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Questão de Português — Figuras de Linguagem — FUNDATEC 2025

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
qa671685
Banca
FUNDATEC
Órgão
IF Sertão PE
Ano
2025
Cargo
Ass ( )

Descobertas em uma flanada pela maior festa literária do Brasil

 

Por Gilberto Porcidonio

 

Paraty é uma cachaça. Tudo é literatura, arte, happening, mesa, música, resenha. Mas para curtir pelo menos 1% dos mais de 1.256.791 eventos que ocorrem simultaneamente durante a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) é preciso andar. E muito. Por isso, me distanciei um pouco dos ratos de biblioteca comovidos com os livros ostentação de uma certa ex-BBB, dobrei a meta do pace e, em prol deste inestimado diário, perambulei errante pela cidade histórica. Afinal, é errante que se aprende.

 

Quarta-feira, 30 de julho

 

13h – Cheguei de véspera e presenciei a cidade histórica ainda se aprumando para o evento.

 

Tapumes, caixas, marteladas e ferragens para todo lado.

 

17h – A maré encheu e, ilhado na parte mais alta da calçada, precisei molhar o pé numa corrente d’água que beirava os 12 °C. O jeito para ficar menos irritado com a meia molhada fazendo glosh glosh glosh dentro do tênis foi emular a banda Eddie (tomar banho de cana quando a maré encher…). Bem, não foi pra tanto. Rolou apenas um negroni.

 

18h30 – Mal cheguei nas festas e já me confundiram com algum artista negro. Isso é irritante.

 

Tem gente que não pode ver um negro aleatório que já confunde com algum negro famoso aleatório. Mas há tempos eu parei de me estressar com isso. Decidi que serei todos os artistas negros que acharem que eu sou. Por enquanto, sou o Jonathan Azevedo.

 

19h – Torci para que a água das minhas meias não estivesse contaminada. Ouço ao longe o Arnaldo Antunes se apresentando na praça principal. Ele não cantou “O pulso” (Peste bubônica, câncer, pneumonia/ Raiva, rubéola, tuberculose, anemia…). Achei bom agouro.

 

Quinta-feira, 31 de julho

 

9h30 – Chego ao Centro Histórico e logo de cara vejo poetas por todos os lados. Todos os lados. É curioso como não existe discussão sobre qual é o limite da poesia. A poesia é incancelável.

 

A poesia resiste a todas as intempéries, oscilações econômicas, taxações e ameaças de uma Terceira Guerra Mundial. Não há Lei Magnitsky que acabe com a poesia. A única coisa capaz de acabar com a poesia, de dilacerar a poesia mesmo, é ela própria.

 

13h – Me perguntaram se eu era o Tony Garrido. Eu era.

 

14h – Gosto muito dos aspirantes a escritor. Eles são muito mais preocupados com a própria imagem do que os escritores estabelecidos. Pode notar. É a gênese de uma persona que se quer ser. E isso resvala até no andar. Na Flip, o aspirante a escritor anda como se as pedras fossem as teclas de uma máquina de escrever.

 

18h – Depois de alguns dias de água tomando as calçadas, esse deu uma trégua. Tenho plena certeza de que, além de tudo o que já foi dito e escrito, Gonçalves também tem o poder de controlar as marés.

 

21h – Passei por um grupo de maracatu de maioria branca. Gostei da inclusão social.

 

23h30 – Depois de uma noite de festas homéricas (de Homer Simpson mesmo, no quesito bebida) e que terminou com um mega after na Praia do Pontal, posso afirmar com convicção, ao contrário do que nós, pobres millennials, temos propagado por aí: os jovens, senhoras e senhores, continuam jovens.

 

0h30 – Retornei à pousada e vi no contador de passos do celular que eu dei mais de 15 mil passos. Isso é o dobro da meta diária que hoje é considerada saudável. Comemorei com um refrigerante.

 

(Disponível em: www.piaui.folha.uol.com.br/valter-hugo-mae-inventou-o-paratynder/ – texto adaptado especialmente para esta prova).

Leia o texto abaixo:

   

Com base nas linhas grifadas, considerando os recursos linguísticos e o contexto, assinale a alternativa que aponta o efeito de sentido predominante da comparação entre pedras e teclas de uma máquina de escrever.

  1. AIntensifica a função conativa, pois estimula o aspirante a escritor a adotar determinada postura durante a Flip.
  2. BExemplifica a função metalinguística ao explicitar os elementos que compõem o gênero “narrativa de evento literário”.
  3. CCria uma imagem metafórica para ironizar a postura dos aspirantes a escritor.
  4. DRecorre ao exagero para atribuir características humanas às pedras do calçamento.
  5. ECria uma imagem concreta e real por meio da descrição de uma situação presenciada.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Cria uma imagem metafórica para ironizar a postura dos aspirantes a escritor.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Comparação entre pedras e teclas de máquina de escrever — Gabarito: letra C.

A alternativa C é a correta porque a comparação entre as pedras do calçamento e as teclas de uma máquina de escrever cria uma imagem metafórica que ironiza a postura dos aspirantes a escritor. O texto afirma que "o aspirante a escritor anda como se as pedras fossem as teclas de uma máquina de escrever", e essa imagem, somada ao contexto de que eles são "muito mais preocupados com a própria imagem do que os escritores estabelecidos", revela a intenção crítica e humorística do autor. A comparação não é literal, mas sim uma construção figurada que ridiculariza a afetação dos aspirantes.

