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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Avança SP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa668561
Banca
Avança SP
Órgão
FUSAM
Ano
2025
Cargo
Cont ( )

O homem rouco

 

Deus sabe o que andei falando por aí; coisa boa não há de ter sido, pois Ele me tirou a voz.

 

Ela sempre foi embrulhada e confusa; a mim próprio muitas vezes parecia monótona e enjoada, que dirá aos outros. Mas era, afinal de contas, a voz de uma pessoa, e bem ou mal eu podia dizer ao mendigo “não tenho trocado”, ao homem parado na esquina, “o senhor pode ter a gentileza de me dar fogo”, e ao garçom, “por favor, mais um pedaço de gelo”. Dizia certamente outras coisas e numa delas me perdi. Fiquei vários dias afônico e, hoje, me comunico e lamento com uma voz de túnel, roufenha, intermitente e infame.

 

Ora, naturalmente que me trato. Deram-me várias pastilhas horríveis e um especialista me receitou uma injeção e uma inalação que cheguei a fazer uma vez e me aborreceu pelo seu desagradável jeito de vício secreto ou de rito religioso oriental. Uma leitora me receitou pelo telefone chá de pitangueira, laranja da terra e eucalipto, tudo isso agravado por um dente de alho bem moído.

 

Não farei essas coisas. Vejo-me à noite, no recolhimento do lar, tomando esse chá dos tempos coloniais e me sinto velho e triste de cortar o coração.

 

Alguém me disse que se trata de rouquidão nervosa, o que me deixa desconfiado de mim mesmo. Terei muitos complexos? Precisamente quantos? Feios, graves? Por que me atacaram a garganta e não, por exemplo, o joelho? Ou quem sabe que havia alguma coisa que eu queria dizer e não podia, não devia, não ousava, estrangulado de timidez, e então engoli a voz?

 

Quando era criança, agora me lembro, passei um ano gago porque fui com outros moleques gritar “Capitão Banana” diante da tenda de um velho que vendia frutas, e ele estava escondido no escuro e me varejou um balde d’água em cima. Naturalmente devo contar essa história a um psicanalista. Mas então ele começará a me escarafunchar a pobre alma e isso não vale a pena. Respeitemos a morna paz desse brejo noturno onde fermentam coisas estranhas e se movem monstros informes e insensatos.

 

Afinal, posso aguentar isso, sou um rapaz direito, bem comportado, talvez até bom partido para uma senhorita da classe média que não faça questão da beleza física, mas sim da moral, modéstia à parte.

 

O remédio é falar menos e escrever mais, antes que os complexos me paralisem os dedos, pobres dedos, triste mão que... Mas, francamente, página de jornal não é lugar para a gente falar essas coisas.

 

Eu vos direi, senhora, apenas, que a voz é feia e roufenha, mas o sentimento é límpido, é cristalino, puro – e vosso.

 

BRAGA, R. O homem rouco. 3ª ed., Record, 1984. Disponível em <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/13137/o-homem-rouco>.

Leia o texto a seguir para responder a questão abaixo.   De acordo com o texto, é correto afirmar que:
  1. AA ideia de tomar um chá que tem como ingrediente alho moído não agrada ao narrador.
  2. BO narrador não se incomoda em ficar afônico, já que considera sua voz roufenha e infame.
  3. CO motivo de o narrador ter perdido a voz foi um trauma de infância.
  4. DO narrador preferia ter um problema nos joelhos a perder a voz por tanto tempo.
  5. EPara o narrador, o remédio para a sua rouquidão é justamente falar mais.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — A ideia de tomar um chá que tem como ingrediente alho moído não agrada ao narrador.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Compreensão do texto "O homem rouco" — a recusa do chá com alho

Gabarito: letra A. A alternativa correta afirma que "a ideia de tomar um chá que tem como ingrediente alho moído não agrada ao narrador", e isso está explícito no texto, no parágrafo em que o narrador descreve a receita da leitora e, em seguida, declara: "Não farei essas coisas. Vejo-me à noite, no recolhimento do lar, tomando esse chá dos tempos coloniais e me sinto velho e triste de cortar o coração." A recusa em fazer o chá e a sensação de tristeza que a mera imagem de tomá-lo lhe provoca provam, sem margem para dúvida, que a ideia não lhe agrada. As demais alternativas ou contradizem o texto, ou extrapolam informações que ele não traz.

O comando da questão é claro: "De acordo com o texto, é correto afirmar que". Isso significa que a resposta deve ser encontrada por recorrência (compreensão), ou seja, deve ser uma paráfrase — uma reescritura fiel — de uma informação que está literalmente no texto. Não se trata de inferir, deduzir ou completar com conhecimento de mundo; a resposta precisa estar ancorada em uma passagem específica. A técnica, portanto, é localizar, para cada alternativa, o trecho que a sustenta ou a refuta.

