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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FUNDATEC 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa673863
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref Montenegro
Ano
2025
Cargo
Prof ( )

A genética está na raiz do amor

 

Por Maurício Horta

 

Para entender o amor, temos de compreender o altruísmo – nada mais altruísta, afinal, do que amar alguém. E para entender o altruísmo temos de olhar para os campeões mundiais nessa categoria. Monges budistas? Não: insetos. Mais especificamente insetos sociais, os maiores exemplos de dedicação à coletividade em detrimento do interesse individual.

 

O caso mais extremo é o da abelha operária. Ela não apenas passa a vida produzindo mel e cera, construindo favos e coletando néctar, pólen e água para alimentar a rainha e suas larvas; para defender a colmeia de predadores, ela também se suicida. Esse caso de aparente altruísmo suicida parece contrariar a Teoria da Evolução. Afinal, a seleção natural não é uma escolha de características que beneficiem a coletividade nem o indivíduo. Ela nada mais é que o sucesso de certos genes em se replicar num determinado ambiente. Seguem adiante não necessariamente aqueles que expressam um comportamento que faz o indivíduo viver melhor, mas que o deixa mais apto a passar seus genes para a frente. Nesse ponto não há moral nem empatia. Para os genes, segundo Richard Dawkins, autor de “O Gene Egoísta”, os seres vivos nada mais são do que máquinas de sobrevivência do DNA.

 

Não importa o bem-estar dessa máquina – caso contrário, não envelheceríamos, não teríamos doenças nem morreríamos. O que importa é que ela consiga se reproduzir em mais máquinas que carreguem seus genes. Então, o comportamento suicida das abelhas operárias parece ir contra a lógica dos genes egoístas. Afinal, a morte de sua máquina de sobrevivência significa menos chances de que eles sejam passados adiante. Mas, há um detalhe que muda tudo isso. A reprodução de animais sociais como formigas, abelhas e vespas: enquanto a imensa maioria das espécies de reprodução sexuada compartilha metade dos genes maternos e metade dos paternos, estes compartilham metade dos genes da mãe e todos os genes do pai.

 

Aí é só fazer a conta: irmãs dessas espécies compartilham entre si 75% dos genes, enquanto, se tivessem filhos, estes teriam apenas 50% dos seus genes. Ou seja, é mais interessante para as abelhas fêmeas transformar sua mãe numa máquina de produzir irmãs (ou, posto de forma mais elegante, numa rainha) do que ter filhos próprios. O que parece ser o mais altruísta dos comportamentos – literalmente abrir mão de sua vida para o benefício da colmeia – é, na verdade, a expressão máxima do egoísmo dos genes.

 

É o que acontece com as relações familiares. Para o gene egoísta, tanto faz se sua cópia estiver numa máquina de sobrevivência ou em outra. O que interessa é que ele se replique o máximo de vezes possível. Como indivíduos aparentados compartilham cópias dos mesmos genes, o cuidado mútuo de parentes para assegurar sua sobrevivência e sua reprodução é uma estratégia altruísta muito eficiente. E aí chegamos a uma das grandes questões da humanidade: por que o amor existe se o sexo já basta para a nossa reprodução?

 

A resposta pode estar na replicação dos genes. Homens não podem ter filhos sozinhos, e tampouco as mulheres. Um precisa do DNA do outro. Esse problema se resolveria com o sexo casual à moda dos cachorros de rua. Mas, em “O Banquete”, de Platão, o poeta Aristófanes definiu a natureza dos humanos diferente – seriam unidades completas, “de forma esférica, com costas e flancos arredondados, com quatro mãos, o mesmo número de pernas, dois rostos totalmente idênticos, mas uma cabeça única para o conjunto desses dois rostos opostos um ao outro”. Uns, descendentes do Sol, tinham duas partes masculinas; outros, descendentes da Terra, tinham duas partes femininas. Isso lhes dava uma força tamanha que os fez escalar o céu para combater os deuses.

 

Zeus, em punição, cortou-os em dois, nascendo a divisão entre homem e mulher. Acabou- se então a unidade e a felicidade humana, e cada metade passou a procurar seu correspondente para recuperar a completude. Claro, isso é mitologia. Não tem validade científica. Mas, como metáfora, explica a busca obsessiva pela cara-metade, que é a essência do amor romântico.

