Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Regência Nominal e Verbal (Casos Gerais) — Avança SP 2025

PortuguêsRegência Nominal e Verbal (Casos Gerais)
Código
qa670561
Banca
Avança SP
Órgão
CM Caçapava
Ano
2025
Cargo
Tec Lg ( )

Domingo

 

O domingo que, há muitos anos, vinha sendo o meu dia sem graça, fez-me redescobrir o seu bom ar e convenceu-me de sua alegria, como na meninice. Vou a pé por uma rua de Ipanema, vou andando sozinho, sentindo a tarde fresca e me interessando pelas pessoas que encontro. O prazer físico de andar e estar só. O conforto de estar vestindo uma camisa muito maior que eu, só a camisa, sobre uma calça grande também e desvincada. A maravilha de não precisar falar.

 

Passa uma mulher bonita, alta, com um pelo de arame pela corrente. Mais adiante, uma outra espera alguém que a levará para uma mesa de biriba, ou que seja para uma cartada mais séria. Depois, um jovem casal de mãos dadas, rindo alto, segurando-se um no outro, para não cair da gargalhada. Um senhor com uma máquina fotográfica, à bandoleira. Aquele antigo ar dos domingos voltando da infância facilitava-me a intimidade que cada homem deve manter consigo mesmo. As crianças são íntimas de si mesmas. Depois, quando vão engrossando a voz e criando buço, começam a fazer-se cerimônia. Às vezes, entre os 30 e os 40 anos, perderam tanto os pontos de referência que a noção dos pés e das mãos é vaga e sem posse. A própria voz é um acontecimento estranho e transfigurado. Passa-se a não dizer, e sim a ouvir as próprias palavras. Pobre de quem se ouve!

 

Entro num barzinho de fregueses muito moços. São pares de namorados e a pessoa mais velha deve ter 18 anos. Esforço-me por ignorá-los, mergulhando no livro que trouxe e bebendo a cerveja que pedi. Eles, porém, me ignoram com a maior facilidade. A vitrola toca uma canção minha, em solo do piano. Seria péssimo se eles reconhecessem o autor e ficassem diferentes por minha causa. Mas não achavam nada demais a vizinhança de um homem que fez uma canção. Entanto, eu acho ainda que é uma grande coisa um homem ter feito uma canção. E ouvi-la, em público, entre os que não a fizeram! Senti-la de todos e sabê-la sua.

 

Que bom não ter agora com quem falar. Foi sempre a palavra que enganou todas as coisas. Enquanto estou calado, podem fazer de mim todas as suposições erradas e absurdas. Mas não fui eu que menti ou enganei. Há pessoas que nos obrigam a mentir. São as que nos pedem aqui e ali um julgamento que lhes seja agradável. Alguém seguro de si não nos pede jamais uma opinião sobre o seu feito. Espera, ou pouco se importa com a ideia que estamos formando a seu respeito. Os homens que não se confiam perguntam-nos constantemente: “Você não acha que agi muito bem? Você, em meu lugar, não faria exatamente a mesma coisa?”. E nunca duas pessoas reagem exatamente da mesma maneira em face do mesmo acontecimento. Porque não existem duas pessoas rigorosamente iguais. Na melhor das hipóteses, um teria a gravata de outra cor.

 

Que bom ser domingo outra vez, depois de 30 anos!

   

Entra uma moça clara, da idade das outras, e senta à mesa em frente à minha. Jovem. Linda. E eu, não.

 

MARIA, A. Domingo. In: TAUIL, G. (Org.) Vento vadio: as crônicas de Antônio Maria. Todavia, 2021, p. 167-168. Disponível em <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/13379/domingo>.

Leia o texto a seguir para responder à questão abaixo.

 

O verbo “ouvir”, em “Pobre de quem se ouve!”, é:

  1. Atransitivo direto.
  2. Btransitivo indireto.
  3. Cbitransitivo.
  4. Dpronominal.
  5. Eintransitivo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — transitivo direto.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Transitividade do Verbo "Ouvir" em "Pobre de quem se ouve!"

Gabarito: letra A. O verbo "ouvir", na passagem "Pobre de quem se ouve!", é transitivo direto, pois seu complemento é introduzido sem preposição — o pronome "se" exerce a função de objeto direto (equivale a "a si mesmo"). A banca explora a confusão entre a classificação pela transitividade (que depende do complemento) e a classificação pela forma (verbo pronominal), que são critérios distintos.

