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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Avança SP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa673368
Banca
Avança SP
Órgão
FMSRC
Ano
2025
Cargo
Fono ( )

Saudade do televizinho

 

Houve tempo em que havia o televizinho. Será que sobra algum televizinho? Será que sobra, até mesmo, quem saiba o que é televizinho? Televizinho era a pessoa que, não tendo televisão em casa, se aproveitava da do vizinho. O jovem leitor duvida? Acha que se está aqui inventando vocábulo exótico, só para fazer graça? Pois corra aos dicionários. A palavra ali está, tanto no Aurélio como no Houaiss. Os dicionários têm isso de bom: conservam as palavras em desuso como os sedimentos conservam os fósseis. Neles repousam, em sono esplêndido, palavras como bufarinheiro e alcouceira, mandrana e parvajola. Ou então, diriam os moralistas, palavras que, embora em uso, identificam práticas em desuso: honestidade, vergonha, intimidade, virgindade...

 

Quem viveu os primeiros anos da televisão sabe que o fenômeno da televizinhança não foi desprezível. Poucos tinham televisores em casa. Aos sem-TV, essa maioria de deserdados, restava correr à casa dos que a possuíam como os famintos correm aos sopões da caridade. O televizinho era um tipo social definido e reconhecido em seus direitos e sua individualidade. Os próprios apresentadores da TV se referiam a eles. Davam boa noite “aos televizinhos”. Depois, ele desapareceu. Desapareceu como, por exemplo, a figura do agregado, tão popular nos romances do século XIX. O agregado, mal comparando, era um televizinho sem televisão.

 

As famílias livraram-se do agregado. Livraram-se em seguida, acrescente-se de passagem, do excesso de filhos e ficaram mais enxutas, para usar a palavra que lhes conviria se famílias fossem empresas – se é que não são. Mas, na medida em que, nos lares, se iam cortando os excessos, em matéria de seres humanos, iam-se, inversamente, multiplicando os aparelhos de TV. Ninguém mais deixava de tê-los. Nem mesmo os moradores de barracos. Triunfo! O televizinho de antes agora tinha seu próprio aparelho. Foi alcançado por ele, em seu avanço irresistível, como a maré, ao subir, alcança a praia toda. O vocábulo que o identificava virou forma sem conteúdo. (...)

TOLEDO, Roberto Pompeu. Saudade do televizinho. Veja. 25 fev. 2002. Disponível em <https://www.observatoriodaimprensa.com.br/primeiras-edicoes/roberto-pompeu-de-toledo-4/>.

Leia o texto a seguir para responder à questão.     Em relação ao texto “Saudade do televizinho”, é correto afirmar que o autor:
  1. Anarra acontecimentos, em terceira pessoa, que justificam a expansão da televisão no Brasil nas últimas décadas.
  2. Bnarra acontecimentos, em primeira pessoa, que justificam a expansão da televisão no Brasil nas últimas décadas.
  3. Cdescreve, em terceira pessoa, as características físicas e psicológicas de um televizinho conhecido do autor.
  4. Dapresenta ideias, em terceira pessoa, sobre um fenômeno ligado ao comportamento dos indivíduos em relação à televisão.
  5. Eapresenta ideias, em primeira pessoa, sobre um fenômeno ligado ao comportamento dos indivíduos em relação à televisão.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — apresenta ideias, em terceira pessoa, sobre um fenômeno ligado ao comportamento dos indivíduos em relação à televisão.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Tipologia Textual e Pessoa do Discurso — Identificação do Predomínio

Gabarito: letra D. O autor apresenta ideias, em terceira pessoa, sobre um fenômeno ligado ao comportamento dos indivíduos em relação à televisão — e não narra acontecimentos. O texto é predominantemente dissertativo-expositivo (expõe e comenta um fenômeno social), e a terceira pessoa é a dominante, como se vê em passagens como "O televizinho era um tipo social definido e reconhecido em seus direitos e sua individualidade". As alternativas que falam em "narrar acontecimentos" ou em "primeira pessoa" falham porque o texto não conta uma história com enredo e personagens, e a 1ª pessoa aparece apenas em perguntas retóricas pontuais, sem tornar o texto narrado em 1ª pessoa.

O Comando

A questão pede que se identifique o que o autor faz no texto: se narra (conta uma história com sequência de eventos) ou se apresenta ideias (disserta, expõe, argumenta), e em qual pessoa do discurso (1ª ou 3ª). Isso é uma questão de compreensão — a resposta está na estrutura e no conteúdo do texto, não exige inferência profunda. O verbo "afirmar" no enunciado indica que devemos buscar o que está explícito ou diretamente depreensível da organização textual.

