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Questão de Português — Figuras de Linguagem — Avança SP 2025

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
qa668441
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Caconde
Ano
2025
Cargo
Ag ( )

Vista cansada

 

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa ideia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou. Fugiu enquanto pôde do desespero que o roía – e daquele tiro brutal.

 

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

 

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

 

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima ideia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprido o rito, pode ser que também ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

 

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de tão visto, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia a dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

 

RESENDE, O. L. Vista cansada. Folha de São Paulo. São Paulo,

1992. Disponível em <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/7040/vistacansada>.

Leia o texto a seguir para responder à questão.

   

Considere o trecho a seguir para responder à questão:

 

“O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem.”

 

Uma das figuras de linguagem por meio da qual se constroem os sentidos no trecho apresentado é:

  1. Ahipérbole.
  2. Bpersonificação.
  3. Cparadoxo.
  4. Dretificação.
  5. Eantítese.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — personificação.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Personificação: o hábito que "suja" e "baixa a voltagem"

Gabarito: letra B. No trecho "O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem", a figura de linguagem é a personificação (ou prosopopeia), pois se atribui a um ser inanimado — o hábito — ações tipicamente humanas: sujar e baixar a voltagem. A prova está no próprio texto, que desenvolve essa ideia ao longo da crônica: "O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem" — o hábito, que é uma abstração, age como se fosse uma pessoa capaz de sujar e de reduzir a capacidade de ver.

O comando pede que você identifique a figura de linguagem presente no trecho. Isso é uma questão de conceito (figuras de linguagem), não de interpretação de texto propriamente dita. Você precisa reconhecer a definição de cada figura e aplicá-la ao trecho. A banca não quer que você explique o sentido do trecho, mas que nomeie o recurso estilístico usado.

O texto "Vista cansada", de Otto Lara Resende, trata da banalização do olhar: de tanto ver, a gente deixa de ver. O autor afirma que "o hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem", ou seja, a rotina torna a visão opaca, incapaz de notar o que está à frente. A figura está exatamente nessa transferência de ações humanas para o hábito: sujar e baixar a voltagem são ações que, no sentido literal, só um ser humano (ou um aparelho) poderia praticar. O hábito, sendo uma abstração, não pode literalmente sujar nada — por isso há personificação.

A personificação (ou prosopopeia) é uma figura de pensamento que consiste em atribuir características, ações ou sentimentos humanos a seres inanimados, animais ou entes abstratos. No trecho, o hábito é tratado como um agente capaz de sujar os olhos e de baixar a voltagem — ações humanas (sujar) e técnicas (baixar a voltagem, como se os olhos fossem um aparelho). Isso é típico da personificação.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece figuras que parecem plausíveis: hipérbole (exagero), paradoxo (contradição) e antítese (oposição). Mas nenhuma delas se sustenta: não há exagero intencional, nem contradição interna, nem oposição de ideias. A chave é perceber que o verbo "sujar" e a expressão "baixar a voltagem" são ações atribuídas a um ser não humano — isso é personificação.

1Personificação (gabarito)
Atribui ações humanas a seres inanimados
"O hábito suja os olhos"
"lhes baixa a voltagem"
2Hipérbole
Exagero intencional
Não há exagero no trecho
3Paradoxo
Contradição aparente
Não há contradição no trecho
4Antítese
Oposição de ideias
Não há oposição no trecho
Figuras de linguagem
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Figuras de linguagem: Personificação (gabarito) (Atribui ações humanas a seres inanimados, "O hábito suja os olhos", "lhes baixa a voltagem"); Hipérbole (Exagero intencional, Não há exagero no trecho); Paradoxo (Contradição aparente, Não há contradição no trecho); Antítese (Oposição de ideias, Não há oposição no trecho)

Alternativa A — ❌ Incorreta

A hipérbole é o exagero intencional, como em "morrer de rir" ou "chorar rios de lágrimas". No trecho, não há exagero: "sujar os olhos" e "baixar a voltagem" são metáforas, mas não exageradas. O autor não está dizendo que os olhos ficaram completamente cegos, apenas que a percepção se tornou opaca. Não há intensificação exagerada — há transferência de sentido, não exagero.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A personificação (ou prosopopeia) atribui ações humanas a seres inanimados ou abstratos. No trecho, o hábito — uma abstração — é o sujeito de "sujar" e de "baixar a voltagem", ações que só um ser humano (ou um aparelho) poderia praticar. O texto confirma: "O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem". O hábito age como uma pessoa que suja e que reduz a capacidade de ver. É exatamente a definição de personificação.

Alternativa C — ❌ Incorreta

O paradoxo é a contradição aparente, como "vivo sem viver em mim" ou "é ferida que dói e não se sente". No trecho, não há contradição: "sujar os olhos" e "baixar a voltagem" não se opõem entre si, nem criam uma impossibilidade lógica. A figura é de atribuição de ação, não de contradição.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Retificação não é uma figura de linguagem reconhecida na nomenclatura tradicional. Pode haver confusão com retificação como ato de corrigir, mas não é um recurso estilístico. A banca incluiu essa alternativa apenas para testar se o candidato conhece o rol de figuras. Não há qualquer retificação no trecho.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A antítese é a oposição de palavras ou ideias, como "o amor e o ódio caminham juntos". No trecho, não há termos opostos: "sujar" e "baixar a voltagem" não são antônimos, nem expressam ideias contrárias. A figura é de atribuição de ação, não de oposição.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar a personificação, pergunte: "quem pratica a ação?" Se o sujeito é um ser inanimado ou abstrato e a ação é tipicamente humana, é personificação. No trecho, o sujeito é "o hábito" (abstrato) e as ações são "sujar" e "baixar a voltagem" (humanas/técnicas).

Gabarito: letra B.

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