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Questão de Português — Orações Subordinadas Adverbiais — Avança SP 2025

PortuguêsOrações Subordinadas Adverbiais
Código
qa670551
Banca
Avança SP
Órgão
CM Caçapava
Ano
2025
Cargo
PJur ( )

Domingo cordial

 

Alguém disse um desaforo à velha senhora e ela, virando-se, achou que tinha sido eu. Disse-me um palavrão. Depois, como eu lhe sorrisse, fez-me um gesto vegetal. Não satisfeita, porque baixei os olhos, cuspiu no chão.

 

Dizem que os jovens andam terríveis, mas não é verdade. Os velhos de hoje é que estão precisando de atenções. Da polícia, do clero e dos magistrados.

 

Se pudesse aqui reproduzir o palavrão que a velhinha me disse, vocês cairiam para trás. Não foi aquele que evoca o ser materno, nem aquele que atinge a provável esposa, nem o outro, o mais banal, que nega a nossa tão propalada masculinidade. Foi um pior, requintado, que só diz quem é da barra pesada e está a fim de briga. E dizia-o uma velhinha de vestido preto, gola e punhos rendados (juro), com seu Adoremus na mão, a caminho da missa. Onde aquela santa senhora teria aprendido tal palavra? Quem sabe praticando o tresloucamento que ela encerra? Tesconjuro, velhinha! Que a Santa Missa lhe purifique a boca.

 

Meia hora depois, na avenida Atlântica, fechei (sem querer) um Karmann-Ghia e a moça que o dirigia calcou o acelerador até emparelhar comigo. “Lá vem a má palavra” (pensei) enquanto abria o vidro para ouvi-la, submisso. E qual não foi a minha surpresa quando a jovem chauffeuse, de longos cabelos saxônicos, me disse, sorrindo:

 

— Morre, mas não mata!

 

Só isto. Tão bonita, podia perfeitamente ser desbocada. Além do mais, tinha razão, porque na guinada que deu para livrar-se de mim, quase sobe na calçada. Limitou-se a desejar-me a morte, assim mesmo sorrindo.

 

Em Ipanema, desci para comprar cigarros. Estava sendo cordialmente atendido quando o dono da casa veio de lá:

 

— Então, verificou o engano?

 

Não entendi. Imaginei que se tratava de um leitor referindo-se a alguma crônica em que eu me houvesse desdito ou contradito. Disse um “pois é” que não significava absolutamente nada. O homem insistiu:

 

— Verificou o engano? Recontou o dinheiro?

— Mas que dinheiro?

— Não se faça de desentendido. Você não sabe que, hoje de manhã, eu lhe dei um troco de mais?

— Mas eu não estive aqui de manhã nem nunca.

 

O lusitano subiu uma oitava, em sua ira:

— Se não quer pagar, não faz mal. Estou acostumado a perder. Mas o senhor bem se lembra que, hoje de manhã, eu lhe dei mil cruzeiros a mais.

 

— Ah, sim... — respondi-lhe com brandura. Tirei um conto de réis dos meus e lhe entreguei. Pedi desculpas. Tratei de sumir. Foi melhor. Estava com preguiça de discutir e um certo medo de brigar. Palavra de honra.

 

MARIA, A. Domingo cordial. In: TAUIL, G. (Orgs.) Vento vadio: as crônicas de Antônio Maria. Todavia, 2021, pp.290-291. Disponível em <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17704/domingo-cordial>.

Leia o texto a seguir para responder à questão abaixo.

 

A conjunção que introduz o excerto “Se pudesse aqui reproduzir o palavrão que a velhinha me disse, vocês cairiam para trás” exprime um sentido de:

  1. Acondicionalidade.
  2. Bconformidade.
  3. Cconcessividade.
  4. Dcausalidade.
  5. Efinalidade.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — condicionalidade.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Valor Semântico da Conjunção "Se" — Condicionalidade

Gabarito: letra A. A conjunção "se" em "Se pudesse aqui reproduzir o palavrão que a velhinha me disse, vocês cairiam para trás" introduz uma oração subordinada adverbial condicional, pois expressa a condição para que a consequência ("vocês cairiam para trás") se realize. A pista decisiva é a estrutura "Se... + futuro do pretérito" ("pudesse" + "cairiam"), que é a fórmula clássica da condicionalidade em português.

"Se pudesse aqui reproduzir o palavrão que a velhinha me disse, vocês cairiam para trás."

A conjunção "se" é a conjunção subordinativa condicional por excelência — a mesma que aparece em "Se você estudar, passará no concurso". Ela estabelece uma relação de dependência: a ação da oração principal ("cairiam para trás") só ocorre se a condição da subordinada ("pudesse reproduzir") for satisfeita. Não há aqui causa, concessão, conformidade ou finalidade — apenas uma hipótese que condiciona o resultado.

