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Questão de Português — Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc) — FUNDATEC 2025

PortuguêsPontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)
Código
qa669481
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref Marau (RS)
Ano
2025
Cargo
Ag ( )

A mulher sozinha

 

Por Maria Julieta Drummond de Andrade

 

Era magra e estava sempre com o mesmo vestido rasgado. Usava chinelos de feltro, velhíssimos. Ela própria parecia velhíssima, embora de perto mostrasse, sob a sujeira e as rugas, um rosto que era apenas maduro, gasto pela miséria. Acostumei-me a vê-la sentada, de manhã e de tarde, naquele canto, sobre o cimento cheio de poeira. Os que entravam apressados na igreja praticamente a ignoravam e só reparavam nela depois da missa, quando saíam devagar.

 

Passando diante da igreja duas vezes por dia, certa cumplicidade criou-se entre nós duas: quando eu tinha tempo e ela não estava agradecendo as esmolas, conversávamos. Contou-me que vivia no outro extremo da cidade e que fazia uma longa caminhada, cedinho, até a estação, para tomar o trem, e outra até o lugar onde nos encontrávamos. Não me explicou por que escolhera um bairro tão distante para mendigar e nada lhe perguntei a respeito, receando lhe ferir a intimidade ou introduzir-me em seu segredo. Há uns dois meses encontrei-a radiante, com um pequeno vulto escuro entre os braços: era uma cachorrinha recém-nascida, Maria Isabel, que a mulher ninava e acarinhava com deslumbramento. Disse-me que a recolhera de uma lata de lixo e a batizara logo. Da sacola de palha que sempre trazia consigo retirou uma garrafa d'água e uma colherinha e, com infinita delicadeza, foi entornando algumas gotas na goela da bichinha, que gania baixo, ainda de olhos fechados. A mulher não desgrudava os olhos dela e, remoçada pela alegria e atenção que a cachorrinha ofertava e exigia, deu até para cantar uma música confusa e antiga.

 

As duas não apareceram na última semana. Até que ontem o jornaleiro, compungido, contou-me uma das histórias mais tristes que já ouvi. Maria Isabel se transformara numa vira-lata peluda, encantadora, de focinho redondo e olhos de açúcar. Tão linda, que um malvado achou de roubá-la. A mulher passou a noite atrás da cadela, de um lado para o outro da estação, chorando, gemendo, chamando-a por nomes doces e implorantes. Depois sentou-se num banco e ali ficou imóvel, em silêncio, até o dia clarear.

 

(Disponível em: cronicabrasileira.org.br/cronicas/17849/a-mulher

-sozinha – texto adaptado especialmente para esta prova).

Qual efeito de sentido o uso dos dois pontos (:) produz no trecho “Há uns dois meses encontrei-a radiante, com um pequeno vulto escuro entre os braços: era uma cachorrinha recém-nascida, Maria Isabel, que a mulher ninava e acarinhava com deslumbramento”?
  1. AIntroduz uma enumeração dos objetos que a mulher carregava.
  2. BApresenta uma explicação sobre a cachorrinha que a mulher havia encontrado.
  3. CIndica a fala da mulher, em discurso direto.
  4. DExpressa uma consequência da ação de recolher a cachorrinha do lixo.
  5. EMarca uma pausa para realçar a emoção da mulher ao encontrar a cachorrinha.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Apresenta uma explicação sobre a cachorrinha que a mulher havia encontrado.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Efeito de sentido dos dois-pontos — Gabarito: letra B.

Gabarito: letra B. Os dois-pontos, no trecho, introduzem uma explicação sobre o que era o "pequeno vulto escuro entre os braços": trata-se de uma cachorrinha recém-nascida, Maria Isabel. A alternativa B é a correta porque o sinal de pontuação anuncia um esclarecimento do termo anterior, e não uma enumeração, fala, consequência ou mera pausa emocional.

O comando pede que você identifique o efeito de sentido produzido pelos dois-pontos em um trecho específico. Isso é diferente de perguntar "qual a regra dos dois-pontos?" — aqui, a banca quer que você perceba a função semântica que o sinal exerce naquele contexto. A resposta não está em uma regra decorada isolada, mas na relação que o sinal estabelece entre o que vem antes e o que vem depois.

No trecho, a narradora diz que encontrou a mulher "radiante, com um pequeno vulto escuro entre os braços". O leitor, naturalmente, se pergunta: o que é esse vulto? Os dois-pontos respondem a essa pergunta, apresentando a identificação do objeto: "era uma cachorrinha recém-nascida, Maria Isabel". Ou seja, o sinal explica o que era o vulto, funcionando como um elo de esclarecimento.

"Há uns dois meses encontrei-a radiante, com um pequeno vulto escuro entre os braços: era uma cachorrinha recém-nascida, Maria Isabel, que a mulher ninava e acarinhava com deslumbramento"

A passagem citada prova que os dois-pontos antecedem uma explicação — eles introduzem o detalhamento do que foi mencionado antes. Não há lista de itens, não há fala transcrita, não há relação de causa e consequência, e a pausa não é o objetivo principal do sinal, mas um efeito secundário. A função central é explicativa.

A técnica para resolver: ao se deparar com dois-pontos, pergunte-se "o que vem depois?" — se for uma lista, é enumeração; se for a fala de alguém, é discurso direto; se for um esclarecimento do que foi dito, é explicação. Aqui, o que segue é a identificação do vulto, ou seja, uma explicação.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Introduz uma enumeração dos objetos que a mulher carregava. Erro: contradiz o texto. Não há lista de objetos; há a identificação de um único elemento (a cachorrinha). Enumeração exigiria uma sequência de itens coordenados, o que não ocorre.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Apresenta uma explicação sobre a cachorrinha que a mulher havia encontrado. Correta. Os dois-pontos introduzem o esclarecimento do que era o "pequeno vulto escuro": "era uma cachorrinha recém-nascida, Maria Isabel". O sinal anuncia a explicação do termo anterior.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Indica a fala da mulher, em discurso direto. Erro: contradiz o texto. Não há transcrição de fala; o trecho é narração da autora sobre o que viu. Discurso direto exigiria verbos de elocução (disse, falou) e a fala entre aspas ou travessão.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Expressa uma consequência da ação de recolher a cachorrinha do lixo. Erro: extrapola o texto. O trecho não estabelece relação de causa e consequência; ele apenas identifica o que a mulher segurava. A consequência (a transformação em vira-lata) aparece em outro parágrafo, não aqui.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Marca uma pausa para realçar a emoção da mulher ao encontrar a cachorrinha. Erro: tangencia o tema. Embora a emoção exista no contexto ("radiante", "deslumbramento"), a função dos dois-pontos no trecho não é marcar pausa emocional, mas sim introduzir a explicação do que era o vulto. A pausa é consequência, não o efeito principal.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre os usos dos dois-pontos. A alternativa E é a mais sedutora, pois mistura a emoção do contexto com a função do sinal. Lembre-se: o que decide é a relação entre o antes e o depois — se o depois explica o antes, é explicação.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar pontuação, pergunte sempre: "o que o sinal faz com as ideias?" Enumera? Explica? Cita? A resposta está na relação semântica, não na pausa.

Gabarito: letra B — os dois-pontos introduzem uma explicação sobre a cachorrinha, identificando o "pequeno vulto escuro" que a mulher carregava.

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