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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Avança SP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa668536
Banca
Avança SP
Órgão
FUSAM
Ano
2025
Cargo
Ana ( )

A primavera chegou

 

Há um conto escandinavo, escrito por não sei quem há muitas primaveras, em que o mordomo se curva respeitosamente e anuncia à senhora condessa:

 

– Com a vossa permissão, a primavera chegou.

 

– Diga-lhe que seja bem-vinda e pode permanecer três meses em minhas terras.

 

Então vem o primeiro domingo da primavera. E havia um velho mendigo que tinha uma perna de pau. Suspeitava-se que em sua mocidade houvesse sido um terrível pirata; de qualquer maneira era agora apenas um velho mendigo que pedia esmola todo domingo na porta da igreja. E havia uma rica velhinha que todo domingo dava ao mendigo uma grande moeda de cobre. Naquele domingo, entretanto, por ser o primeiro da primavera, deu-lhe uma grande moeda de ouro. O mendigo sorriu e pediu licença para lhe oferecer uma bela rosa.

 

– Que rosa tão bela, mendigo. Onde a colheu?

 

– Nasceu em minha perna de pau, senhora.

   

Guardei apenas isso do conto escandinavo que li há muitos anos. Lembro-me ainda vagamente de um casal de namorados que sai pelo campo – e a primavera é tão linda que eles esquecem, e voltam mil anos depois, ainda primaveris, em outra primavera…

 

Mas isso era na Escandinávia, em um daqueles países louros e frios. No Rio será que existe primavera? Proponho que ela exista; apenas o homem distraído não a vê chegar, nem a sente; nossa primavera é sutil e para entrar na cidade não pede licença ao Prefeito.

 

É claro que falta à nossa gente um pouco de imaginação para sentir, para viver a primavera. Essa gente que espera condução em longas, tediosas filas – por que não aproveita o tempo da espera para fazer rodas e cantar? Imagino a cidade sob esse delírio primaveril; os bondes criariam asas, guiados por condutores de grandes bigodes líricos, e esvoaçariam no céu azul; na Gávea os cavalos ficariam brincando de carrossel e as senhoras e cavalheiros correriam felizes pela pista com flores nos dentes. No cinema, Gina Lolobrigida sairia da tela e viria sentar na poltrona ao meu lado:

 

– Sim, é bem verdade que me amas? Ouvi o teu suspiro; vi, na penumbra, teus olhos que brilhavam. Quero ficar junto de ti. Io te voglio tanto bene!

 

Eu me assustaria, mostraria meus papéis, dizendo que devia haver algum engano, eu não era nenhum artista de cinema, não era nem mesmo o Aloísio Sales, era apenas um espectador, o pobre do Braga, obscuro trecho da realidade brasileira…

 

Mas ela recitaria:

“Comigo fica ou leva-me contigo

Dos mares à amplidão”.

 

Iríamos para a amplidão dos mares. E na volta tomaríamos grandes, imortais, chuveiradas. Pois na primavera (faça o que quiser a Inspetoria de Águas) na primavera todos teremos água, pois nascerão fontes líricas no metal das torneiras e de nossas banheiras saltarão peixes voadores que se porão a cantar como verdadeiros gaturamos e nós todos seremos acqua-loucos de felicidade. Primavera!

 

BRAGA, R. A primavera chegou. Manchete, Rio de Janeiro, 1953. Disponível em <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/13047/a-primavera-chegou>.

Leia o Texto a seguir para responder à questão abaixo.

 

Avalie as afirmações a seguir, com base no texto, e assinale a alternativa que as classifica corretamente como verdadeiras (V) ou falsas (F), considerando-se especialmente a concepção do narrador.

 

I. A chegada da primavera só acontece de fato após a permissão das autoridades locais.

II. A primavera é a única estação do ano que não é valorizada no Rio de Janeiro.

III. Sem a devida atenção, não é possível enxergar a chegada da primavera.

IV. Os povos escandinavos não estimam a primavera tanto quanto os brasileiros o fazem.

V. A imaginação é um recurso necessário para se perceber o encantamento da primavera.


  1. A(F); (V); (V); (F); (V).
  2. B(F); (F); (V); (F); (V).
  3. C(V); (F); (V); (V); (F).
  4. D(V); (V); (F); (V); (F).
  5. E(V); (F); (F); (V); (F).
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — (F); (F); (V); (F); (V).

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Interpretação de Texto: Verdadeiro ou Falso sobre a Concepção do Narrador

Gabarito: letra B. A sequência correta é (F); (F); (V); (F); (V). A questão testa a capacidade de distinguir o que o narrador afirma do que ele sugere de forma poética e irônica. Os itens III e V são verdadeiros porque encontram apoio direto no texto; os demais são falsos porque extrapolam ou contradizem a concepção do narrador, que vê a primavera como algo subjetivo, que independe de autoridades ou de comparações entre povos.

O Comando: Julgamento de Afirmações (V/F)

O enunciado pede para classificar cada afirmação como verdadeira ou falsa "com base no texto" e "considerando-se especialmente a concepção do narrador". Isso significa que a resposta não está na literalidade de uma frase solta, mas na ideia central que o narrador defende ao longo da crônica. Não é uma questão de localizar uma informação explícita (compreensão), mas de interpretar o ponto de vista do autor e verificar se cada afirmação é compatível com ele. A palavra-chave é "concepção": devemos testar cada item contra a tese do texto, não contra o mundo real.

