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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Quadrix 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa668627
Banca
Quadrix
Órgão
CRM MS
Ano
2025
Cargo
Adv ( )

É provável que a Medicina tenha surgido com a humanidade. Vítima e testemunha do sofrimento, o ser humano deve, desde logo, ter‑se debruçado sobre os doentes, com o desejo de curá‑los. É possível que encarasse a doença como ocorrência sobrenatural, tal como os ventos, as tempestades ou as manifestações de deuses malévolos. A doença, com suas dolorosas consequências, seria obra de algum espírito, cuja ira importaria aplacar com os sacrifícios, ou seria obra de alguminimigo, dotado de poderes especiais, cuja animosidade haveria de ser combatida por meio de sortilégios.


Nesse quadro geral, a doença foi diversamente contemplada, ora como fruto de invasão do organismo por matéria estranha, ora como “perda da alma”, ora em termos de corpo possuído por fantasmas, ora como decorrência do rompimento de tabus, entre outras formas.


Povos primitivos entendiam a doença como algo que se devia à ação de projéteis: lanças, flechas, pedras atiradas por inimigos ou, talvez, ossos e espinhos que alguém engolia sem querer, em virtude da ação de forças adversas, humanas ou sobre‑humanas. Em alguns casos, o projétil é um organismo (um verme, por exemplo), cujos movimentos, na pessoa afetada, explicariam dores agudas ou o mal‑estar súbito. A terapia, nessas várias situações, resumir‑se‑ia à localização e à remoção do invasor, sem excluir, muitas vezes, a possibilidade de devolvê‑lo ao remetente.


A alma, para povos primitivos, não seria entendida em fundamentos teológicos ou metafísicos, mas como sombra ou duplo da pessoa. Esse duplo teria condições, às vezes, de separar‑se do corpo, graças à ação mágica dos deuses ou de eventuais inimigos humanos. A terapia aconselhável consistia em reencontrar a alma para devolvê‑la ao proprietário. No caso de invasão por demônio, a pessoa adoecia porque era possuída por espíritos ou almas estranhas, cuja terapia consistia em tratamentos psicológicos (exorcismo), em extrações mecânicas (alcançada por ingestão de substâncias ou por aspiração de vapores presumivelmente não apreciados pelo invasor) ou em transferências (procurando‑se enviar a alma estranha para outro corpo – animal ou objeto capaz de retê‑la).


Quando se alude à quebra de tabus, entendia‑se a doença como punição: o doente era castigado por haver‑se rebelado contra imperativos religiosos ou sociais. Deuses e almas de antepassados puniam os homens que não se curvavam diante dos mandamentos vigentes.


Em certas circunstâncias, era preciso distinguir a culpa individual da coletiva: males que afligiam a tribo eram associados a uma culpa coletiva, um erro ou uma desobediência generalizada, que dava origem aos males e às epidemias. Em qualquer caso, a terapia envolvia interrogatório e confissão de culpa. Confessada a culpa, as pessoas castigadas, prometendo fidelidade aos mandamentos em vigor, adquiriam condições de curar‑se.


HEGENBERG, Leonidas. Evolução histórica do conceito

de doença. In: L. Hegenberg (org.). Doença: um estudo filosófico. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1998 (com adaptações).

Texto para o item.

 

No que se refere às ideias do texto, julgue o item a seguir.

 

Depreende‑se do texto que a medicina, como a arte de curar, era aplicada desde as civilizações mais antigas.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

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A medicina como arte de curar desde as civilizações mais antigas

Gabarito: C (Certo). O item está correto porque o texto afirma, logo na primeira frase, que "É provável que a Medicina tenha surgido com a humanidade", e em seguida descreve como o ser humano "deve, desde logo, ter-se debruçado sobre os doentes, com o desejo de curá-los". Essa passagem sustenta diretamente a ideia de que a medicina, como arte de curar, era aplicada desde as civilizações mais antigas — não há necessidade de inferência profunda, a informação está praticamente explícita.

O comando: "depreende-se" pede inferência, mas com pista no texto

O verbo "depreender" indica que a resposta não está literalmente escrita, mas pode ser deduzida a partir de pistas do texto. No entanto, aqui a dedução é mínima: o autor usa expressões como "É provável" e "deve, desde logo" para indicar uma hipótese sobre a origem da medicina, mas a ideia central — de que a medicina surgiu com a humanidade e era praticada como arte de curar — está claramente enunciada. Em questões de inferência, a resposta deve ser uma conclusão ancorada no texto, não uma extrapolação. Neste caso, a conclusão é quase uma paráfrase da primeira frase.

O texto: tese e movimento argumentativo

O texto de Leonidas Hegenberg tem como tese a antiguidade da medicina, associada às primeiras manifestações humanas de cuidado com os doentes. O autor não apenas afirma isso, mas desenvolve o tema ao longo dos parágrafos, explicando como diferentes povos primitivos concebiam a doença (projéteis, perda da alma, possessão, quebra de tabus). Toda essa exposição reforça a ideia de que a medicina, em suas formas mais primitivas, já existia nas civilizações antigas. A passagem-chave está no primeiro parágrafo:

"É provável que a Medicina tenha surgido com a humanidade. Vítima e testemunha do sofrimento, o ser humano deve, desde logo, ter-se debruçado sobre os doentes, com o desejo de curá-los."

A expressão "com o desejo de curá-los" é exatamente o que caracteriza a medicina como "arte de curar". Portanto, o item apenas reformula essa ideia, sem acrescentar nada que o texto não diga.

A técnica: inferência legítima vs. extrapolação

A inferência legítima se apoia em pressupostos deixados pelo texto. Aqui, o pressuposto é claro: se a medicina surgiu com a humanidade e o ser humano já se debruçava sobre os doentes com desejo de curá-los, então a medicina como arte de curar era aplicada desde as civilizações mais antigas. Não há extrapolação, pois o texto não diz apenas que a medicina existia, mas que havia a intenção de curar. A alternativa não acrescenta informações externas, como datas específicas ou nomes de civilizações; ela apenas sintetiza o que o autor afirma.

Análise do item

Item — ✅ CERTO

O item está correto porque reproduz fielmente a tese do texto. A expressão "arte de curar" é uma paráfrase de "desejo de curá-los", e "desde as civilizações mais antigas" corresponde a "surgido com a humanidade". Não há qualquer elemento que contrarie o texto. A banca poderia ter tentado uma pegadinha com "depreende-se", mas aqui a inferência é direta e sustentada pela primeira frase.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de "depreende-se", procure primeiro se há uma afirmação explícita que sustente a conclusão. Se houver, a inferência é legítima e a resposta é certa. Desconfie apenas quando a alternativa exigir informações que o texto não fornece.

Conclusão: O item está certo, pois o texto afirma que a medicina surgiu com a humanidade e que o ser humano já buscava curar os doentes desde os primórdios. A resposta é uma síntese direta da tese, sem extrapolação.

Gabarito: C (Certo)

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