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Questão de Português — Variações da Linguagem: Não Verbal, Regional, Histórica, Contextual. Neologismos e Estrangeirismos — Quadrix 2025

PortuguêsVariações da Linguagem: Não Verbal, Regional, Histórica, Contextual. Neologismos e Estrangeirismos
Código
qa668624
Banca
Quadrix
Órgão
CRM MS
Ano
2025
Cargo
Adv ( )

É provável que a Medicina tenha surgido com a humanidade. Vítima e testemunha do sofrimento, o ser humano deve, desde logo, ter‑se debruçado sobre os doentes, com o desejo de curá‑los. É possível que encarasse a doença como ocorrência sobrenatural, tal como os ventos, as tempestades ou as manifestações de deuses malévolos. A doença, com suas dolorosas consequências, seria obra de algum espírito, cuja ira importaria aplacar com os sacrifícios, ou seria obra de alguminimigo, dotado de poderes especiais, cuja animosidade haveria de ser combatida por meio de sortilégios.


Nesse quadro geral, a doença foi diversamente contemplada, ora como fruto de invasão do organismo por matéria estranha, ora como “perda da alma”, ora em termos de corpo possuído por fantasmas, ora como decorrência do rompimento de tabus, entre outras formas.


Povos primitivos entendiam a doença como algo que se devia à ação de projéteis: lanças, flechas, pedras atiradas por inimigos ou, talvez, ossos e espinhos que alguém engolia sem querer, em virtude da ação de forças adversas, humanas ou sobre‑humanas. Em alguns casos, o projétil é um organismo (um verme, por exemplo), cujos movimentos, na pessoa afetada, explicariam dores agudas ou o mal‑estar súbito. A terapia, nessas várias situações, resumir‑se‑ia à localização e à remoção do invasor, sem excluir, muitas vezes, a possibilidade de devolvê‑lo ao remetente.


A alma, para povos primitivos, não seria entendida em fundamentos teológicos ou metafísicos, mas como sombra ou duplo da pessoa. Esse duplo teria condições, às vezes, de separar‑se do corpo, graças à ação mágica dos deuses ou de eventuais inimigos humanos. A terapia aconselhável consistia em reencontrar a alma para devolvê‑la ao proprietário. No caso de invasão por demônio, a pessoa adoecia porque era possuída por espíritos ou almas estranhas, cuja terapia consistia em tratamentos psicológicos (exorcismo), em extrações mecânicas (alcançada por ingestão de substâncias ou por aspiração de vapores presumivelmente não apreciados pelo invasor) ou em transferências (procurando‑se enviar a alma estranha para outro corpo – animal ou objeto capaz de retê‑la).


Quando se alude à quebra de tabus, entendia‑se a doença como punição: o doente era castigado por haver‑se rebelado contra imperativos religiosos ou sociais. Deuses e almas de antepassados puniam os homens que não se curvavam diante dos mandamentos vigentes.


Em certas circunstâncias, era preciso distinguir a culpa individual da coletiva: males que afligiam a tribo eram associados a uma culpa coletiva, um erro ou uma desobediência generalizada, que dava origem aos males e às epidemias. Em qualquer caso, a terapia envolvia interrogatório e confissão de culpa. Confessada a culpa, as pessoas castigadas, prometendo fidelidade aos mandamentos em vigor, adquiriam condições de curar‑se.


HEGENBERG, Leonidas. Evolução histórica do conceito

de doença. In: L. Hegenberg (org.). Doença: um estudo filosófico. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1998 (com adaptações).

Texto para o item.

 

No que se refere às ideias do texto, julgue o item a seguir.


Quanto às características do texto, nele é empregada uma linguagem de difícil acesso, que é ininteligível para quem não é da área médica.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Análise da linguagem do texto

Gabarito: letra E (Errado). A afirmação de que o texto emprega uma linguagem de difícil acesso, ininteligível para quem não é da área médica, é incorreta. O texto, embora trate de um tema da área da saúde, utiliza uma linguagem clara, acessível e didática, sem jargões técnicos que impeçam a compreensão do leitor leigo. A passagem que comprova isso é a forma como o autor explica os conceitos, como em "A alma, para povos primitivos, não seria entendida em fundamentos teológicos ou metafísicos, mas como sombra ou duplo da pessoa", em que termos complexos são imediatamente traduzidos para uma linguagem comum.

