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Questão de Português — Regência Nominal e Verbal (Casos Gerais) — Nosso Rumo 2025

PortuguêsRegência Nominal e Verbal (Casos Gerais)
Código
qa672099
Banca
Nosso Rumo
Órgão
SEE AC
Ano
2025
Cargo
Prof P2 ( )

A menininha e o gerente

 

— Não, paizinho, não! Quero ir com você!

 

— Mas meu bem, não posso levar você lá. O lugar não é próprio. Não vou demorar nada, só dez minutos. Seja boazinha, fique me esperando aqui.

 

— Não, não! — a garotinha soluçava. Agarrou-se à calça do pai como quem se agarra a uma prancha no mar. Ele insistia:

 

— Que bobagem, uma menina de sua idade fazendo um papelão desses.

 

— Você não volta!

 

— Volto, ora essa, juro que volto, meu amor.

 

Prometendo, ele passeava o olhar pela rua, impaciente. Ela baixara a cabeça, chorando. Estavam diante da papelaria. O gerente assistia à cena. O homem aproximou-se dele:

 

— Faz-me o obséquio de tomar conta de minha filha por alguns instantes? Vou a um lugar desagradável, não posso levá-la comigo.

 

— Mas…

 

— Quinze minutos no máximo. É ali adiante. Muito obrigado, hem?

 

E sumiu. A garotinha continuava de olhos baixos, imóvel, o dorso da mão esquerda junto à boca. O gerente passou-lhe a mão nos cabelos, de leve.

 

— Vem cá.

 

Ela não se mexeu.

 

— Como é que você se chama? Carmen? Luísa? Marlene?

 

Como não respondesse, o gerente foi desfiando nomes, sem esperança de acertar. Mas ao dizer “Estela”, a cabecinha moveu-se, confirmando.

 

— Estela, você sabe que está com um vestido muito bonito?

 

Estela tirou a mão dos olhos, examinou o próprio vestido e não disse nada. Mas o gelo fora rompido. Daí a pouco o gerente mostrava-lhe a caixa registradora e autorizava-a a marcar uma venda de duzentos cruzeiros.

 

— Olha um gatinho. Ele mora aqui?

 

— Mora.

 

— E que é que ele come?

 

— Papel.

 

— Mentiroso!

 

— Então pergunte a ele.

 

O gato acordou, deixou-se afagar e tornou a dormir, desta vez nos braços de Estela.

 

O gerente olhou o relógio; tinham se passado quinze minutos, o homem não aparecia. “Bonito se ele não vier mais. Que vou fazer com esta garotinha, na hora de fechar?”

 

Tentou lembrar o rosto do desconhecido; impossível. Já pensava em telefonar para a polícia, quando Estela o puxou pela perna:

 

— Além da máquina e do gatinho, você não tem mais nada para me mostrar?

 

Ele abarcou com a vista a loja toda e sentiu-a mal sortida, pobre. “Eu devia ter aberto uma loja de brinquedos, pelo menos um bazar.” Experimentou com Estela o apontador de lápis, o grampeador. E o homem não vinha. É, não vem mais. Estela andava de um lado para outro, dona do negócio. Ele, inquieto.

 

— Não mexa nas gavetas, filhinha.

 

— Não sou sua filhinha.

 

— Desculpe.

 

— Desculpo se você deixar eu abrir.

 

— Então deixo. Dentro havia balões, estrelinhas, saldo do último Natal. E ele que não se lembrava daquilo. Estela riu de sua ignorância, e o homem não vinha. O movimento de fregueses declinava. Na calçada, as filas de lotação iam crescendo. Daí a pouco, a noite.

 

Estela soprou um balão, outro, quis soprar dois ao mesmo tempo. Um estourou. Ela assustou-se. Ele riu.

 

“Se o homem não aparecesse mais, que bom! Aliás a cara dele era de calhorda. Ainda bem que me escolheu.” Levaria Estela para casa, a mulher não ia estranhar, fariam dela uma filha — a filha que praticamente não tinham mais, pois casara e morava longe, no Peru. E se o pai reclamasse depois? Ora, quem entrega sua filha a um estranho, diz que vai demorar quinze minutos, passa uma hora e não volta, merece ter filha?

 

O empregado arriava a cortina de aço quando apareceram duas pernas, um tronco inclinado, uma cabeça.

 

— Dá licença? Demorei mais do que pensava, desculpe. Muito obrigado ao senhor. Vamos, filhinha.

 

O gerente virou o rosto, para não ver, mas chegou até ele a despedida de Estela:

 

— Até logo, homem do balão!

 

E a filha ficou mais longe ainda, no Peru.

 

Andrade, Carlos Drummond de, 1902-1987. 70 historinhas.1ª ed. — São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

Texto base para questão abaixo.

   

Conforme a norma-padrão da Língua Portuguesa, assinale a alternativa INCORRETA em relação à regência do adjetivo “ansioso”.

  1. A“Ansioso com emoções desusadas.” (Camilo Castelo Branco)
  2. B“Estava ansioso de se libertar da presença de Amaro.” (Ferreira de Castro)
  3. C“Estava ansioso por vê-la.” (Camilo Castelo Branco)
  4. D“Estou particularmente ansioso para ler qualquer história…” (Érico Veríssimo)
  5. E“Olhos ansiosos de novas paisagens.” (Luís Jardim)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — “Ansioso com emoções desusadas.” (Camilo Castelo Branco)

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