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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Avança SP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa673364
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Cerquilho
Ano
2025
Cargo
Cont (Cerquilho)

Os sonhos brasileiros

 

Quando eu era menina, as famílias ricas costumavam escolher um ano de maior prosperidade e programavam a sua viagem à Europa. Iam marido, mulher, filharada, ama-seca, e avô em exercício, às vezes um tio mais jovem. Os invejosos — todo mundo — zombavam: será que tinham fretado o navio? Navio aliás invisível, pois que tomado no Rio (talvez também no Recife) onde havia porto para grandes transatlânticos. O período dedicado ao banho de civilização era em geral de seis meses. E o país de destino era, quase invariavelmente, Paris ou Portugal. Falo Paris como país, porque ninguém dizia que ia para a França. Mas somente a Cidade Luz. Portugal era escolhido pelos lusitanos bem-sucedidos. [...]

 

Em Paris, os provisórios nômades se instalavam quase invariavelmente no Grand Hotel Du Louvre. (Ou diziam os língua-ruim, se instalavam mesmo era numa pensão barata na Banlieuse, onde nem tinha metrô). Para nós, brasileiros daquele tempo, metrô era o requinte, o selo da mais extrema civilização.

 

Passados os seis meses de ricos, a família regressava, unida como saíra, e portando em profusão malas de porão e camarote novíssimas. Invariavelmente traziam um serviço de jantar em porcelana e até um serviço de cristal Baccarat, comprado na rue du Paradis. [...] E, depois daquela viagem oficial, a família passava o resto da vida curtindo as glórias da temporada. As moçoilas que já tinham aprendido o ABC do francês cá na terra, no colégio de freiras, voltavam cochichando segredinhos no idioma dos eleitos. Às vezes nascia por lá uma criança que, em memória do evento, fora registrada no Consulado Brasileiro, mas com nome francês.

 

[...]

 

Passaram-se os anos, o mundo mudou. Os Estados Unidos assumiram a liderança da moderna civilização. Acabaram-se, depois da Segunda Grande Guerra, os navios que faziam a linha Rio-Havre. Entramos na era dos jatos. E hoje também mudou o eixo turístico: de repente brasileiro descobria Miami ou Miami descobriu os brasileiros. Será o conforto da língua? Os iniciantes, pelo menos, acreditam que lá só se fala espanhol. E depois tem o Walt Disney e seus palácios feéricos. E principalmente tem as excursões — dizem os entendidos que é mais barato passar 15 dias em Miami do que em Maceió. É possível, nós ainda não organizamos o nosso turismo. Sinal de jovem pai com sucesso na profissão é levar os filhos pequenos para o Disneyworld. As mulheres fazem compras com frenesi. Os homens também se enchem de maquininhas — fax, telefone celular, micros!

 

E ficamos nós, os invejosos, com o olho comprido em Miami, como outrora em Paris. Se não fosse o preço escandaloso do dólar! Mas é verdade que os pacotes turísticos são bem em conta. E tem até quem faça a módicas prestações! Ai (suspiro), a esperança é a última que morre…

QUEIROZ, R. Os sonhos brasileiros. Jornal O Dia,

Rio de Janeiro, 1992. Disponível em <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17950/os sonhos-brasileiros>.

Leia o texto a seguir para responder à questão.

 

A partir da afirmação em “Se não fosse o preço escandaloso do dólar!”, depreende-se que a narradora do texto:

  1. Ase recusa a visitar Paris ou Miami independentemente do preço do dólar.
  2. Biria a Miami se o preço do dólar fosse mais baixo.
  3. Cnão tem desejo em viajar para Paris ou Miami.
  4. Dnão tem qualquer interesse pelos destinos de Paris ou Miami.
  5. Enão iria para Paris ou Miami de excursão.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — iria a Miami se o preço do dólar fosse mais baixo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Inferência a partir de uma condição contrafactual

Gabarito: letra B. A frase “Se não fosse o preço escandaloso do dólar!” revela que a narradora iria a Miami se o dólar fosse mais barato — a estrutura condicional indica que o preço do dólar é o único obstáculo para realizar o desejo de viajar. A pista está no trecho final do texto: “E ficamos nós, os invejosos, com o olho comprido em Miami, como outrora em Paris. Se não fosse o preço escandaloso do dólar!”.