O comando da questão pede uma avaliação crítica sobre as características do texto, especificamente sobre a acessibilidade de sua linguagem. Não se trata de uma questão de compreensão literal de um fato, mas de uma interpretação sobre o estilo e a intenção comunicativa do autor. Para resolvê-la, é preciso analisar como o texto se apresenta ao leitor: se ele é hermético, repleto de termos técnicos, ou se é explicativo, preocupado em tornar o assunto compreensível.

O texto, de natureza dissertativo-expositiva, tem como objetivo informar o leitor sobre a evolução histórica do conceito de doença. Para cumprir essa finalidade, o autor adota uma estratégia de didatismo: ele apresenta cada concepção de doença (projéteis, perda da alma, possessão, quebra de tabus) e, em seguida, explica-a com exemplos e paráfrases. Veja como ele procede ao explicar a terapia para a possessão:

"...cuja terapia consistia em tratamentos psicológicos (exorcismo), em extrações mecânicas (alcançada por ingestão de substâncias ou por aspiração de vapores presumivelmente não apreciados pelo invasor) ou em transferências (procurando-se enviar a alma estranha para outro corpo – animal ou objeto capaz de retê-la)."

Aqui, o autor não apenas cita o termo "exorcismo", mas o insere em um contexto explicativo, detalhando o que seriam as "extrações mecânicas" e as "transferências". Essa preocupação em definir e exemplificar é a prova de que a linguagem é acessível e voltada para o público geral, e não para especialistas. O texto não pressupõe um conhecimento prévio da área médica; ao contrário, ele constrói esse conhecimento para o leitor.

A técnica para resolver esta questão é simples: pergunte-se se o texto explica seus próprios termos. Se sim, ele não é ininteligível. O autor de um texto inacessível usaria termos como "etiologia", "patogenia" ou "nosologia" sem explicação. Aqui, termos como "projéteis", "sortilégios" e "tabus" são usados em seu sentido comum ou são imediatamente contextualizados, garantindo a compreensão.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C afirma que o texto é de difícil acesso e ininteligível para leigos. Isso contradiz o texto, que se esforça para ser claro e explicativo. O erro é de contradizer o texto (o item diz o oposto do que o texto demonstra). O autor utiliza uma linguagem formal, mas acessível, com o propósito de informar, e não de excluir. A presença de paráfrases e exemplos, como na explicação da "perda da alma" como "sombra ou duplo da pessoa", evidencia a intenção de tornar o conteúdo compreensível.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa E é a correta, pois nega a afirmação do enunciado. O texto não é ininteligível; ele é didático e acessível. A prova está na estrutura do texto, que define e explica cada conceito apresentado. O autor não usa jargões médicos sem explicação, mas sim uma linguagem que busca a clareza, como se vê na passagem sobre a alma:

"A alma, para povos primitivos, não seria entendida em fundamentos teológicos ou metafísicos, mas como sombra ou duplo da pessoa."

Ao traduzir imediatamente o conceito de alma para "sombra ou duplo", o autor garante que qualquer leitor, mesmo sem formação na área, possa acompanhar o raciocínio. Portanto, a afirmação de que a linguagem é de difícil acesso é falsa.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer o candidato associar automaticamente "texto sobre medicina" a "linguagem inacessível". Essa é uma extrapolação baseada em um estereótipo, não no que o texto realmente apresenta. A resposta correta exige a leitura atenta do estilo do autor, que é claramente explicativo.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar itens sobre a linguagem de um texto, procure por marcas de didatismo: definições, paráfrases, exemplos, explicações entre parênteses. A presença desses elementos indica que o autor quer ser compreendido, logo, a linguagem é acessível.

Conclusão: A questão testa a capacidade de avaliar o estilo do texto, e não apenas seu conteúdo. O texto de Hegenberg é um exemplo de divulgação científica acessível, que explica conceitos complexos de forma simples. A alternativa E é a única que se alinha com essa característica, sendo, portanto, o gabarito.

Gabarito: letra E

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