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Questão de Português — Vocábulo "Como" — Quadrix 2025

PortuguêsVocábulo "Como"
Código
qa668633
Banca
Quadrix
Órgão
CRM MS
Ano
2025
Cargo
Adv ( )

É provável que a Medicina tenha surgido com a humanidade. Vítima e testemunha do sofrimento, o ser humano deve, desde logo, ter‑se debruçado sobre os doentes, com o desejo de curá‑los. É possível que encarasse a doença como ocorrência sobrenatural, tal como os ventos, as tempestades ou as manifestações de deuses malévolos. A doença, com suas dolorosas consequências, seria obra de algum espírito, cuja ira importaria aplacar com os sacrifícios, ou seria obra de alguminimigo, dotado de poderes especiais, cuja animosidade haveria de ser combatida por meio de sortilégios.


Nesse quadro geral, a doença foi diversamente contemplada, ora como fruto de invasão do organismo por matéria estranha, ora como “perda da alma”, ora em termos de corpo possuído por fantasmas, ora como decorrência do rompimento de tabus, entre outras formas.


Povos primitivos entendiam a doença como algo que se devia à ação de projéteis: lanças, flechas, pedras atiradas por inimigos ou, talvez, ossos e espinhos que alguém engolia sem querer, em virtude da ação de forças adversas, humanas ou sobre‑humanas. Em alguns casos, o projétil é um organismo (um verme, por exemplo), cujos movimentos, na pessoa afetada, explicariam dores agudas ou o mal‑estar súbito. A terapia, nessas várias situações, resumir‑se‑ia à localização e à remoção do invasor, sem excluir, muitas vezes, a possibilidade de devolvê‑lo ao remetente.


A alma, para povos primitivos, não seria entendida em fundamentos teológicos ou metafísicos, mas como sombra ou duplo da pessoa. Esse duplo teria condições, às vezes, de separar‑se do corpo, graças à ação mágica dos deuses ou de eventuais inimigos humanos. A terapia aconselhável consistia em reencontrar a alma para devolvê‑la ao proprietário. No caso de invasão por demônio, a pessoa adoecia porque era possuída por espíritos ou almas estranhas, cuja terapia consistia em tratamentos psicológicos (exorcismo), em extrações mecânicas (alcançada por ingestão de substâncias ou por aspiração de vapores presumivelmente não apreciados pelo invasor) ou em transferências (procurando‑se enviar a alma estranha para outro corpo – animal ou objeto capaz de retê‑la).


Quando se alude à quebra de tabus, entendia‑se a doença como punição: o doente era castigado por haver‑se rebelado contra imperativos religiosos ou sociais. Deuses e almas de antepassados puniam os homens que não se curvavam diante dos mandamentos vigentes.


Em certas circunstâncias, era preciso distinguir a culpa individual da coletiva: males que afligiam a tribo eram associados a uma culpa coletiva, um erro ou uma desobediência generalizada, que dava origem aos males e às epidemias. Em qualquer caso, a terapia envolvia interrogatório e confissão de culpa. Confessada a culpa, as pessoas castigadas, prometendo fidelidade aos mandamentos em vigor, adquiriam condições de curar‑se.


HEGENBERG, Leonidas. Evolução histórica do conceito

de doença. In: L. Hegenberg (org.). Doença: um estudo filosófico. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1998 (com adaptações).

Texto para o item.

 

Com referência ao texto e a seus aspectos linguísticos e gramaticais, julgue o item seguinte.

 

A expressão “tal como” poderia, sem prejuízo gramatical, ser flexionada no plural – tais como –, caso em que passaria a se referir aos elementos da enumeração posterior.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Flexão de "tal como" e a referência à enumeração posterior

Gabarito: E (Errado). A afirmação está incorreta porque, embora seja gramaticalmente possível flexionar "tal como" para "tais como", essa flexão não faria a expressão passar a se referir aos elementos da enumeração posterior. No texto, "tal como" introduz uma comparação com um termo anterior ("ocorrência sobrenatural"), e não uma enumeração de elementos. A flexão para o plural apenas ajustaria a concordância com o termo comparado, que também está no plural ("os ventos, as tempestades ou as manifestações de deuses malévolos"), mas não alteraria a função sintática nem o referente da expressão.

O comando da questão

O enunciado pede um julgamento sobre uma reescritura — se a flexão de "tal como" para "tais como" seria gramaticalmente válida e se mudaria o referente da expressão. Isso exige analisar a função sintática e o valor semântico da expressão no contexto original, não apenas a regra de concordância nominal isolada.

O texto e a expressão "tal como"

No primeiro parágrafo, o autor escreve:

"É possível que encarasse a doença como ocorrência sobrenatural, tal como os ventos, as tempestades ou as manifestações de deuses malévolos."

Aqui, "tal como" tem valor comparativo: aproxima a doença de outras ocorrências sobrenaturais. O termo que segue a expressão ("os ventos, as tempestades ou as manifestações de deuses malévolos") é o segundo termo da comparação, e não uma enumeração de elementos que a expressão passaria a listar. A expressão "tal como" poderia ser substituída por "assim como" ou "do mesmo modo que", mantendo o sentido.

A técnica que decide

A pegadinha está em confundir comparação com enumeração. Vejamos:

  • Comparação: "tal como" aproxima dois termos por semelhança. O segundo termo é um exemplo ou referente daquilo que foi dito antes.

  • Enumeração: uma lista de itens, geralmente introduzida por dois-pontos ou por conectivos como "a saber", "isto é", "tais como" (quando seguido de uma lista de exemplos).

No texto, "tal como" não introduz uma lista; introduz uma comparação com um termo plural. Flexionar para "tais como" apenas faria a concordância com o termo plural, mas a função continuaria sendo comparativa, e o referente continuaria sendo o termo anterior ("ocorrência sobrenatural").

Análise da alternativa

1Valor semântico
Comparativo (assim como)
Não é enumeração
2Função sintática
Introduz 2º termo da comparação
Referente: termo anterior
3Flexão para "tais como"
Ajusta concordância (plural)
Não muda o referente
Não vira enumeração
"Tal como" no texto
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"Tal como" no texto: Valor semântico (Comparativo (assim como), Não é enumeração); Função sintática (Introduz 2º termo da comparação, Referente: termo anterior); Flexão para "tais como" (Ajusta concordância (plural), Não muda o referente, Não vira enumeração)

Alternativa E — ❌ Incorreta ⟵ GABARITO

A afirmação está errada por dois motivos:

  1. A flexão não muda o referente: "tal como" e "tais como" têm a mesma função — introduzir uma comparação. A flexão apenas ajusta a concordância com o termo plural, mas não faz a expressão "passar a se referir" à enumeração posterior. O referente continua sendo o termo anterior.

  2. Não há enumeração posterior: o que segue "tal como" é uma comparação ("os ventos, as tempestades ou as manifestações de deuses malévolos"), não uma enumeração de itens que a expressão passaria a listar.

Portanto, a reescrita proposta não teria o efeito descrito, tornando o item errado.

Conclusão

A banca explora a confusão entre comparação e enumeração. Ao flexionar "tal como" para "tais como", a concordância muda, mas a função sintática e o referente permanecem os mesmos. A resposta correta é E (Errado).

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar reescrituras, pergunte-se: "a mudança altera a função sintática ou apenas a concordância?" Se apenas a concordância muda, o sentido e o referente permanecem.

Gabarito: letra E

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