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Questão de Português — Figuras de Linguagem — Avança SP 2025

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
qa668563
Banca
Avança SP
Órgão
FUSAM
Ano
2025
Cargo
Cont ( )

O homem rouco

 

Deus sabe o que andei falando por aí; coisa boa não há de ter sido, pois Ele me tirou a voz.

 

Ela sempre foi embrulhada e confusa; a mim próprio muitas vezes parecia monótona e enjoada, que dirá aos outros. Mas era, afinal de contas, a voz de uma pessoa, e bem ou mal eu podia dizer ao mendigo “não tenho trocado”, ao homem parado na esquina, “o senhor pode ter a gentileza de me dar fogo”, e ao garçom, “por favor, mais um pedaço de gelo”. Dizia certamente outras coisas e numa delas me perdi. Fiquei vários dias afônico e, hoje, me comunico e lamento com uma voz de túnel, roufenha, intermitente e infame.

 

Ora, naturalmente que me trato. Deram-me várias pastilhas horríveis e um especialista me receitou uma injeção e uma inalação que cheguei a fazer uma vez e me aborreceu pelo seu desagradável jeito de vício secreto ou de rito religioso oriental. Uma leitora me receitou pelo telefone chá de pitangueira, laranja da terra e eucalipto, tudo isso agravado por um dente de alho bem moído.

 

Não farei essas coisas. Vejo-me à noite, no recolhimento do lar, tomando esse chá dos tempos coloniais e me sinto velho e triste de cortar o coração.

 

Alguém me disse que se trata de rouquidão nervosa, o que me deixa desconfiado de mim mesmo. Terei muitos complexos? Precisamente quantos? Feios, graves? Por que me atacaram a garganta e não, por exemplo, o joelho? Ou quem sabe que havia alguma coisa que eu queria dizer e não podia, não devia, não ousava, estrangulado de timidez, e então engoli a voz?

 

Quando era criança, agora me lembro, passei um ano gago porque fui com outros moleques gritar “Capitão Banana” diante da tenda de um velho que vendia frutas, e ele estava escondido no escuro e me varejou um balde d’água em cima. Naturalmente devo contar essa história a um psicanalista. Mas então ele começará a me escarafunchar a pobre alma e isso não vale a pena. Respeitemos a morna paz desse brejo noturno onde fermentam coisas estranhas e se movem monstros informes e insensatos.

 

Afinal, posso aguentar isso, sou um rapaz direito, bem comportado, talvez até bom partido para uma senhorita da classe média que não faça questão da beleza física, mas sim da moral, modéstia à parte.

 

O remédio é falar menos e escrever mais, antes que os complexos me paralisem os dedos, pobres dedos, triste mão que... Mas, francamente, página de jornal não é lugar para a gente falar essas coisas.

 

Eu vos direi, senhora, apenas, que a voz é feia e roufenha, mas o sentimento é límpido, é cristalino, puro – e vosso.

 

BRAGA, R. O homem rouco. 3ª ed., Record, 1984. Disponível em <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/13137/o-homem-rouco>.

Leia o texto a seguir para responder a questão abaixo.

 

Para se referir a um isqueiro, o narrador do texto emprega a expressão “fogo” – “o senhor pode ter a gentileza de me dar fogo”. Esse tipo de recurso estilístico corresponde à figura de linguagem:

  1. Ametonímia.
  2. Bmetáfora.
  3. Ccomparação.
  4. Donomatopeia.
  5. Eparáfrase.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — metonímia.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Figuras de Linguagem: Metonímia no Texto

Gabarito: letra A. No trecho “o senhor pode ter a gentileza de me dar fogo”, o narrador emprega a palavra “fogo” para se referir a um isqueiro — há uma substituição por relação de contiguidade (o efeito pelo instrumento), o que caracteriza metonímia, e não metáfora. A passagem que ancora a resposta está no 2º parágrafo do texto, quando o narrador lista as frases que costumava dizer antes de perder a voz.

O Comando da Questão

A questão pede que você identifique a figura de linguagem presente na expressão “me dar fogo”. Isso exige conhecimento do conceito de cada figura e a capacidade de aplicá-lo ao contexto. Não se trata de interpretar o texto, mas de reconhecer um recurso estilístico — portanto, o foco está na semântica e na estilística.

O Texto e a Passagem-Chave

No 2º parágrafo, o narrador afirma:

“ao homem parado na esquina, ‘o senhor pode ter a gentileza de me dar fogo’”

Aqui, “fogo” é usado no lugar de “isqueiro” (ou de “fósforo”). Essa substituição não é arbitrária: há uma relação lógica e material entre o objeto (isqueiro) e o que ele produz (fogo). É exatamente essa relação de causa e efeito que define a metonímia.

A Técnica: Metonímia × Metáfora

A metonímia consiste em empregar um termo no lugar de outro, havendo entre eles uma relação de proximidade, contiguidade ou dependência. Os casos mais comuns são:

  • Autor pela obra: “Li Machado de Assis” (li o livro de Machado).

  • Parte pelo todo: “Várias pernas passavam por ali” (várias pessoas).

  • Efeito pela causa: “me dar fogo” (me dar o isqueiro).

  • Marca pelo produto: “Tomei um Nescau” (tomei achocolatado).

Já a metáfora é uma comparação implícita, sem conectivo, entre seres de universos distintos, baseada em semelhança. Exemplo: “Ele é um leão” (ele é valente). No caso de “fogo”, não há comparação entre fogo e isqueiro; há uma substituição por relação de causa e efeito.

Análise das Alternativas

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Metonímia é exatamente o que ocorre: “fogo” substitui “isqueiro” por uma relação de contiguidade (o efeito pelo instrumento). O texto autoriza essa leitura porque o narrador pede “fogo” a um estranho, e o contexto deixa claro que ele quer o objeto que produz fogo, não o fogo em si. A substituição é possível porque há uma relação lógica entre os termos.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Metáfora seria uma comparação implícita por semelhança. Não há semelhança entre “fogo” e “isqueiro”; há uma relação de causa e efeito. A metáfora exigiria uma transferência de sentido por analogia (ex.: “seus olhos são fogo”), o que não ocorre aqui.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Comparação (ou símile) exige um conectivo comparativo (como, tal qual, assim como). No trecho, não há conectivo; há uma substituição direta. Além disso, a relação entre os termos não é de semelhança, mas de contiguidade.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Onomatopeia é a figura que imita sons (ex.: “tic-tac”, “cocoricó”). Não há qualquer imitação sonora no trecho. A palavra “fogo” é usada em seu sentido literal, apenas com valor de substituição.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Paráfrase é a reescritura de um texto com outras palavras, mantendo o sentido. Não há reescritura aqui; há uma substituição vocabular dentro de uma frase. A paráfrase opera em nível textual, não lexical.

Fechamento

A regra de ouro para distinguir metonímia de metáfora é perguntar: há relação de proximidade/contiguidade (metonímia) ou de semelhança (metáfora)? No caso de “fogo” por “isqueiro”, a relação é de causa e efeito — logo, metonímia. Lembre-se: a banca adora explorar essa confusão, então sempre identifique o tipo de relação antes de marcar.

Gabarito: letra A

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