O comando da questão

O enunciado pede para identificar o efeito de sentido predominante da comparação entre pedras e teclas de uma máquina de escrever, considerando os recursos linguísticos e o contexto. Isso significa que a resposta não está na superfície do texto, mas na interpretação do que o autor quis transmitir com essa imagem. Não se trata de uma questão de compreensão literal, mas de inferência sobre a intenção estilística e o tom do trecho.

O texto e o movimento argumentativo

No trecho em questão, o autor descreve os aspirantes a escritor:

"Gosto muito dos aspirantes a escritor. Eles são muito mais preocupados com a própria imagem do que os escritores estabelecidos. Pode notar. É a gênese de uma persona que se quer ser. E isso resvala até no andar. Na Flip, o aspirante a escritor anda como se as pedras fossem as teclas de uma máquina de escrever."

Aqui, o autor estabelece uma comparação explícita (com o conectivo "como se") entre o andar dos aspirantes e o ato de digitar em uma máquina de escrever. Essa comparação não é neutra: ela sugere que os aspirantes performam uma postura artificial, como se estivessem "escrevendo" com os pés, o que é uma imagem exagerada e irônica. O autor critica a preocupação excessiva com a imagem, típica de quem quer parecer escritor, em vez de simplesmente ser.

A técnica: metáfora, comparação e ironia

Para resolver, é preciso distinguir três figuras que a banca costuma confundir:

  • Comparação (símile): aproximação explícita entre dois elementos, com conectivo comparativo ("como", "tal qual", "que nem"). Ex.: "Ele é forte como um touro."

  • Metáfora: comparação implícita, sem conectivo, em que um termo é usado no lugar de outro por semelhança. Ex.: "Ele é um touro."

  • Ironia: dizer o contrário do que se quer significar, com intenção crítica ou humorística. Ex.: "Que belo exemplo você dá!" (quando alguém faz algo errado).

No trecho, há uma comparação explícita ("como se"), mas o efeito predominante é a ironia: a imagem de andar sobre teclas ridiculariza a postura afetada dos aspirantes. A comparação serve de veículo para a crítica irônica. Por isso, a alternativa C é a única que capta o sentido completo: imagem metafórica (porque a comparação é figurada, não real) + ironia (pela intenção crítica).

Análise das alternativas

Comparação (símile)
  • 1Conectivo comparativo ("como", "tal qual")
  • 2Aproximação explícita
  • 3Metáfora
    • Sem conectivo
    • Substituição por semelhança
  • 4Ironia
    • Dizer o contrário do que se quer
    • Intenção crítica ou humorística
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa A afirma que a comparação "intensifica a função conativa, pois estimula o aspirante a escritor a adotar determinada postura durante a Flip". Isso está fora do escopo do texto. A função conativa (apelativa) é aquela que busca influenciar o interlocutor, como em ordens, conselhos ou pedidos. No trecho, o autor não está estimulando ninguém a adotar postura alguma; ele está descrevendo e criticando uma postura que já observa. Não há marcas de apelo (imperativo, vocativo) no trecho. A alternativa extrapola ao atribuir uma intenção persuasiva que o texto não contém.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B diz que a comparação "exemplifica a função metalinguística ao explicitar os elementos que compõem o gênero 'narrativa de evento literário'". A função metalinguística é aquela que usa a linguagem para falar da própria linguagem (definições, explicações de termos). No trecho, não há explicação sobre o gênero narrativo nem sobre elementos da narrativa. O autor está narrando suas observações, mas não está explicando o que é uma narrativa. A alternativa tangencia o tema, pois fala de função metalinguística, que não aparece no trecho.

Alternativa C — ✅ Correta

A alternativa C afirma que a comparação "cria uma imagem metafórica para ironizar a postura dos aspirantes a escritor". Isso é exatamente o que ocorre. O autor compara o andar dos aspirantes a andar sobre teclas de máquina de escrever, criando uma imagem figurada (não literal) que ridiculariza a afetação deles. A ironia está em sugerir que eles "escrevem" com os pés, como se a postura física fosse uma encenação. O contexto de "preocupados com a própria imagem" reforça a crítica. Portanto, a alternativa C é a única que capta o efeito de sentido predominante: ironia por meio de imagem metafórica.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D diz que a comparação "recorre ao exagero para atribuir características humanas às pedras do calçamento". Isso é um erro de interpretação. Atribuir características humanas a seres inanimados é prosopopeia (personificação), mas aqui as pedras não recebem características humanas; elas são comparadas a teclas, que são objetos. O exagero (hipérbole) também não é o efeito principal. A alternativa troca o conceito: confunde a direção da comparação (pedras são comparadas a teclas, não humanizadas) e o efeito (ironia, não exagero).

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E afirma que a comparação "cria uma imagem concreta e real por meio da descrição de uma situação presenciada". Isso contradiz o texto, pois a imagem é figurada, não real. As pedras não são teclas; a comparação é imaginária. O autor não está descrevendo uma cena literal, mas criando uma metáfora para expressar uma crítica. A alternativa limita o sentido ao interpretar a comparação como descrição objetiva, ignorando o tom irônico.

Conclusão

A questão exige interpretação do efeito de sentido, não compreensão literal. A comparação entre pedras e teclas é uma imagem metafórica usada para ironizar a postura dos aspirantes a escritor, como prova o contexto de "preocupados com a própria imagem". As demais alternativas ou extrapolam (A), tangenciam (B), trocam o conceito (D) ou contradizem o texto (E).

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar figuras de linguagem, pergunte: "O que o autor quer dizer com isso?" Se a imagem é exagerada ou crítica, provavelmente há ironia. E lembre: comparação com "como" é símile, mas o efeito pode ser metafórico ou irônico.

Gabarito: letra C

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