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Questão de Português — Questões Variadas de Verbo — Avança SP 2025

PortuguêsQuestões Variadas de Verbo
Código
qa673081
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Cerquilho
Ano
2025
Cargo
AOp ( )

A visita da borboleta

 

Discorram meus colegas sobre assuntos graúdos, nacionais e internacionais, que hoje eu fico com as borboletas. Pela manhã, uma delas, de espécie comum, branca e pequena, entrou pela janela e veio tomar café comigo. Mais propriamente, visitar-me na hora do café. Não pousou na xícara nem nos biscoitos nem na margarina. Limitou-se a dar uns voleios em torno da mesa, e retirou-se, deixando a lembrança agradável de sua visita. Embora cordial, estava apressada. Todas as borboletas são apressadas por natureza. Vivem um momento breve e não podem perder tempo com um cronista fútil, se bem que parecesse dizer, com seus volteios: “Adoro a futilidade”.

 

Naturalmente, fiquei todo concho com a visita: não é qualquer cronista que recebe agrados dessa ordem. Satisfeito com a minha importância, pois até as borboletas me consideram, retomei o mau hábito de ler jornal tomando café. Então deparei com a notícia de que ia realizar-se no bairro do Grajaú uma vigília ecológica em defesa das borboletas ameaçadas de extinção. Compreendi: a visita não fora gratuita, vinha chamar-me atenção para o fato. Mesmo assim, continuei apreciando a delicadeza. O lepidóptero (permitam-me chamá-lo pelo seu nome livresco) era meu leitor, imaginem. [...]

 

O pessoal do Grajaú está certo. Vejo representado nas borboletas um interesse global da vida, que se tece de infindáveis articulações entre elementos da natureza, ligando a existência do homem a um quadro onde tudo tem sua função e, portanto, sua explicação. O fato de a borboleta encerrar beleza já seria bastante para justificá-la a nossos olhos. [...]

 

Como toda beleza, esta é contingente, e não adianta querer perenizá-la em forma estática, nos cruéis arranjos decorativos imaginados pelo homem visando a fins de lucro. Os objetos que utilizam asas de borboleta são horrendos, por mais que se pretenda convencer aos turistas do contrário. Já a atividade prefixada da borboleta em proveito do equilíbrio ecológico, esta é uma noção fácil de transmitir aos meninos, na escola de primeiro grau, em vez de tolerar que eles se transformem em pequenos e, amanhã, grandes caçadores, por prazer ou negócio. A vigília do Grajaú não tinha intenção de somente defender borboletas. Pensou também nas aves e vegetais de toda sorte, que, mesmo localizados no Parque Nacional da Tijuca, sofrem a ameaça geral contra a natureza, que é uma das características da vida de hoje. Mas a particularização em benefício das borboletas dá à gente a segurança de que a consciência ecológica vai-se acentuando e distribuindo entre nós de maneira confortadora. O tema pequeno alia-se ao grande. Por outra, não há temas pequenos, em se tratando do meio natural. Uma folha de erva rasteira resume o universo.

 

Meu Deus, fiz uma frase de efeito, e não sou sequer vereador com direito de fazê-las. A borboleta que me visitou não gostaria disso. Caso falasse nossa linguagem, diria coisas simples, graciosas, sem afetação. E aquela era tão simples, tão sem azuis, vermelhos e verdes para exibir. Certamente não lerá estas linhas e mais certamente ainda não existirá mais, à hora em que o jornal estiver circulando. Faz mal não. Ela deu o seu recado, eu dei o meu. Borboleta, rosa e jornal vivem horas curtas, mas renascem e documentam a permanência da vida. Outra frase? Bem, desculpem, e já vou eu, na próxima, borboleteando entre assuntos vários, neste ofício de juntar sílabas sobre o cotidiano, que é meu velho ofício. Amiga borboleta, obrigado pela visita. Volte, sem compromisso.

 

ANDRADE, C. D. A visita da borboleta. In: ANDRADE, C. D. O gato solteiro e outros bichos. Record, 2022, p. 189-192. Disponível em <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17366/a-visita-da-borboleta>.

Leia o texto a seguir para responder à questão.

