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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Avança SP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa668425
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Caconde
Ano
2025
Cargo
Adv ( )

A eterna imprecisão da linguagem

 

— Que pão!

 

Doce? de mel? de açúcar? de ló? de ló de mico? de trigo? de milho? de mistura? de rapa? de saruga? de soborralho? do céu? dos anjos? brasileiro? francês? italiano? alemão? do chile? de forma? de bugio? de porco? de galinha? de pássaros? de minuto? ázimo? bento? branco? dormido? duro? sabido? saloio? seco? segundo? nosso de cada dia? ganho com o suor do rosto? que o diabo amassou?

 

— Uma uva!

 

Branca? preta? tinta? moscatel? isabel? maçã? japonesa? ursina? brava? bastarda? rara? de galo? de cão? de cão menor? do monte? da serra? do mato? de mato grosso? de facho? de gentio? de João Pais? do nascimento? do inverno? do inferno? de praia? de rei? de obó? da promissão? da promissão roxa? verde da fábula de La Fontaine? espim? do diabo?

 

— O diabo!

 

Lúcifer? Belzebu? Azazel? Exu? marinho? alma? azul? coxo? canhoto? beiçudo? rabudo? careca? tinhoso? pé de pato? pé de cabra? capa verde? romãozinho? bute? cafute? Pedro Botelho? temba? mafarrico? dubá? louro? a quatro?

 

— É uma flor.

 

Da noite? de um dia? do ar? da paixão? do besouro? da quaresma? das almas? de abril? de maio? do imperador? da imperatriz? de cera? de coral? de enxofre? de lã? de lis? de pau? de natal? de São Miguel? de São Benedito? da santa cruz? de sapo? do cardeal? do general? de noiva? de viúva? da cachoeira? de baile? de vaca? de chagas? de sangue? de Jesus? do espírito santo? dos formigueiros? dos amores? dos macaquinhos? dos rapazinhos? de pelicano? de papagaio? de mel? de merenda? de 11 horas? de trombeta? de mariposa? de veludo? do norte? do paraíso? de retórica? neutra? macha? estrelada? radiada? santa? que não se cheira?

 

— É uma bomba.

 

De sucção? de roda? de parede? premente? aspirante-premente? de incêndio? real? transvaliana? vulcânica? atômica? de hidrogênio? de chocolate? suja? de vestibular de medicina? de anarquista? de São João e São Pedro? de fabricação caseira? de aumento do preço do dólar? enfeitada? de zoncho? de efeito psicológico?

 

— É um amor.

 

Perfeito? perfeito da China? perfeito do mato? perfeito azul? perfeito bravo? próprio? materno? filial? incestuoso? livre? platônico? socrático? de vaqueiro? de carnaval? de cigano de perdição? de hortelão? de deus? do próximo? sem olho? à pátria? bruxo? que não ousa dizer seu nome?

 

— Vá em paz.

 

Armada? otaviana? romana? podre? dos pântanos? de Varsóvia? de requiescat? e terra?

 

— Vá com Deus.

 

Qual?

 

ANDRADE, C. D. A eterna imprecisão da linguagem.

Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 1968. Disponível em

<https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17404/a-eterna-

imprecisao-de-linguagem>. (Adaptado).

Leia o texto a seguir para responder à questão.     O texto apresentado provoca a reflexão de que:
  1. Anão é possível que uma mesma expressão signifique uma série de coisas, considerando-se a ausência de um contexto de uso.
  2. Bé possível atribuir a uma mesma expressão uma série de significados, que variam conforme os contextos de uso.
  3. Cexpressões como “é uma flor” são empregadas invariavelmente, com um significado único e de conhecimento popular.
  4. Dexpressões como “é uma bomba” são empregadas de forma esporádica, mas com o mesmo significado independentemente do contexto de uso.
  5. Eo contexto de uso é irrelevante, porque não determina o sentido de uma expressão como “que pão” e “uma uva”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — é possível atribuir a uma mesma expressão uma série de significados, que variam conforme os contextos de uso.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A Eterna Imprecisão da Linguagem: Polissemia e Contexto

Gabarito: letra B. O texto de Carlos Drummond de Andrade demonstra que uma mesma expressão pode assumir múltiplos significados, que variam conforme o contexto de uso. A crônica é construída como um jogo de perguntas e respostas em que cada expressão — "Que pão!", "Uma uva!", "É uma flor!", "É uma bomba!", "É um amor!", "Vá em paz!", "Vá com Deus!" — é seguida por uma lista exaustiva de possíveis sentidos, evidenciando a polissemia inerente à linguagem.

O Comando: Compreensão Global

O enunciado pede que se identifique a reflexão que o texto provoca. Isso é uma questão de compreensão/interpretação global: não se busca uma informação pontual, mas a tese central que o autor constrói ao longo de todo o texto. A resposta não está em uma frase isolada, mas na estrutura e no efeito acumulativo do texto.

