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Questão de Português — Outras Questões de Semântica — FUNDATEC 2025

PortuguêsOutras Questões de Semântica
Código
qa673813
Banca
FUNDATEC
Órgão
BRDE
Ano
2025
Cargo
Ass Adm ( )

A civilização que construímos a duras penas

 

Por J. J. Camargo

 

A doutora Margaret Mead (1901-1978), famosa antropóloga americana com trabalhos pioneiros em estudos sobre o desenvolvimento social, sugere que a primeira evidência de início da civilização humana pode ser associada ao surgimento da agricultura.

 

Essa transição remonta ao Período Neolítico, que ocorreu aproximadamente entre 10.000 a.C. e 3.000 a.C., e representa uma fase crucial na história da humanidade, marcada pela transição de sociedades nômades de caçadores-coletores para comunidades sedentárias de agricultores, levando ao surgimento de cidades, comércio e estruturas sociais mais complexas.

 

Certamente, estas transformações só foram viabilizadas porque o homo, com razão chamado sapiens, foi capaz de usar esse diferencial de inteligência para, mesmo sendo muitas vezes um animal comparativamente mais fraco, pudesse se sobrepor aos mais fortes e a eles subjugar por uma capacidade única: a de cooperação mútua, que é um atributo da socialização.

 

Todos concordam que a cooperação aliada à comunicação se destaca como a virtude essencial que possibilitou aos humanos superar limitações físicas e estabelecer-se como uma espécie dominante no planeta. Se isso não houvesse ocorrido, provavelmente ainda andaríamos zanzando por aí, pichando paredes, sem saber que era possível chorar só de emoção, e pifiamente consolados pela ausência de boletos, ainda que sem a incômoda preocupação de entender o que significam, de fato, a violação do estado de direito e a liberdade de expressão.

 

Para os humanos mais sensíveis, parece sedutora a ideia de que a verdadeira civilização começou quando alguém cuidou de alguém. E a evidência de que isso ocorreu está explícita no achado de um fêmur consolidado, num sítio arqueológico, datado de uns 15 mil anos atrás.

 

Uma fratura incapacitante, como a do fêmur, para as populações nômades era uma sentença de morte, considerando que a vítima perdia, por longas semanas, a condição de caçar e, imobilizado, não tinha como se defender dos outros animais que, como ele, andavam em busca de comida para sobreviver, essa necessidade elementar em todos os tempos e sem prazo de validade.

 

O fêmur lindamente consolidado era a evidência de que alguém colocara em risco a sua própria sobrevivência para que seu parceiro de jornada tivesse a chance única de recomeçar.

 

Quando interpelada por um estudante, a doutora Margaret Mead teria supostamente afirmado que o achado desta fratura curada destacava um aspecto importante da civilização: a interdependência e a capacidade de cuidar de outros como elementos fundamentais para a sobrevivência e o progresso humano.

 

Como há controvérsia sobre a autenticidade desse discurso, e ciente de que, com a morte da antropóloga, esta dúvida persistirá, prefiro idealizá-la por quanto ela é rica de humanismo.

 

Fascinado por esta história, me dei conta de que a gratidão, o mais nobre dos sentimentos humanos, sempre associada à empatia, já pode organizar uma festança para comemorar os seus primeiros 15 mil anos de atividade ininterrupta neste planeta, tão rico de gestos grandiosos, apesar da quantidade de homines stultus circulantes.

 

(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/jj-camargo/

noticia/2025/07 - texto adaptado especialmente para esta prova).

Texto base para questão abaixo.

   

Sobre a frase “O fêmur lindamente consolidado era a evidência de que alguém colocara em risco a sua própria sobrevivência para que seu parceiro de jornada tivesse a chance única de recomeçar”, analise as seguintes assertivas:

 

I. Os usos dos verbos no pretérito fazem referência a fatos anteriores ao momento de fala.

 

II. A forma verbal “tivesse” faz referência a fatos dependentes de certa condição.

 

III. O uso da forma nominal “recomeçar” apenas adjetiva a ação propriamente dita.

 

Quais estão corretas?

  1. AApenas I.
  2. BApenas II.
  3. CApenas I e II.
  4. DApenas II e III.
  5. EI, II e III.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Apenas I e II.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Análise das assertivas sobre a frase do fêmur — Gabarito: letra C.

Gabarito: letra C. As assertivas I e II estão corretas, e a III está incorreta. A frase analisada é: “O fêmur lindamente consolidado era a evidência de que alguém colocara em risco a sua própria sobrevivência para que seu parceiro de jornada tivesse a chance única de recomeçar”. A assertiva I está correta porque os verbos “era” (pretérito imperfeito do indicativo) e “colocara” (pretérito mais-que-perfeito do indicativo) referem-se a fatos anteriores ao momento da fala. A assertiva II está correta porque “tivesse” (pretérito imperfeito do subjuntivo) expressa um fato dependente de uma condição, introduzida pela conjunção “para que”. A assertiva III está incorreta porque “recomeçar” é um verbo no infinitivo, não um adjetivo, e exerce função de núcleo de uma oração subordinada substantiva, não de adjunto adnominal.

O comando pede que se analisem três assertivas sobre a frase em destaque, verificando quais estão corretas. Trata-se de uma questão de gramática aplicada ao texto, especificamente sobre morfologia verbal (tempo, modo e formas nominais). O foco não é interpretar o sentido global do texto, mas reconhecer as características morfossintáticas dos verbos empregados na frase. Para resolver, é preciso identificar cada forma verbal, classificar seu tempo e modo, e entender a função sintática de cada uma no período.