O Texto

O texto "Saudade do televizinho" é uma crônica — gênero que mistura narração e dissertação, mas aqui predomina a exposição de ideias sobre um fenômeno social: a figura do "televizinho" (quem assistia TV na casa do vizinho) e seu desaparecimento com a popularização dos aparelhos. O autor comenta, explica e reflete sobre esse comportamento, em vez de narrar uma história com começo, meio e fim. Veja o trecho central:

"O televizinho era um tipo social definido e reconhecido em seus direitos e sua individualidade."

Isso é uma afirmação sobre o fenômeno, não um evento narrado. O autor também usa perguntas retóricas ("Será que sobra algum televizinho?") e comparações ("como os famintos correm aos sopões da caridade"), típicos do texto dissertativo. A terceira pessoa é a base: "O televizinho era...", "As famílias livraram-se...", "Ninguém mais deixava de tê-los". A 1ª pessoa aparece apenas em "Será que sobra..." e "Acha que se está aqui inventando...", mas são marcas de interlocução (diálogo com o leitor), não a voz narrativa predominante.

A Técnica que Decide

Para diferenciar narração de dissertação, pergunte: há progressão temporal de eventos? Há personagens agindo em uma sequência? No texto, não há enredo — há exposição de um fenômeno e reflexão sobre ele. Para diferenciar de 3ª pessoa, observe os verbos e pronomes: a 3ª pessoa usa "ele/ela/eles" e verbos na 3ª pessoa; a 1ª usa "eu/nós" e verbos na 1ª. No texto, a 3ª pessoa domina: "O televizinho era...", "Os próprios apresentadores se referiam a eles", "As famílias livraram-se". A 1ª pessoa é esporádica e retórica, não estrutural.

Análise das Alternativas

Tipologia textual
  • 1Narração
    • Conta história
    • Sequência de eventos
    • Personagens em ação
  • 2Dissertação
    • Apresenta ideias
    • Expõe fenômeno
    • Reflete/comenta
  • 3Pessoa do discurso
    • 1ª pessoa
      • Eu/nós
      • Voz predominante
    • 3ª pessoa
      • Ele/ela/eles
      • Voz dominante
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto (tipologia). O texto não narra acontecimentos — não há sequência de eventos com personagens em ação. Ele apresenta ideias sobre o fenômeno da televizinhança. Além disso, a expressão "justificam a expansão da televisão no Brasil" extrapola: o texto não fala de "expansão da TV no Brasil" como um processo histórico a ser justificado; fala do desaparecimento do televizinho com a popularização dos aparelhos. A alternativa tangencia o tema ao introduzir um recorte ("no Brasil") que o texto não faz.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto (tipologia e pessoa). Mesmo problema da A (não narra) e ainda erra ao dizer "em primeira pessoa". O texto não é narrado em 1ª pessoa; a 1ª pessoa é apenas retórica. A alternativa restringe o alcance ao afirmar que o autor "narra acontecimentos" — o que não ocorre.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto (tipologia e conteúdo). O texto não descreve as características físicas e psicológicas de um televizinho específico. Ele conceitua o tipo social de forma genérica: "O televizinho era um tipo social definido...". Não há descrição de aparência ou personalidade de um indivíduo. A alternativa inventa um foco descritivo que não existe no texto.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Correta. O texto apresenta ideias (disserta) sobre o fenômeno do televizinho — um comportamento social ligado à TV — e o faz predominantemente em terceira pessoa. A passagem "O televizinho era um tipo social definido e reconhecido em seus direitos e sua individualidade" é uma afirmação (ideia), não uma narração. A 3ª pessoa é a voz dominante: "As famílias livraram-se do agregado", "Ninguém mais deixava de tê-los". A alternativa é uma paráfrase fiel do que o texto faz.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto (pessoa). Acerta ao dizer "apresenta ideias", mas erra ao afirmar "em primeira pessoa". Como visto, a 1ª pessoa é apenas retórica ("Será que sobra algum televizinho?"), não a voz predominante. A alternativa troca a pessoa do discurso, o que a torna falsa.

Fechamento

A regra de ouro: identifique a intenção predominante (narrar vs. expor) e a pessoa do discurso dominante (1ª vs. 3ª). Desconfie de alternativas que citam "narrar" quando o texto apenas comenta, e de "1ª pessoa" quando a 3ª é a base. Aqui, a letra D é a única que combina ideias + 3ª pessoa — exatamente o que o texto faz.

Gabarito: letra D

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