O Texto: A Estrutura como Argumento

O texto não é uma dissertação; é uma crônica lírica que usa a repetição e a enumeração como recurso argumentativo. Cada bloco segue o mesmo padrão:

  1. Uma expressão é dita (ex.: "— Que pão!").

  2. Uma enxurrada de qualificadores é listada (ex.: "Doce? de mel? de açúcar? de ló? ...").

Essa estrutura prova a tese: a expressão "pão" não tem um sentido único; ela pode ser "de mel", "de ló", "do céu", "dos anjos", "francês", "de forma", etc. O mesmo ocorre com "uva", "flor", "bomba", "amor", "paz" e "Deus". A pergunta final — "— Vá com Deus. / Qual?" — é a síntese irônica do argumento: se existem tantos "Deuses" (Lúcifer, Belzebu, Exu...), a expressão "Vá com Deus" é imprecisa sem um contexto que especifique qual.

A Técnica: Polissemia e Contexto

A questão cobra o conceito de polissemia — a capacidade de uma mesma palavra ou expressão ter múltiplos sentidos. O que define qual sentido é o correto é o contexto de uso. O texto de Drummond é uma celebração dessa imprecisão: ele mostra que a língua é viva e que o sentido não é fixo, mas construído na situação comunicativa.

"— Que pão!\n\nDoce? de mel? de açúcar? de ló? de ló de mico? de trigo? de milho? de mistura? de rapa? de saruga? de soborralho? do céu? dos anjos? brasileiro? francês? italiano? alemão? do chile? de forma? de bugio? de porco? de galinha? de pássaros? de minuto? ázimo? bento? branco? dormido? duro? sabido? saloio? seco? segundo? nosso de cada dia? ganho com o suor do rosto? que o diabo amassou?"

A citação acima é a prova textual: a expressão "Que pão!" é seguida de uma lista de dezenas de possibilidades, todas diferentes entre si. Isso só é possível porque o sentido de "pão" depende do contexto (o tipo de pão, sua origem, sua finalidade). A alternativa B é a única que captura exatamente essa ideia.

Análise das Alternativas

1Mesma expressão
Múltiplos sentidos
Varia conforme o contexto
2Exemplos
"Que pão!"
"É uma flor!"
"É uma bomba!"
"Vá com Deus!"
3Recurso argumentativo
Enumeração de possibilidades
Pergunta final ("Qual?")
Polissemia no texto
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Polissemia no texto: Mesma expressão (Múltiplos sentidos, Varia conforme o contexto); Exemplos ("Que pão!", "É uma flor!", "É uma bomba!", "Vá com Deus!"); Recurso argumentativo (Enumeração de possibilidades, Pergunta final ("Qual?"))

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que "não é possível que uma mesma expressão signifique uma série de coisas". Isso contradiz diretamente o texto, que é uma enumeração de múltiplos sentidos para cada expressão. O erro é de contradição: o texto prova o oposto do que a alternativa afirma.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que "é possível atribuir a uma mesma expressão uma série de significados, que variam conforme os contextos de uso". Isso é uma paráfrase fiel da tese do texto. A estrutura de enumeração mostra que "pão", "uva", "flor", "bomba", "amor", "paz" e "Deus" têm múltiplos sentidos, e a pergunta final "Qual?" reforça que o sentido depende do contexto. É a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que expressões como "é uma flor" são empregadas "invariavelmente, com um significado único". Isso contradiz o texto, que lista dezenas de tipos de flor ("Da noite? de um dia? do ar? da paixão?..."). O erro é de contradição e generalização indevida: o texto mostra variação, não invariância.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que expressões como "é uma bomba" são empregadas "de forma esporádica, mas com o mesmo significado independentemente do contexto". O texto lista vários tipos de bomba ("De sucção? de roda? de parede? premente? ... atômica? de hidrogênio? de chocolate?..."), provando que o significado varia conforme o contexto. O erro é de contradição: o texto mostra variação de sentido, não um sentido único.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que "o contexto de uso é irrelevante, porque não determina o sentido". Isso é o oposto da tese do texto. A pergunta final "— Vá com Deus. / Qual?" demonstra que o contexto é essencial para determinar qual sentido é o correto. O erro é de contradição: o texto mostra que o contexto é fundamental.

Conclusão

A questão testa a capacidade de identificar a tese central de um texto. A alternativa B é a única que parafraseia a ideia de que a linguagem é imprecisa porque as palavras têm múltiplos sentidos que dependem do contexto. As demais alternativas contradizem o texto ao afirmar que o sentido é único, invariável ou que o contexto é irrelevante.

PEGA ESSA DICA!

Ao ler um texto, pergunte-se: "Qual é a ideia central?" e "Como o autor a prova?". No caso, a estrutura de enumeração é a prova. Desconfie de alternativas com palavras absolutas como "único", "invariavelmente", "irrelevante" — elas raramente refletem a complexidade que o texto apresenta.

Gabarito: letra B

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