 

O emprego do verbo “haver” em “Por outra, não há temas pequenos” é o mesmo, em termos de pessoalidade e sentido, que ocorre em:

  1. AEle há de me entender.
  2. BIsso não há de acontecer.
  3. CHá escolas em que faltam livros para as crianças.
  4. DO sol há de nascer novamente amanhã.
  5. EHá três anos estive aqui neste local.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Há escolas em que faltam livros para as crianças.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O Verbo "Haver": Impessoal (Existir) × Auxiliar × Temporal

Gabarito: letra C. Em "não há temas pequenos", o verbo haver é impessoal (sem sujeito) e tem sentido de existir. A única alternativa que repete exatamente essa mesma pessoalidade e sentido é a C — "Há escolas em que faltam livros" —, pois ali "há" também significa "existem" e não admite sujeito. As demais usam "haver" como verbo auxiliar de locução verbal (A, B, D) ou como verbo impessoal com valor temporal (E), o que muda o sentido.

O Comando: Pessoalidade e Sentido

A questão pede que você compare o emprego do verbo "haver" no texto com o das alternativas, em dois eixos: pessoalidade (o verbo tem sujeito ou é impessoal?) e sentido (significa "existir" ou outra coisa?). Não basta achar uma frase com "há" — é preciso que o verbo esteja na mesma função.

No trecho do cronista, "não há temas pequenos" equivale a "não existem temas pequenos". O verbo "haver" aqui é impessoal: não há um sujeito que pratique a ação; ele apenas declara a existência de algo. Essa é a chave da questão.

A Regra que Decide: Haver Impessoal × Haver Auxiliar

O verbo "haver" é impessoal (fica sempre na 3ª pessoa do singular) quando tem sentido de existir ou quando indica tempo decorrido. Nesses casos, não há sujeito. Veja:

  • Existência: "Há escolas em que faltam livros" = "Existem escolas..." (sem sujeito).

  • Tempo: "Há três anos estive aqui" = "Faz três anos..." (sem sujeito).

Já quando "haver" é verbo auxiliar de uma locução verbal (como em "há de entender", "há de acontecer", "há de nascer"), ele não é impessoal: concorda com o sujeito da oração. Compare:

Uso

Exemplo

Pessoalidade

Sentido

Existência

"Há escolas..."

Impessoal (sem sujeito)

Existir

Tempo

"Há três anos..."

Impessoal (sem sujeito)

Tempo decorrido

Auxiliar

"Ele há de me entender"

Pessoal (sujeito: ele)

Obrigação/futuro

Análise das Alternativas

Haver impessoal (sem sujeito)
  • 1Sentido de existir
    • "Há escolas..." (C)
    • "Não há temas pequenos"
  • 2Sentido de tempo decorrido
    • "Há três anos..." (E)
  • 3Haver auxiliar (com sujeito)
    • Locução verbal
      • "Ele há de entender" (A)
      • "Isso há de acontecer" (B)
      • "O sol há de nascer" (D)
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"Ele há de me entender" — aqui "há" é verbo auxiliar da locução verbal "há de entender", com sujeito ele. O sentido é de obrigação/futuro (equivale a "entenderá"), não de existência. Erro: troca de sentido e de pessoalidade — a banca tenta confundir quem vê apenas a forma "há".

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Isso não há de acontecer" — mesmo caso: "há" é auxiliar da locução "há de acontecer", com sujeito isso. O sentido é de probabilidade/futuro ("não acontecerá"), não de existência. Erro: troca de sentido e de pessoalidade.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Há escolas em que faltam livros para as crianças" — aqui "há" tem sentido de existir ("existem escolas") e é impessoal, sem sujeito. Exatamente o mesmo emprego do texto: "não há temas pequenos" = "não existem temas pequenos". A correspondência é perfeita nos dois eixos pedidos.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"O sol há de nascer novamente amanhã" — "há" é auxiliar da locução "há de nascer", com sujeito o sol. O sentido é de futuro ("nascerá"), não de existência. Erro: troca de sentido e de pessoalidade.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Há três anos estive aqui neste local" — aqui "há" é impessoal, mas com sentido de tempo decorrido (equivale a "faz três anos"), não de existência. Embora a pessoalidade seja a mesma (sem sujeito), o sentido é diferente — e a questão exige os dois eixos iguais. Erro: troca de sentido (a banca explora a semelhança de impessoalidade para confundir).

NÃO CAIA NESSA!

A banca mistura os três usos do verbo "haver" — existência, tempo e auxiliar. A letra E é a mais traiçoeira: impessoal como o texto, mas com sentido temporal, não existencial.

PEGA ESSA DICA!

Ao comparar empregos do verbo "haver", pergunte sempre: (1) tem sujeito? (2) que sentido tem — existir, tempo ou auxiliar? Só marque a alternativa que acertar os dois.

Gabarito: letra C — a única que mantém "haver" impessoal com sentido de existir, como no texto.

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