O comando pede uma inferência (“depreende-se”), ou seja, uma dedução ancorada em pistas do texto, não uma informação literal. A oração “Se não fosse o preço escandaloso do dólar” é uma condicional contrafactual: ela expressa uma condição que não se realiza no presente, mas que, se fosse diferente, permitiria a ação. Isso pressupõe que a narradora deseja viajar, mas é impedida pelo custo.

No texto, a narradora se coloca entre os “invejosos” que olham “com o olho comprido em Miami” — expressão que denota desejo e cobiça. Ela reconhece que os pacotes são baratos (“os pacotes turísticos são bem em conta”) e que há até parcelamento (“módicas prestações”), mas o dólar alto inviabiliza o plano. A conclusão lógica é: se o dólar fosse mais baixo, ela iria.

A técnica para resolver: identifique a condição e o desejo implícito. A condição é o preço do dólar; o desejo é viajar. A alternativa correta é a que une esses dois elementos sem acrescentar nada de fora do texto.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a narradora se recusa a visitar Paris ou Miami independentemente do preço do dólar. Isso contradiz o texto: a narradora demonstra desejo de viajar (“olho comprido em Miami”) e a condição “Se não fosse o preço escandaloso do dólar” indica que o preço é o obstáculo, não a falta de vontade. A palavra “se recusa” é uma extrapolação — o texto não menciona recusa, apenas impedimento financeiro.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa B é a única inteiramente sustentada pelo texto. A frase “Se não fosse o preço escandaloso do dólar!” é uma condicional contrafactual: ela expressa que, se o dólar fosse mais barato, a narradora iria a Miami. Isso é reforçado pelo trecho “E ficamos nós, os invejosos, com o olho comprido em Miami” — “olho comprido” é uma expressão que denota desejo e cobiça. A narradora quer viajar, mas o preço do dólar a impede. Portanto, a inferência correta é: iria a Miami se o preço do dólar fosse mais baixo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a narradora não tem desejo em viajar para Paris ou Miami. Isso contradiz o texto: a narradora se inclui entre os “invejosos” que olham “com o olho comprido em Miami”, o que demonstra desejo. A condicional “Se não fosse o preço escandaloso do dólar” pressupõe que ela quer viajar, mas não pode. A alternativa inverte o sentido do texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a narradora não tem qualquer interesse pelos destinos de Paris ou Miami. Isso contradiz o texto: a narradora demonstra interesse ao mencionar o “olho comprido em Miami” e ao lamentar o preço do dólar. A palavra “qualquer” é um absoluto que restringe indevidamente o alcance do texto — o texto mostra interesse, não falta dele.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a narradora não iria para Paris ou Miami de excursão. O texto menciona que “as excursões” são uma opção (“dizem os entendidos que é mais barato passar 15 dias em Miami do que em Maceió”), mas não afirma que a narradora se recusaria a ir de excursão. A alternativa extrapola — acrescenta uma informação que não está no texto.

Conclusão: A resposta correta é a letra B, pois é a única que se apoia diretamente na condicional contrafactual e no desejo implícito da narradora. As demais alternativas ou contradizem o texto, ou extrapolam informações não presentes.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de inferência, desconfie de alternativas com palavras absolutas como “qualquer”, “nenhum”, “sempre”. Elas costumam restringir indevidamente o alcance do texto. A resposta correta é a que une a condição (preço do dólar) ao desejo (viajar) sem acrescentar nada de fora.

Gabarito: letra B

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