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Questão de Português — Conjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais — FUNDATEC 2025

PortuguêsConjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais
Código
qa669500
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref Marau (RS)
Ano
2025
Cargo
Arqt ( )

O morador

 

Por Rubem Braga

 

De repente me ocorre que estou cansado de morar nesta casa. Durante demasiados anos vivi de casa em casa, de quarto em quarto, de cidade em cidade, para que não sentisse esse desgosto sutil de estar parado na mesma esquina, embora quieta, embora boa. Minha vida aportou aqui sem dizer que ia ficar, tal como a canoa do pescador que para junto a uma pedra, sem saber se é por meia hora ou pelo dia inteiro.

 

Aos poucos me levantei. As caras permanentes da rua foram se fixando no fundo de meus olhos. Um dia encontrei, no centro da cidade, um empregado do armazém da esquina e achei tão absurdo vê-lo ali como se, entrando em um Ministério eu encontrasse, no gabinete, o gato ruivo de minha vizinha. Custei a reconhecer a cara familiaríssima do rapaz. Seria, talvez, um garçom de Belo Horizonte ou o funcionário de um jornal de Porto Alegre... Não consegui descobrir. No dia seguinte ele passou sob a minha janela, como passa várias vezes por dia, em sua bicicleta, e tive um sobressalto. Também já me aconteceu cumprimentar, distraído, na saída de um cinema, uma moça loira de pele muito queimada; cumprimentei-a sem saber exatamente quem era, mas sentindo que era uma pessoa muito conhecida, talvez irmã de algum amigo. Ela respondeu de um modo meio reticente, meio surpreso. Fiquei embaraçado. Depois, descobri que não tenho relações com essa moça, apenas a conheço de vista, da minha rua, onde nunca me ocorreria cumprimentá-la.

 

O mecanismo da cordialidade humana não é muito simples. Sempre corro o perigo de cumprimentar efusivamente, quando encontro, de súbito, um desafeto qualquer: antes de me dar conta de quem se trata, eu o saúdo porque é uma cara conhecida. Mas, a rua subitamente me cansa. Parece que sou escravo de seus hábitos. Sei precisamente a hora em que a “vaca leiteira” aparece e as empregadas das casas saem apressadas, de latas e garrafas na mão, para a pequena fila de leite; conheço todos os pregões e os carteiros, os meninos que esperam o ônibus do colégio, o apartamento que fica aceso ao longo das madrugadas. Conheço até alguns automóveis e os fregueses do boteco perto do mar, o idiota com quem os moleques mexem, a mocinha tão bonita que de repente ficou magra, triste, esquisita... Sem indagar, sem na realidade saber o nome de ninguém, vou sem querer considerando tudo isso como parte de minha própria vida. Seria doce mudar, de casa ou de país.

 

Sei, por experiência, que tudo isso que parece tão estabelecido em minha vida se diluirá com facilidade e até o número da casa e do telefone serão esquecidos, e toda essa gente e todas essas coisas se apagarão em lembranças remotas. Como sempre, voltando um dia por acaso a esta esquina, é possível que eu tenha alguma saudade, mas bem maior será o secreto prazer de pensar que me livrei de tudo, das ternuras e aborrecimentos desta rua, que tudo ficou para trás como uma estação sem interesse, apenas mais uma estação, nesta viagem em demanda de coisa alguma.

 

(Disponível em: cronicabrasileira.org.br/cronicas/20236/o-

morador – texto adaptado especialmente para esta prova).

Analisando a estrutura morfológica do texto, em “Seria talvez um garçom de Belo Horizonte ou o funcionário de um jornal de Porto Alegre... Não consegui descobrir.”, o verbo destacado expressa um(a):

  1. AAção concluída no passado, indicando a identidade do rapaz.
  2. BHipótese, demonstrando a incerteza do narrador.
  3. CAção habitual no passado, descrevendo a rotina do rapaz.
  4. DOrdem, um conselho, sugerindo o que o narrador deveria ter feito.
  5. EDesejo, uma vontade do narrador, expressando sua curiosidade.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Hipótese, demonstrando a incerteza do narrador.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O valor do futuro do pretérito em “Seria” — Gabarito: letra B.