 

(Disponível em: https://super.abril.com.br/especiais/a-genetica-do-amor/– texto adaptado especialmente para esta prova).

Ao introduzir a passagem de “O Banquete” que descreve a origem mítica da separação entre homem e mulher e a busca pela completude, o autor realiza uma estratégia argumentativa e discursiva específica. Assinale a alternativa que melhor descreve a relação estabelecida entre a explicação biológica (o gene egoísta) e o recurso mitológico, considerando o gênero textual, a distinção entre fato e opinião e o efeito de sentido pretendido.
  1. AA intenção do autor é utilizar o trecho de Platão, que pertence ao gênero da mitologia, como um recurso de argumentação por analogia metafórica. O autor reconhece que a mitologia “não tem validade científica”, mas a emprega para ilustrar e explicar, simbolicamente, a “busca obsessiva pela cara-metade”, oferecendo um contraponto cultural à explicação da replicação genética como base para a formação de laços humanos.
  2. BO recurso a Platão é empregado como um argumento de autoridade secundário, estabelecendo uma relação de causa e efeito com o comportamento dos insetos sociais, provando que a separação dos gêneros era inevitável para a passagem dos genes adiante.
  3. CO autor utiliza o mito de Zeus e a subsequente busca pela “cara-metade” para refutar completamente a ideia de que o amor possa ser reduzido à replicação genética, priorizando a opinião filosófica sobre o fato científico.
  4. DO trecho de “O Banquete” constitui a ideia principal do texto, servindo de base para a explicação do altruísmo dos insetos e da função do gene egoísta. A inclusão da mitologia visa confundir o leitor, subentendendo que todas as formas de busca por união (biológica ou romântica) são igualmente válidas no campo da ciência evolutiva.
  5. EA menção à mitologia platônica tem como principal efeito de sentido demonstrar que, como o amor existe mesmo que o sexo baste para a reprodução, a explicação biológica é insuficiente e deve ser substituída por narrativas que explicam a unidade humana.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — A intenção do autor é utilizar o trecho de Platão, que pertence ao gênero da mitologia, como um recurso de argumentação por analogia metafórica. O autor reconhece que a mitologia “não tem validade científica”, mas a emprega para ilustrar e explicar, simbolicamente, a “busca obsessiva pela cara-metade”, oferecendo um contraponto cultural à explicação da replicação genética como base para a formação de laços humanos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Estratégia argumentativa: mito como analogia metafórica

Gabarito: letra A. O autor emprega o mito de Platão como argumentação por analogia metafórica, reconhecendo que a mitologia “não tem validade científica”, mas usando-a para ilustrar simbolicamente a “busca obsessiva pela cara-metade”, em contraponto cultural à explicação genética. A passagem que ancora essa leitura está no último parágrafo: “Claro, isso é mitologia. Não tem validade científica. Mas, como metáfora, explica a busca obsessiva pela cara-metade, que é a essência do amor romântico.”

O comando pede que você identifique a relação entre a explicação biológica (gene egoísta) e o recurso mitológico, considerando gênero textual, fato × opinião e efeito de sentido. Isso é uma questão de interpretação — a resposta não está literal, mas é deduzida de pistas claras do texto. A pista decisiva é o conectivo “Mas” e a palavra “metáfora”, que mostram que o autor não abandona a ciência, apenas a complementa com uma imagem cultural.

O texto é dissertativo-argumentativo: o autor defende a tese de que o amor tem base genética (gene egoísta), mas reconhece que a ciência não explica tudo — daí recorrer ao mito como ilustração, não como prova. A distinção fato × opinião é central: o autor marca claramente que a mitologia “não tem validade científica” (fato: é mito), mas a usa como metáfora (opinião/efeito de sentido). A alternativa A captura exatamente essa dualidade: o mito é um contraponto cultural, não uma refutação da biologia.

A armadilha central da questão é a extrapolação: várias alternativas atribuem ao autor intenções que ele não declara — como “refutar completamente” (C), “provar a inevitabilidade” (B) ou “substituir a explicação biológica” (E). O texto nunca diz isso; ele apenas complementa a explicação científica com uma metáfora cultural. A banca testa se você percebe que o mito é um recurso ilustrativo, não um argumento de autoridade ou uma refutação.

