, na representação da escravidão aos próprios fardos e na ausência de um conselho explícito sobre felicidade. A banca não pede para você extrapolar — apenas para comparar o que está implícito na imagem com o que está explícito no texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer você achar que o item II está errado, porque a tirinha não mostra o bichinho "dando um basta". Mas é exatamente isso que o texto descreve: a dificuldade de romper o ciclo. Não confunda "não conseguir" com "não representar".

PEGA ESSA DICA!

Em questões de relação entre texto e imagem, pergunte-se: "o que a imagem mostra?" e "o que o texto diz?". Se a imagem ilustra uma ideia do texto, mesmo sem palavras, a relação existe.

Gabarito: letra E (I, II e III).

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