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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FUNDATEC 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa671752
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref Viamão
Ano
2025
Cargo
Prof ( )

Gargalos da educação: o impacto das desigualdades

 

Por Patrícia Giuffrida

 

Muitas crianças enfrentam obstáculos silenciosos e profundos desde o início de sua trajetória escolar, quando começam a aprender a ler e escrever. As dificuldades socioeconômicas, combinadas ao acesso limitado à cultura escrita e à ausência de estímulos no ambiente familiar, comprometem o desenvolvimento da linguagem e da consciência fonológica — competências fundamentais para a alfabetização. A sala de aula, sozinha, não dá conta de reparar esse abismo.

 

As dificuldades socioeconômicas figuram como um dos principais obstáculos a uma alfabetização eficaz . Mais do que a simples falta de dinheiro, elas se expressam em múltiplas dimensões – desde o acesso limitado à cultura escrita até a sobrecarga das famílias e da própria rede pública de ensino. “Quanto menor o poder aquisitivo da família, maior a tendência de a criança frequentar escolas com menos recursos, estar em turmas lotadas, ter falta de professores e pouco apoio individualizado”, considera Mirlene Barcelos Teles, professora do 3º ano do Ensino Fundamental em Lagoa Santa (MG).

 

Esse cenário se agrava quando consideramos as condições em que muitas crianças ingressam na vida escolar. “Os alunos chegam à escola sem acesso a materiais básicos, não têm um ambiente adequado em suas casas para estudar, possuem poucas interações em seu ambiente familiar, e às vezes, sentem até fome”, complementa Janete Rodrigues Cardone, alfabetizadora, mestre em Educação com foco em Literatura Antirracista e especialista em Alfabetização e em Psicopedagogia e Neuroaprendizagem.

 

A professora Julia Farias, pós-graduada em Alfabetização, em Psicopedagogia e em Ensino de Libras, reforça como esses fatores se acumulam ao longo do tempo. Ela explica que a desigualdade atua de forma “espiralada e duradoura”, afetando tanto os estudantes quanto os professores. “Quantos relatos já escutei de crianças que ‘seguem carreira solo’ em casa, pois não têm incentivo algum à leitura e à escrita, e não têm ajuda de familiares com as lições de casa”, relata. Julia também chama atenção para o abismo entre redes públicas e privadas e para a sobrecarga de educadores que acumulam turnos, comprometendo seu tempo de planejamento e formação continuada.

 

Um dos aspectos mais críticos dessa desigualdade é justamente o acesso à cultura escrita, que começa muito antes de a criança iniciar sua vida escolar. “Em contextos mais vulneráveis, as crianças têm menos contato com livros e menos oportunidades de ouvir histórias, conversar com adultos que leem ou escrevem e ver seus familiares lendo”, aponta Maria José Nóbrega, mestre em Filologia e Língua Portuguesa. Com isso, o ponto de partida do processo de alfabetização se torna extremamente desigual e muito desafiador para as escolas. “Isso não significa que [esses alunos] sejam menos capazes, mas sim que têm menos oportunidades de desenvolver as competências necessárias antes mesmo de entrarem na escola”, salienta.

 

Apesar do cenário complexo, educadores apontam caminhos possíveis a partir da atuação da escola e das equipes pedagógicas. Essas estratégias envolvem desde ações cotidianas em sala até a articulação com políticas públicas e o fortalecimento dos vínculos com a comunidade.

 

(Disponível em: novaescola.org.br/conteudo/22319/gargalos-da-alfabetizacao-desigualdades

-e-formacao-docente – texto adaptado especialmente para esta prova).

Leia a charge a seguir e analise as seguintes asserções a respeito dela e de sua relação com o texto-base da prova:

 

Imagem associada para resolução da questão

 

Fonte: Blog do AFTM. #Charge: Livro Infantil. 04 nov. 2023.

 

I. Tanto a charge quanto o texto abordam a questão do impacto da vulnerabilidade socioeconômica na leitura e na formação do leitor.

 

POIS

 

II. O menino claramente não teve contato com a cultura letrada anteriormente devido à sua condição financeira, sendo apresentado a ela pela menina.

 

A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta.

  1. AAs asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é uma explicação correta da I.
  2. BAs asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não é uma explicação correta da I.
  3. CA asserção I é uma proposição verdadeira, e a II, falsa.
  4. DA asserção I é uma proposição falsa, e a II, verdadeira.
  5. EAs asserções I e II são proposições falsas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — As asserções I e II são proposições falsas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Charge e texto-base: a relação entre vulnerabilidade e cultura letrada

Gabarito: letra E. As asserções I e II são falsas — e a chave está na palavra "claramente" da asserção II. A charge mostra um menino sendo apresentado a um livro por uma menina, mas não há nenhum elemento visual que prove que a condição financeira dele foi a causa de ele não ter tido contato com a cultura letrada. O texto-base, por sua vez, afirma que a desigualdade socioeconômica compromete o acesso à cultura escrita, mas não diz que toda criança em situação de vulnerabilidade nunca teve contato com livros — e a charge não autoriza essa leitura categórica.