O texto é uma crônica de Rubem Braga, narrada em primeira pessoa, sobre um homem que perdeu a voz. O movimento argumentativo central é a recusa dos tratamentos e a aceitação resignada da nova condição. O narrador menciona as pastilhas, a injeção, a inalação e, por fim, o chá receitado por uma leitora. É exatamente sobre esse chá que a questão se debruça. A passagem decisiva é:

"Uma leitora me receitou pelo telefone chá de pitangueira, laranja da terra e eucalipto, tudo isso agravado por um dente de alho bem moído."

E, logo em seguida, a reação do narrador:

"Não farei essas coisas. Vejo-me à noite, no recolhimento do lar, tomando esse chá dos tempos coloniais e me sinto velho e triste de cortar o coração."

A recusa categórica ("Não farei") e a imagem negativa associada ao chá ("me sinto velho e triste") são a prova textual de que a ideia de tomar o chá com alho não agrada ao narrador. A alternativa A é a única que se limita a parafrasear essa informação, sem acrescentar nada que o texto não diga.

A armadilha central desta questão é a extrapolação. O texto levanta hipóteses e faz brincadeiras, e o candidato desatento pode transformar essas especulações em fatos. A banca explora exatamente isso: pega uma dúvida do narrador (a causa da rouquidão) e a apresenta como certeza; pega uma preferência hipotética (joelho em vez de garganta) e a apresenta como desejo real; pega uma recomendação irônica (falar menos) e a apresenta como solução. O método para não cair nessa armadilha é simples: teste cada alternativa perguntando: o texto AUTORIZA isto, ou exige acrescentar algo de fora?

1Técnica
Paráfrase fiel
Ancorada no texto
2Armadilhas
Extrapolação (hipótese → certeza)
Contradição (inverte o sentido)
Troca de vocábulo (menos → mais)
3Método de teste
O texto autoriza?
Ou exige acrescentar algo?
Compreensão de texto
LEVELsoulevel.com.br
Compreensão de texto: Técnica (Paráfrase fiel, Ancorada no texto); Armadilhas (Extrapolação (hipótese → certeza), Contradição (inverte o sentido), Troca de vocábulo (menos → mais)); Método de teste (O texto autoriza?, Ou exige acrescentar algo?)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que "a ideia de tomar um chá que tem como ingrediente alho moído não agrada ao narrador". Isso é uma paráfrase fiel do texto. O narrador descreve a receita (que inclui "um dente de alho bem moído") e, em seguida, declara: "Não farei essas coisas." e "me sinto velho e triste de cortar o coração" ao se imaginar tomando o chá. A recusa e a tristeza são sentimentos claramente negativos, que autorizam a afirmação de que a ideia não lhe agrada. A alternativa não acrescenta, não restringe e não contradiz nada.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa diz que "o narrador não se incomoda em ficar afônico, já que considera sua voz roufenha e infame". Isso contradiz o texto. O narrador lamenta a perda da voz: "Fiquei vários dias afônico e, hoje, me comunico e lamento com uma voz de túnel, roufenha, intermitente e infame." O verbo "lamento" expressa justamente o incômodo. Além disso, o texto inteiro é uma reflexão sobre o desconforto de ter perdido a voz. A alternativa troca o vocábulo decisivo: o narrador lamenta, não se conforma. O erro é de contradição com o texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que "o motivo de o narrador ter perdido a voz foi um trauma de infância". Isso é uma extrapolação. O texto levanta essa hipótese de forma especulativa, não como um fato: "Ou quem sabe que havia alguma coisa que eu queria dizer e não podia, não devia, não ousava, estrangulado de timidez, e então engoli a voz?" e "Quando era criança, agora me lembro, passei um ano gago porque fui com outros moleques gritar 'Capitão Banana'...". O narrador está imaginando possíveis causas, inclusive a infância, mas não afirma que essa seja a causa real. A alternativa transforma uma dúvida em certeza, o que é um erro clássico de extrapolação.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa diz que "o narrador preferia ter um problema nos joelhos a perder a voz por tanto tempo". Isso é uma extrapolação. O texto traz a pergunta retórica: "Por que me atacaram a garganta e não, por exemplo, o joelho?" Essa é uma indagação sobre o porquê da escolha do sintoma, não uma declaração de preferência. O narrador não diz que preferiria ter um problema no joelho; ele apenas se pergunta por que o problema foi na garganta. A alternativa acrescenta uma opinião (a preferência) que o texto não externa.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que "para o narrador, o remédio para a sua rouquidão é justamente falar mais". Isso contradiz o texto. O narrador diz exatamente o oposto: "O remédio é falar menos e escrever mais, antes que os complexos me paralisem os dedos...". A alternativa inverte o sentido da frase original, trocando "menos" por "mais". É uma pegadinha clássica de troca de vocábulo que inverte completamente a informação.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, desconfie de alternativas que usam palavras absolutas ("sempre", "nunca", "apenas") ou que transformam hipóteses do texto em certezas. A resposta correta é sempre a que parafraseia uma informação explícita, sem acrescentar ou inverter nada.

Gabarito: letra A — a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto, que parafraseia a recusa explícita do narrador em tomar o chá com alho.

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