O Comando da Questão

O enunciado pergunta: "O verbo 'ouvir', em 'Pobre de quem se ouve!', é:". Trata-se de uma questão de gramática aplicada ao texto — não de interpretação de sentido, mas de análise sintática da regência verbal no contexto específico. O verbo "ouvir" é o núcleo da oração "quem se ouve", e precisamos identificar como ele se relaciona com seu complemento: com preposição (transitivo indireto), sem preposição (transitivo direto), com ambos (bitransitivo) ou sem complemento (intransitivo).

A Regência de "Ouvir" no Contexto

No trecho, a oração é "quem se ouve". O pronome "se" é um pronome oblíquo átono que funciona como objeto direto do verbo "ouvir", retomando o sujeito "quem" (a pessoa que se ouve). Veja a estrutura:

  • Sujeito: quem (oculto na oração reduzida)

  • Verbo: ouve

  • Objeto direto: se (= a si mesmo)

O verbo "ouvir" é transitivo direto porque pede um complemento sem preposição — "ouvir algo/alguém". No texto, o complemento é o pronome "se", que não é precedido de preposição. A frase equivale a "Pobre de quem ouve a si mesmo!".

"Passa-se a não dizer, e sim a ouvir as próprias palavras. Pobre de quem se ouve!"

Aqui, "ouvir" rege diretamente o pronome "se", sem qualquer preposição — o que caracteriza a transitividade direta.

A Pegadinha: Verbo Pronominal × Transitividade

A alternativa D ("pronominal") é a armadilha central. O verbo "ouvir" aparece com o pronome "se", o que pode levar o candidato a classificá-lo como verbo pronominal. No entanto, há uma distinção crucial:

  • Verbo pronominal: é aquele que sempre vem acompanhado de pronome oblíquo, que faz parte integrante do verbo (ex.: "arrepender-se", "queixar-se", "suicidar-se"). O pronome não exerce função sintática.

  • Verbo transitivo direto com pronome reflexivo: o pronome "se" é um objeto direto (equivale a "a si mesmo"), e o verbo mantém sua transitividade normal.

No texto, "se" é objeto direto — não é parte integrante do verbo. Prova disso: podemos substituir "se" por "a si mesmo" sem alterar o sentido: "Pobre de quem ouve a si mesmo!". Portanto, o verbo é transitivo direto, não pronominal.

Análise das Alternativas

Verbo "ouvir" em "quem se ouve"
  • 1Transitividade (critério: complemento)
    • Transitivo direto (sem preposição)
    • Transitivo indireto (com preposição)
    • Bitransitivo (dois complementos)
    • Intransitivo (sem complemento)
  • 2Forma (critério: pronome "se")
    • Verbo pronominal (parte integrante)
    • Pronome reflexivo = objeto direto ("a si mesmo")
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O verbo "ouvir" é transitivo direto porque seu complemento (o pronome "se") é introduzido sem preposição. No texto, "quem se ouve" = "quem ouve a si mesmo" — o "se" é objeto direto. A regência de "ouvir" é direta: ouve-se algo ou alguém.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. O verbo "ouvir" não é transitivo indireto, pois não exige preposição para introduzir seu complemento. Um verbo transitivo indireto pede preposição obrigatória (ex.: "gostar de", "obedecer a"). No texto, "ouvir" rege diretamente o pronome "se", sem preposição.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. O verbo "ouvir" não é bitransitivo (transitivo direto e indireto), pois não apresenta dois complementos (um direto e um indireto). Na oração "quem se ouve", há apenas um complemento: o objeto direto "se".

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito (pegadinha central). O verbo "ouvir" não é pronominal — o pronome "se" não faz parte integrante do verbo, mas exerce função de objeto direto (equivale a "a si mesmo"). Verbo pronominal é aquele que sempre vem acompanhado de pronome sem função sintática (ex.: "arrepender-se"). Aqui, "se" é complemento verbal.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. O verbo "ouvir" não é intransitivo, pois possui complemento — o pronome "se" (objeto direto). Verbo intransitivo é aquele que não pede complemento (ex.: "dormir", "nascer"). No texto, "ouvir" exige complemento para completar seu sentido.

Conclusão

A questão testa a distinção entre forma e função: o pronome "se" pode ser parte integrante do verbo (verbo pronominal) ou objeto direto (verbo transitivo direto). No texto, "se" é objeto direto, pois equivale a "a si mesmo". Portanto, o verbo "ouvir" é transitivo direto.

PEGA ESSA DICA!

Ao classificar a transitividade, pergunte: "o verbo pede complemento? Com preposição ou sem?" Se o pronome "se" puder ser substituído por "a si mesmo", ele é objeto direto — o verbo é transitivo direto, não pronominal.

Gabarito: letra A

Link permanente: /questoes/qa670561