A frase apresenta três verbos: “era” (pretérito imperfeito do indicativo), “colocara” (pretérito mais-que-perfeito do indicativo) e “tivesse” (pretérito imperfeito do subjuntivo), além da forma nominal “recomeçar” (infinitivo). O pretérito imperfeito do indicativo (“era”) indica um fato passado, habitual ou contínuo, anterior ao momento da fala. O pretérito mais-que-perfeito (“colocara”) indica um fato passado anterior a outro fato passado, também anterior ao momento da fala. O pretérito imperfeito do subjuntivo (“tivesse”) expressa um fato hipotético, dependente de uma condição, e é regido pela locução conjuntiva “para que”, que introduz uma oração subordinada adverbial final. A forma nominal “recomeçar” é um infinitivo, que funciona como verbo, não como adjetivo; na frase, ele é o núcleo de uma oração subordinada substantiva subjetiva (ou reduzida de infinitivo), não um adjunto adnominal.

A armadilha central da questão está na assertiva III, que tenta confundir a forma nominal do verbo (infinitivo) com um adjetivo. O infinitivo “recomeçar” não adjetiva a ação; ele nomeia a ação de recomeçar, funcionando como um substantivo verbal. A banca explora a confusão entre as formas nominais do verbo (infinitivo, gerúndio e particípio) e as classes de palavras (adjetivo, advérbio). O particípio, sim, pode exercer função adjetiva (ex.: “fêmur consolidado”), mas o infinitivo não.

O gancho para resolver esta questão é testar cada assertiva perguntando: a forma verbal realmente exerce a função que a assertiva afirma? Para a I, verifique se os verbos estão no pretérito; para a II, verifique se o modo subjuntivo expressa condição; para a III, verifique se “recomeçar” é um adjetivo ou um verbo no infinitivo. Apenas as duas primeiras passam no teste.

1Pretérito (I)
era (imperfeito)
colocara (mais-que-perfeito)
Fatos anteriores à fala
2Subjuntivo (II)
tivesse (imperfeito)
Fato dependente de condição
3Infinitivo (III)
recomeçar
Não adjetiva a ação
Nomeia a ação (substantivo verbal)
Formas verbais na frase
LEVELsoulevel.com.br
Formas verbais na frase: Pretérito (I) (era (imperfeito), colocara (mais-que-perfeito), Fatos anteriores à fala); Subjuntivo (II) (tivesse (imperfeito), Fato dependente de condição); Infinitivo (III) (recomeçar, Não adjetiva a ação, Nomeia a ação (substantivo verbal))

Assertiva I — ✅ Correta

A assertiva I afirma que “os usos dos verbos no pretérito fazem referência a fatos anteriores ao momento de fala”. Isso está correto. Na frase, temos:

“O fêmur lindamente consolidado era a evidência de que alguém colocara em risco a sua própria sobrevivência...”

O verbo “era” está no pretérito imperfeito do indicativo, que indica um fato passado, anterior ao momento da fala. O verbo “colocara” está no pretérito mais-que-perfeito do indicativo, que indica um fato passado anterior a outro fato passado, também anterior ao momento da fala. Ambos, portanto, referem-se a eventos ocorridos antes do momento em que o enunciador fala. A assertiva está correta.

Assertiva II — ✅ Correta

A assertiva II afirma que “a forma verbal ‘tivesse’ faz referência a fatos dependentes de certa condição”. Isso está correto. Na frase:

“...para que seu parceiro de jornada tivesse a chance única de recomeçar”

O verbo “tivesse” está no pretérito imperfeito do subjuntivo, modo verbal que expressa um fato hipotético, possível, mas dependente de uma condição. A locução conjuntiva “para que” introduz uma oração subordinada adverbial final, e o subjuntivo é o modo típico para expressar essa dependência. O fato de “ter a chance” é uma possibilidade, não uma certeza, e está condicionado à ação de “alguém colocar em risco a própria sobrevivência”. A assertiva está correta.

Assertiva III — ❌ Incorreta

A assertiva III afirma que “o uso da forma nominal ‘recomeçar’ apenas adjetiva a ação propriamente dita”. Isso está incorreto. Na frase:

“...para que seu parceiro de jornada tivesse a chance única de recomeçar

“Recomeçar” é um verbo no infinitivo, uma forma nominal do verbo, e não um adjetivo. O infinitivo nomeia a ação de recomeçar, funcionando como um substantivo verbal. Na oração, ele é o núcleo de uma oração subordinada substantiva reduzida de infinitivo (complemento do substantivo “chance”). Ele não adjetiva a ação; ele é a ação. O erro da assertiva é trocar a classe gramatical do termo: confunde o infinitivo com um adjetivo. O particípio, sim, pode exercer função adjetiva (ex.: “fêmur consolidado”), mas o infinitivo não.

Conclusão: As assertivas I e II estão corretas, e a III está incorreta. Portanto, a alternativa correta é a letra C (Apenas I e II).

PEGA ESSA DICA!

Para questões sobre formas nominais do verbo, lembre-se: o infinitivo (recomeçar, amar, partir) nomeia a ação; o gerúndio (recomeçando, amando, partindo) indica ação em andamento; o particípio (recomeçado, amado, partido) pode exercer função adjetiva. Se a assertiva disser que um infinitivo “adjetiva” algo, desconfie imediatamente.

Gabarito: letra C

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