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Questão de Português — Conjunção — INSTITUTO AOCP 2025

PortuguêsConjunção
Código
qa671523
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
CBM PR
Ano
2025
Cargo
Cad ( )

A Biblioteca de Alexandria não foi destruída pelo fogo, mas pelo esquecimento

 

Por Bruno Vaiano

 

"Há crimes piores do que queimar livros. Não lê-los é um deles." – Ray Bradbury.

 

Três séculos antes de Cristo, Alexandre, o Grande, conquistou o Egito e mandou erguer, do zero, uma metrópole no litoral norte do país. Alexandria, batizada em homenagem a seu patrono desumilde, seria a nova capital da região. A estética faraônica clichê, dourada e azul, prevaleceu por lá (bem como o hábito egípcio de os nobres se casarem entre irmãos, à moda Cersei em Game of Thrones). Mas esse novo Egito Antigo, assim como o próprio Alexandre, tinha uma pinta grega inegável.

 

O sucessor de Alexandre, o Grande, por aquelas bandas, nomeado Ptolomeu I, ordenou a construção de um centro de ensino e pesquisa em Alexandria para atrair a elite intelectual da época. Tipo uma versão helênica e antiquíssima do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, onde monstros sagrados das exatas como Einstein, Gödel e Neumann trabalharam juntos na década de 1950.

 

O nome dessa instituição era Mouseion. Em português, “Museu”. O significado original da palavra é “templo dedicado às musas” — as deusas do panteão grego que, na tradição helênica, inspiravam as artes, a literatura e a ciência. Essa também é a origem etimológica de “música”, diga-se. Compôs uma bela canção? Legal, mas não foi bem você. Tudo que é belo emana dessas divas – artistas são só os meros mortais que, volta e meia, têm o privilégio de receber um download de versos do Olimpo.

 

A Biblioteca de Alexandria acabou se tornando o mais famoso dos prédios desse complexo. Bibliotecas não eram novidade. Já existiam na Suméria; são quase tão antigas quanto a escrita em si. Mas essa almejava um passo além: Ptolomeu queria uma cópia de cada obra já escrita na Terra. Por isso, os tripulantes de toda embarcação que aportava em Alexandria eram forçados, por decreto, a fornecer ao Museu os pergaminhos que tivessem a bordo – que então eram copiados por escribas e armazenados na coleção. Deu certo.

 

Essa Harvard ptolomaica prosperou por séculos, e não acabou por causa de um incêndio – nem qualquer outro ato pontual de vandalismo. Júlio César danificou parte da coleção quando sitiou Alexandria e ateou fogo ao porto, em 48 a.C. Mas, nessa época, o Museu já havia perdido prestígio e os acadêmicos preferiam trabalhar em outros lugares.

 

Em 297 d.C., quando Diocleciano incendiou a cidade novamente para conter uma rebelião, é provável que o prédio original da Biblioteca já não existisse mais: as últimas evidências inequívocas da contratação de funcionários datam de 260 d.C.

 

Não era fácil sustentar um exército de bibliotecários e escribas copistas para manter a coleção atualizada, higiênica e catalogada. Bastava um fiapo de desinteresse coletivo para a coisa degringolar. O território egípcio mudou de mãos e crenças muitas vezes ao longo da História – os califados árabes vieram por último e estabeleceram sua capital intelectual em Bagdá, relegando Alexandria à periferia do avanço científico-tecnológico durante a Idade Média.

 

O fato é que você não precisa atear fogo a um livro para queimá-lo. O conhecimento não desaparece da noite para o dia só porque seu suporte material foi destruído.

 

Hoje, qualquer sebo parrudo contém mais conhecimento do que a Biblioteca de Alexandria. Mesmo assim, 73% dos estudantes brasileiros estão abaixo do nível de conhecimento sobre Matemática que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) considera mínimo para que se possa exercer a cidadania satisfatoriamente.

 

Na avaliação de Leitura, são 50%. Em Ciências, 55%. Mais da metade da população em idade escolar do País, nas palavras dos organizadores do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), tem algum prejuízo na hora de “participar plenamente da vida social, econômica e cívica em um mundo globalizado”.

 

Pode soar o alarme: nossa biblioteca está (metaforicamente) em chamas.

 

Adaptado de: https://super.abril.com.br/historia/a-biblioteca-de-alexandria-nao-foi-destruida-pelo-fogo-mas-pelo-esquecimento/. Acesso em: 28 mai. 2025.

Assinale a alternativa cujo conectivo tenha o mesmo valor concessivo da expressão destacada a seguir:

 

“Hoje, qualquer sebo parrudo contém mais conhecimento do que a Biblioteca de Alexandria. Mesmo assim, 73% dos estudantes brasileiros estão abaixo do nível de conhecimento sobre Matemática [...]”.