O comando: julgamento de asserções com relação de causa

Esta questão pede duas coisas: (1) avaliar se cada asserção é verdadeira ou falsa frente ao texto-base e à charge; (2) se ambas forem verdadeiras, verificar se a II explica a I. O verbo "analisar" aqui exige compreensão (o que está explícito) e inferência (o que se pode deduzir com pistas). A armadilha central é a extrapolação: a banca oferece uma afirmação que parece razoável no mundo real, mas que não está ancorada nos elementos concretos da charge nem no alcance exato do texto.

O texto-base: o que ele realmente afirma

O texto diz que "as dificuldades socioeconômicas, combinadas ao acesso limitado à cultura escrita e à ausência de estímulos no ambiente familiar, comprometem o desenvolvimento da linguagem". Ou seja, a vulnerabilidade é um fator que dificulta, não uma sentença de que ninguém em situação vulnerável teve contato com livros. O texto também afirma que "em contextos mais vulneráveis, as crianças têm menos contato com livros" — repare: menos contato, não nenhum contato. A asserção II, ao dizer que o menino "claramente não teve contato", generaliza e radicaliza o que o texto apresenta como tendência.

A charge: o que ela mostra e o que ela não mostra

A charge (Blog do AFTM, "Livro Infantil") retrata uma menina apresentando um livro a um menino. O que se vê é um gesto de compartilhamento — a menina oferece o livro, o menino o recebe. Não há balão de fala, legenda ou elemento visual que indique a condição financeira do menino, nem que ele nunca tenha tido contato com livros antes. A cena pode sugerir que ele está conhecendo aquele livro naquele momento, mas não autoriza afirmar que ele nunca teve contato com a cultura letrada — muito menos que isso se deva à sua condição financeira. A asserção II extrapola ao transformar uma cena pontual em uma conclusão categórica sobre a história de vida do personagem.

A técnica: inferência legítima × extrapolação

A inferência legítima se apoia em pistas do próprio texto (ou, aqui, da charge). Por exemplo, se a charge mostrasse o menino com roupas rasgadas e a menina com uniforme escolar, poderíamos inferir uma diferença socioeconômica — mas ainda assim não poderíamos afirmar que ele "nunca teve contato com livros". A extrapolação ocorre quando preenchemos lacunas com suposições que não estão nos elementos concretos. A banca adora esse tipo de pegadinha: oferece uma afirmação que soa verdadeira no mundo real (crianças pobres têm menos acesso a livros), mas que não está comprovada na charge nem no texto. O candidato que "acha" que a charge quer dizer isso acaba marcando a alternativa errada.

Asserções sobre a charge
  • 1I. Charge e texto abordam vulnerabilidade
    • Falsa: charge só mostra compartilhamento
  • 2II. Menino nunca teve contato com livros
    • Falsa: extrapolação ("claramente")
  • 3Técnica
    • Inferência legítima (pistas concretas)
    • Extrapolação (suposição sem base)
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa A afirma que as duas asserções são verdadeiras e que a II explica a I. Como a II é falsa (extrapolação), a alternativa cai por terra. Além disso, mesmo que a II fosse verdadeira, ela não explicaria a I: a I fala do impacto da vulnerabilidade na leitura, e a II fala de um caso específico de falta de contato — não há relação de causa e efeito estabelecida entre as duas.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B também parte do pressuposto de que as duas asserções são verdadeiras, mas nega a relação de explicação. Como a II é falsa, a alternativa é incorreta. O erro aqui é não perceber a extrapolação da II.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C afirma que a I é verdadeira e a II é falsa. De fato, a II é falsa, mas a I também é falsa — pelo menos no que diz respeito à charge. A charge não aborda explicitamente a vulnerabilidade socioeconômica; ela mostra apenas uma cena de compartilhamento de livro. O texto-base aborda a vulnerabilidade, mas a asserção I diz "tanto a charge quanto o texto" — e a charge não traz esse elemento. Portanto, a I é falsa.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D afirma que a I é falsa e a II é verdadeira. A I é falsa (a charge não aborda a vulnerabilidade), mas a II também é falsa (extrapolação). Portanto, a alternativa é incorreta.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa E afirma que as duas asserções são falsas. É exatamente o que ocorre: a I é falsa porque a charge não aborda a vulnerabilidade socioeconômica (apenas o texto-base o faz); a II é falsa porque a charge não mostra "claramente" que o menino não teve contato com a cultura letrada devido à condição financeira — isso é uma extrapolação.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação com uma afirmação que parece verdadeira no mundo real (crianças pobres têm menos acesso a livros), mas que não está ancorada na charge. Desconfie de palavras como "claramente" e "nunca" — elas costumam sinalizar generalização indevida.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar asserções sobre charges, pergunte-se: "o que a imagem mostra explicitamente?" e "o que eu estou supondo?". A resposta correta sempre se ancora no que está visível, não no que você imagina.

Conclusão: a questão ensina a diferença entre inferência legítima (apoiada em pistas) e extrapolação (suposição sem base). A charge mostra uma cena de compartilhamento, mas não autoriza conclusões sobre a história de vida do menino. Por isso, as duas asserções são falsas, e o gabarito é a letra E.

Gabarito: letra E

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