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora transformar um recurso ilustrativo em refutação ou prova. O autor não abandona a genética; ele a complementa com uma metáfora. Desconfie de verbos fortes como “refutar”, “provar”, “substituir” — o texto usa “explica”, “ilustra”, “como metáfora”.

1Mito de Platão
Sem validade científica
Metáfora da busca pela cara-metade
2Explicação biológica
Gene egoísta
Base do amor
3Relação entre as duas
Complementa (não refuta)
Contraponto cultural
Estratégia argumentativa
LEVELsoulevel.com.br
Estratégia argumentativa: Mito de Platão (Sem validade científica, Metáfora da busca pela cara-metade); Explicação biológica (Gene egoísta, Base do amor); Relação entre as duas (Complementa (não refuta), Contraponto cultural)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa descreve com precisão a estratégia: o autor usa o mito como analogia metafórica, reconhece que “não tem validade científica”, mas o emprega para ilustrar a “busca obsessiva pela cara-metade”. O texto confirma:

“Claro, isso é mitologia. Não tem validade científica. Mas, como metáfora, explica a busca obsessiva pela cara-metade, que é a essência do amor romântico.”

O conectivo “Mas” marca a oposição entre o status científico (mito não vale como fato) e o valor simbólico (vale como metáfora). A alternativa também acerta ao dizer que o mito oferece um “contraponto cultural” — o texto contrapõe a explicação genética (replicação dos genes) à explicação mítica (busca pela completude), sem que uma anule a outra. É a única que não extrapola.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto e extrapola. A alternativa diz que o mito é um “argumento de autoridade secundário” que “prova” a inevitabilidade da separação dos gêneros. O texto faz o oposto: chama o mito de “mitologia” e afirma que “não tem validade científica”. Não há relação de causa e efeito entre o mito e o comportamento dos insetos — o mito é introduzido depois da explicação genética, como ilustração do amor romântico, não como causa da separação dos gêneros. A palavra “provando” é a pista do erro: o autor não prova nada com o mito.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: extrapola e contradiz o texto. A alternativa afirma que o autor “refuta completamente” a ideia de que o amor se reduz à replicação genética. O texto não refuta nada; ele complementa. O autor mantém a explicação genética como base (o gene egoísta explica o altruísmo e o amor), e o mito serve apenas como metáfora para a “busca obsessiva pela cara-metade”. Não há “priorização da opinião filosófica sobre o fato científico” — o autor diz explicitamente que o mito “não tem validade científica”. A palavra “completamente” é o alerta: o texto não faz afirmações absolutas desse tipo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapola e contradiz o texto. A alternativa diz que o trecho de “O Banquete” é a “ideia principal do texto” e que a mitologia “visa confundir o leitor”. Isso é um duplo erro. Primeiro, a ideia principal do texto é a explicação genética do amor (o gene egoísta), não o mito — o mito é um recurso ilustrativo no final. Segundo, o autor não quer “confundir” ninguém; ele quer ilustrar com uma metáfora. A alternativa também erra ao dizer que “todas as formas de busca por união são igualmente válidas no campo da ciência evolutiva” — o texto marca claramente que o mito não tem validade científica.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapola e contradiz o texto. A alternativa afirma que a menção ao mito demonstra que “a explicação biológica é insuficiente e deve ser substituída por narrativas”. O texto não diz isso. O autor não substitui a biologia; ele a complementa com uma metáfora cultural. A pergunta “por que o amor existe se o sexo já basta?” é respondida pela genética (replicação dos genes), e o mito é apenas uma ilustração da busca pela completude. A palavra “substituída” é a pista do erro: o autor mantém a explicação genética como válida, apenas acrescenta uma dimensão simbólica.

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões sobre estratégia argumentativa, grife os conectivos (“Mas”, “porém”, “portanto”) e as palavras avaliativas (“metáfora”, “mitologia”, “não tem validade científica”). Eles revelam a relação entre as ideias — aqui, o “Mas” mostra que o mito é um contraponto, não uma refutação.

Gabarito: letra A. A única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a que reconhece o mito como analogia metafórica — um recurso ilustrativo que complementa, sem refutar, a explicação genética.

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