  1. ATodavia.
  2. BContrariamente.
  3. CEntretanto.
  4. DNão obstante.
  5. EConsequentemente.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Não obstante.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Conectivos concessivos: identificando o valor de "mesmo assim"

Gabarito: letra D. A expressão destacada "Mesmo assim" tem valor concessivo (introduz uma ideia que se contrapõe à anterior sem impedir sua realização), e a única alternativa que preserva exatamente esse valor é "Não obstante". No trecho, o autor afirma que qualquer sebo contém mais conhecimento que a Biblioteca de Alexandria e, mesmo assim (ou seja, apesar disso), os estudantes brasileiros estão abaixo do nível mínimo de conhecimento — a concessão marca a quebra de expectativa: se há tanto conhecimento disponível, esperar-se-ia que os estudantes soubessem mais, mas não é o que ocorre.

"Hoje, qualquer sebo parrudo contém mais conhecimento do que a Biblioteca de Alexandria. Mesmo assim, 73% dos estudantes brasileiros estão abaixo do nível de conhecimento sobre Matemática [...]"

A relação estabelecida é de concessão: o fato de haver mais conhecimento disponível não impede (não obsta) que os estudantes estejam abaixo do nível mínimo. É exatamente esse o valor de "não obstante" — locução conjuntiva concessiva que significa "apesar disso", "ainda assim".

O comando da questão

O enunciado pede que se identifique o conectivo com o mesmo valor concessivo da expressão destacada. Isso significa que não basta encontrar um sinônimo aproximado: é preciso reconhecer a relação semântica que "mesmo assim" estabelece entre as duas orações. A banca testa o conhecimento das conjunções e locuções conjuntivas e seus valores semânticos (concessão, adversidade, conclusão, etc.).

A técnica de resolução

Para resolver, é preciso:

  1. Identificar o valor da expressão destacada: "mesmo assim" = "apesar disso", "ainda assim" — valor concessivo.

  2. Testar cada alternativa, perguntando: "essa conjunção/locução pode substituir 'mesmo assim' sem alterar o sentido do trecho?"

  3. Descartar as que têm outro valor (adversativo, conclusivo, etc.).

A pegadinha central está em confundir concessão com adversidade. Embora ambas expressem oposição/contraste, há diferença crucial:

Critério

Concessão

Adversidade

Relação

Quebra de expectativa: o fato B ocorre apesar de A

Oposição direta entre A e B

Conectivos

Embora, ainda que, mesmo que, não obstante, conquanto

Mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto

Verbo

Exige modo subjuntivo na oração subordinada

Não exige subjuntivo

Exemplo

"Embora chova, sairei"

"Choveu, mas saí"

No trecho, "mesmo assim" poderia ser substituído por "embora haja mais conhecimento disponível, os estudantes estão abaixo do nível mínimo" — a ideia é claramente concessiva: o conhecimento disponível não impede o baixo desempenho.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Todavia" é uma conjunção adversativa (equivale a "mas", "porém"). Ela expressa oposição direta entre duas ideias, mas não a ideia de "apesar de". No trecho, "todavia" introduziria uma simples contraposição, não a quebra de expectativa típica da concessão. Além disso, "todavia" não exige o verbo no subjuntivo, o que a afasta do valor concessivo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Contrariamente" é um advérbio, não uma conjunção ou locução conjuntiva. Ele indica oposição, mas não estabelece a relação de concessão entre orações. Não pode substituir "mesmo assim" sem alterar a estrutura e o sentido do período.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Entretanto" também é uma conjunção adversativa (como "todavia", "porém", "contudo"). Expressa oposição, mas não o valor concessivo de "apesar disso". A banca oferece essa alternativa justamente para testar se o candidato distingue adversidade de concessão — são valores próximos, mas não idênticos.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Não obstante" é uma locução conjuntiva concessiva que significa exatamente "apesar disso", "ainda assim", "mesmo assim". Ela introduz uma ideia que se contrapõe à anterior sem impedir sua realização — exatamente o valor de "mesmo assim" no trecho. A substituição preserva integralmente o sentido:

"Hoje, qualquer sebo parrudo contém mais conhecimento do que a Biblioteca de Alexandria. Não obstante, 73% dos estudantes brasileiros estão abaixo do nível de conhecimento sobre Matemática [...]"

A locução "não obstante" é formada pelo advérbio "não" + o verbo "obstar" (impedir) no gerúndio: literalmente, "não impedindo". É a única alternativa que mantém o valor concessivo.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Consequentemente" é um advérbio conclusivo (equivale a "portanto", "logo", "por conseguinte"). Ele indica que a segunda oração é uma consequência da primeira, e não uma quebra de expectativa. No trecho, não há relação de causa e consequência entre "haver mais conhecimento" e "os estudantes estarem abaixo do nível mínimo" — há, sim, um contraste inesperado.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre concessão e adversidade. "Todavia" e "entretanto" são adversativas e parecem corretas, mas não expressam a ideia de "apesar de". A concessão é marcada por conectivos como "não obstante", "embora", "ainda que", "mesmo que".

PEGA ESSA DICA!

Para distinguir concessão de adversidade, tente substituir o conectivo por "apesar de" ou "embora". Se a substituição funcionar sem alterar o sentido, o valor é concessivo. Se funcionar com "mas", é adversativo.

Gabarito: letra D — "Não obstante" é a única alternativa com valor concessivo, equivalente a "mesmo assim".

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