O Texto: A Tese da Primavera Subjetiva

O narrador começa contando um conto escandinavo em que a primavera "pede licença" e é autorizada a permanecer. Em seguida, faz uma transição crucial para o Rio de Janeiro, onde a primavera "não pede licença ao Prefeito". Essa passagem é o coração da crônica: a primavera não é um fenômeno burocrático ou climático, mas uma disposição interior. O narrador então desenvolve essa ideia:

"Proponho que ela exista; apenas o homem distraído não a vê chegar, nem a sente; nossa primavera é sutil e para entrar na cidade não pede licença ao Prefeito."

Aqui está a tese: a primavera existe para quem a percebe. A falta de percepção é do "homem distraído", não uma ausência da estação. Em seguida, ele conecta essa percepção à imaginação:

"É claro que falta à nossa gente um pouco de imaginação para sentir, para viver a primavera."

O restante do texto é uma fantasia (bondes com asas, peixes voadores, Gina Lollobrigida saindo da tela) que ilustra exatamente o que seria viver a primavera com imaginação. O narrador não está descrevendo a realidade, mas propondo um exercício de imaginação para "sentir" e "viver" a estação.

A Técnica: Testando Cada Afirmação Contra a Tese

A armadilha central desta questão é a extrapolação. O texto usa a fantasia e a ironia, e o candidato pode confundir o que é proposta poética com o que é afirmação factual. A regra de ouro é: a afirmação é verdadeira se o narrador a sustenta como sua concepção; é falsa se ela contradiz a tese ou se exige que acrescentemos informações que o texto não dá. Vamos aplicar isso a cada item.

  1. 1Identificar a tese do narrador
  2. 2Testar cada item contra a tese
  3. 3Marcar V/F
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Item I — ❌ Falso

A afirmação é falsa. O item diz que a chegada da primavera "só acontece de fato após a permissão das autoridades locais". Isso contradiz diretamente a concepção do narrador. No conto escandinavo, a condessa autoriza a primavera a ficar, mas isso é parte da ficção que o narrador conta. Ao falar do Rio, ele é explícito:

"nossa primavera é sutil e para entrar na cidade não pede licença ao Prefeito."

A palavra "não" é decisiva. O narrador afirma o oposto do que o item propõe. A permissão das autoridades é uma imagem do conto, não uma condição real para a primavera chegar. O item contradiz o texto.

Item II — ❌ Falso

A afirmação é falsa. O item diz que a primavera é "a única estação do ano que não é valorizada no Rio de Janeiro". O texto não faz essa afirmação. O narrador diz que o homem distraído não vê a primavera chegar, mas não diz que ela é a única estação desvalorizada, nem compara com as outras estações. A palavra "única" é um quantificador absoluto que restringe o alcance do texto. O narrador fala apenas da primavera, sem afirmar que as outras estações são valorizadas. O item extrapola ao criar uma comparação que o texto não estabelece.

Item III — ✅ Verdadeiro

A afirmação é verdadeira. O item diz que "sem a devida atenção, não é possível enxergar a chegada da primavera". Isso é uma paráfrase fiel da tese do narrador. Ele diz que o problema é a distração:

"apenas o homem distraído não a vê chegar, nem a sente"

Aqui, "distraído" é o oposto de "com a devida atenção". O narrador afirma que a primavera é sutil e que só não a vê quem está distraído. Logo, sem atenção, não se enxerga a primavera. O item está diretamente ancorado no texto.

Item IV — ❌ Falso

A afirmação é falsa. O item diz que "os povos escandinavos não estimam a primavera tanto quanto os brasileiros o fazem". O texto não faz essa comparação. O conto escandinavo mostra uma condessa que recebe a primavera com cerimônia e um mendigo que ganha uma moeda de ouro no primeiro domingo de primavera — o que sugere valorização, não desprezo. Além disso, o narrador não diz que os brasileiros estimam mais ou menos. Ele diz que falta imaginação aos brasileiros para sentir a primavera:

"É claro que falta à nossa gente um pouco de imaginação para sentir, para viver a primavera."

O item extrapola ao criar uma comparação de valor entre os povos que o texto não sustenta. O narrador critica a falta de imaginação dos brasileiros, mas não afirma que os escandinavos valorizam mais a estação.

Item V — ✅ Verdadeiro

A afirmação é verdadeira. O item diz que "a imaginação é um recurso necessário para se perceber o encantamento da primavera". Isso é o núcleo da tese do narrador. Ele afirma explicitamente:

"É claro que falta à nossa gente um pouco de imaginação para sentir, para viver a primavera."

A frase estabelece uma relação de causa e consequência: sem imaginação, não se sente nem se vive a primavera. Todo o restante do texto é uma demonstração prática disso: o narrador imagina a cidade sob um "delírio primaveril" para mostrar como seria perceber o encantamento. O item está totalmente ancorado na concepção do narrador.

Conclusão: A Sequência Correta

A sequência correta é (F); (F); (V); (F); (V), que corresponde à letra B. Os itens III e V são verdadeiros porque reproduzem a tese central do narrador: a primavera é sutil e exige atenção e imaginação para ser percebida. Os itens I, II e IV são falsos porque contradizem o texto (item I) ou extrapolam ao acrescentar comparações e quantificadores que o narrador não fez (itens II e IV).

PEGA ESSA DICA!

Em questões de V/F sobre interpretação, grife as palavras absolutas como "só", "única", "todos", "nunca". Elas quase sempre denunciam uma extrapolação ou restrição indevida. No item II, "única" é o termo que derruba a afirmação.

NÃO CAIA NESSA!

A banca mistura a ficção do conto (a condessa autoriza a primavera) com a concepção do narrador sobre o Rio (a primavera não pede licença). O item I explora exatamente essa confusão: quem lê o conto e esquece a virada do narrador marca V, mas o texto desmente.

Gabarito: letra B

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