O Comando: identificar o valor semântico da conjunção

A questão pede que você reconheça o sentido expresso pela conjunção que inicia o excerto. Isso é uma tarefa de gramática aplicada ao texto: não basta saber a lista de conjunções; é preciso ler a relação lógica que a conjunção estabelece entre as orações. O verbo do enunciado — "exprime um sentido de" — indica que você deve classificar a oração subordinada adverbial conforme o valor semântico da conjunção que a introduz.

O Texto: a hipótese do cronista

No trecho, o cronista imagina uma situação hipotética: se ele pudesse reproduzir o palavrão que a velhinha disse, os leitores "cairiam para trás" (ficariam chocados). A oração "Se pudesse aqui reproduzir..." é uma condição — algo que não aconteceu (ele não reproduz o palavrão), mas que, se acontecesse, provocaria a consequência descrita. Essa é a essência da condicionalidade: uma hipótese que governa a realização do fato principal.

A Técnica: como reconhecer a condicional

A conjunção "se" é a mais típica das condicionais, mas é preciso cuidado: "se" também pode ser conjunção integrante (ex.: "Não sei se ele virá") — nesse caso, não tem valor semântico, apenas introduz uma oração substantiva. Para diferenciar, use o teste da substituição: nas condicionais, "se" pode ser trocado por "caso" ou "desde que" sem alterar o sentido. Veja:

  • "Se pudesse reproduzir..." → "Caso pudesse reproduzir..." (mantém o sentido) → condicional.

  • "Não sei se ele virá" → "Não sei caso ele virá" (não faz sentido) → integrante.

Outra pista é a correlação verbal: a condicional típica usa futuro do pretérito na oração principal ("cairiam") e pretérito imperfeito do subjuntivo na subordinada ("pudesse"). Essa combinação é a marca da hipótese irreal ou contrafactual.

Conjunção "se"
  • 1Condicional
    • Substituível por "caso"
    • Correlação: subjuntivo + futuro do pretérito
  • 2Integrante
    • Não substituível por "caso"
    • Introduz oração substantiva
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A conjunção "se" expressa condicionalidade: a oração "Se pudesse aqui reproduzir o palavrão" é a condição para que "vocês cairiam para trás" ocorra. A estrutura "Se + subjuntivo + futuro do pretérito" é a fórmula canônica da condicional. O texto autoriza essa leitura: o cronista não reproduz o palavrão, mas afirma que, se o fizesse, os leitores ficariam chocados. A relação é de dependência hipotética, não de causa, concessão, conformidade ou finalidade.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Conformidade seria expressa por conjunções como "conforme", "segundo", "como" (ex.: "Fiz tudo conforme o combinado"). O "se" não indica acordo ou modo de realização; indica uma condição. A alternativa troca o valor semântico da conjunção — erro de troca de conceito.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Concessividade seria expressa por "embora", "ainda que", "mesmo que" (ex.: "Sairei, embora chova"). A concessão expressa uma oposição ou ressalva — algo que ocorre apesar de um obstáculo. No trecho, não há oposição; há uma hipótese que condiciona o resultado. A alternativa confunde condição com concessão, que são valores semânticos distintos.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Causalidade seria expressa por "porque", "visto que", "já que" (ex.: "Não saí porque chovia"). A causa é um motivo real que explica o fato; a condição é uma hipótese que possibilita o fato. No trecho, "pudesse reproduzir" não é a causa de "cairiam para trás" — é a condição para que essa consequência ocorresse. A alternativa contradiz a relação lógica estabelecida pela conjunção.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Finalidade seria expressa por "para que", "a fim de que" (ex.: "Estudo para que passe"). A finalidade indica objetivo ou propósito. No trecho, não há intenção ou objetivo; há uma condição hipotética. A alternativa extrapola o sentido da conjunção, atribuindo-lhe um valor que ela não tem nesse contexto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre "se" condicional e "se" integrante, além de oferecer valores semânticos próximos (concessividade) para induzir ao erro. A chave é o teste da substituição por "caso" e a correlação verbal com o futuro do pretérito.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o valor de uma conjunção, pergunte: "que relação lógica ela estabelece?" — condição (se/caso), causa (porque), concessão (embora), finalidade (para que), conformidade (conforme). Substitua a conjunção por outra do mesmo valor e veja se o sentido se mantém.

Gabarito: letra A — a conjunção "se" expressa condicionalidade, pois introduz a condição para a realização do fato expresso na oração principal.

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