Gabarito: letra B. O verbo “Seria” (futuro do pretérito do indicativo) expressa hipótese, demonstrando a incerteza do narrador quanto à identidade do rapaz. A passagem que ancora essa leitura é o trecho em que o narrador diz: “Seria, talvez, um garçom de Belo Horizonte ou o funcionário de um jornal de Porto Alegre... Não consegui descobrir.” — o advérbio “talvez” e a frase “Não consegui descobrir” confirmam que se trata de uma suposição, não de um fato.

O comando da questão

A questão pede que você analise a estrutura morfológica do texto, ou seja, o valor semântico do verbo destacado no contexto. Não se trata de mera classificação gramatical (tempo/modo), mas de reconhecer o efeito de sentido que o tempo verbal produz naquele trecho. O verbo “Seria” está no futuro do pretérito do indicativo, tempo que, entre outros usos, expressa hipótese, incerteza, possibilidade — exatamente o que ocorre aqui.

O texto e o movimento argumentativo

No segundo parágrafo, o narrador relata um episódio: encontrou no centro da cidade um empregado do armazém da esquina e não o reconheceu de imediato. Ele tenta identificá-lo, mas não consegue. A frase destacada é a materialização dessa dúvida: o narrador supõe quem o rapaz poderia ser, mas não afirma nada. O futuro do pretérito, combinado com o advérbio “talvez”, marca essa suposição — o narrador não tem certeza, apenas levanta possibilidades.

“Seria, talvez, um garçom de Belo Horizonte ou o funcionário de um jornal de Porto Alegre... Não consegui descobrir.”

O trecho “Não consegui descobrir” é a chave: se o narrador tivesse certeza, não precisaria supor. A hipótese é reforçada pelo “talvez”, que é um marcador linguístico de dúvida.

A técnica que decide

Para resolver, você deve identificar o tempo e o modo do verbo e, em seguida, verificar qual valor semântico ele assume no contexto. O futuro do pretérito do indicativo (seria, faria, diria) tem como valor básico a hipótese, a consequência imaginada ou o fato futuro em relação a um passado. No trecho, não há condição explícita, mas o contexto de incerteza é claro. Compare com outros tempos:

Tempo verbal

Valor típico

Exemplo no texto

Pretérito perfeito

Ação concluída

“Custei a reconhecer”

Pretérito imperfeito

Ação habitual

“passa várias vezes por dia”

Futuro do pretérito

Hipótese, incerteza

“Seria, talvez, um garçom”

A alternativa B é a única que capta esse valor de hipótese.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

Ação concluída no passado, indicando a identidade do rapaz. O verbo “Seria” não está no pretérito perfeito (que indicaria ação concluída), e o texto não afirma a identidade do rapaz — pelo contrário, o narrador diz “Não consegui descobrir”. A alternativa contradiz o texto e erra o tempo verbal.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Hipótese, demonstrando a incerteza do narrador. O futuro do pretérito “Seria”, reforçado por “talvez” e pela frase “Não consegui descobrir”, expressa suposição. O narrador não sabe quem é o rapaz; apenas levanta possibilidades. É exatamente o valor de hipótese.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Ação habitual no passado, descrevendo a rotina do rapaz. O pretérito imperfeito é que expressa habitualidade (ex.: “passa várias vezes por dia”), mas “Seria” está no futuro do pretérito, que não indica rotina. Além disso, o trecho não descreve a rotina do rapaz, mas a dúvida do narrador. A alternativa troca o tempo verbal e foge ao tema.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Ordem, um conselho, sugerindo o que o narrador deveria ter feito. O modo imperativo é que expressa ordem ou conselho, e “Seria” está no indicativo. O texto não traz nenhuma ordem ou conselho; o narrador apenas supõe. A alternativa erra o modo verbal e acrescenta opinião.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Desejo, uma vontade do narrador, expressando sua curiosidade. Embora o narrador demonstre curiosidade, o verbo “Seria” não expressa desejo — expressa hipótese. O desejo seria marcado por formas como “gostaria” ou “queria”. A alternativa confunde desejo com hipótese e extrapola o sentido do texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o futuro do pretérito (hipótese) e o pretérito imperfeito (ação habitual), além de sugerir sentidos de desejo/ordem que não se sustentam no contexto.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar o valor de um tempo verbal, pergunte: “o texto afirma um fato, descreve uma rotina, expressa uma ordem ou levanta uma possibilidade?”. A presença de marcadores como “talvez”, “provavelmente” ou “quem sabe” indica hipótese.

Gabarito: letra B.

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