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Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — FUNDATEC 2025

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
qa674351
Banca
FUNDATEC
Órgão
UFRGS
Ano
2025
Cargo
Ass Adm ( )

Logo ali

 

Por Helô Bacichetti

 

Há distâncias que cabem numa esquina. O longe, às vezes, é só um tempo que se encolhe, um retrato que sorri do nada, um nome que volta sem ser chamado. A gente caminha quilômetros sem sair do lugar, porque dentro da memória, as distâncias se redesenham. Quando o longe é logo ali, não é o espaço que importa, mas a sensação de que o que parecia distante está mais perto do que se imagina.

 

Moro num estado que já nasce grande no nome. O que chamam de rio grande é também terra grande do Sul: campos que se estendem até onde o olhar alcança, serras que recortam o horizonte e estações que mudam quase de repente, como se as horas carregassem as quatro num só dia.

 

Quando eu era criança, saía com meus primos para nadar no rio Tomé, em Cazuza Ferreira. Um deles sempre dizia, quando se tratava de distância, que era logo ali. Mas esse “logo ali” era um longe que cansava as pernas, e ainda assim, parecia perto quando a gente ria pelo caminho. Descobri cedo que a distância não é igual para todos: depende da pressa, da companhia, até do humor.

 

Barbosa Lessa, que fez da tradição gaúcha sua matéria de escrita, lembrava desses modos de medir o mundo. O tropeiro dizia que o destino estava “a duas mateadas de distância”. Outro, quando lhe perguntavam se faltava muito, respondia: “Bah, guri, é ali adiante. Mas não te apura, que a pressa só faz o pingo suar antes da hora”. Assim, para o campeiro, longe e perto deixam de ser coordenadas e se transformam em conversa, pausa e paisagem.

 

Alguns dias atrás, percorri cidades que, para mim, guardam uma distância incalculável. De Caxias a Uruguaiana, depois Alegrete, São Borja, de lá para Porto Alegre e, por fim, de Porto Alegre de volta para Caxias. Olhando as paisagens pelo caminho, percebi algo curioso: mesmo sendo tão distantes da minha verdadeira origem, eu me via naquele percurso. Enquanto o caminho se desdobrava, cada curva da estrada, cada rio e cada horizonte pareciam me lembrar de que, em alguns momentos, a distância não se mede em quilômetros, mas em familiaridade que carregamos dentro de nós.

 

Tenho em meu sangue, como tantos brasileiros, traços italianos, indígenas, alemães, franceses e portugueses. Talvez por isso me sinta um pouco nômade, sempre disposta a abraçar um pedaço do coração de cada cidade. No fundo, aprendi que o mundo é maior do que qualquer mapa e que a verdadeira grandeza está em reconhecer-se nos caminhos e pertencer, ainda que um pouco, a todos os lugares por onde se passa.

 

(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/helo-bacichette/noticia/2025/09/logo-alicmfreezeq02h4014yt2jak6ia. html – texto adaptado especialmente para esta prova).

Analise as assertivas a seguir a respeito do uso de recursos coesivos no texto, assinalando, V, se verdadeiras, ou F, se falsas.   ( ) O referente da expressão “as quatro” é “serras”.   ( ) A palavra “percurso” substitui “caminho” , a fim de evitar a repetição de termos.   ( ) O pronome demonstrativo “isso” introduz o trecho subsequente: “sempre disposta ___ abraçar um pedaço do coração de cada cidade”.   A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é:
  1. AF – V – F.
  2. BV – F – V.
  3. CF – F – V.
  4. DV – V – F.
  5. EF – V – V.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — F – V – F.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coesão referencial: anáfora, catáfora e substituição lexical — Gabarito: letra A (F – V – F).

A questão testa a identificação dos referentes de elementos coesivos e a função de pronomes no texto. A primeira assertiva é falsa, pois “as quatro” retoma “estações”, não “serras”. A segunda é verdadeira, pois “percurso” substitui “caminho” para evitar repetição. A terceira é falsa, pois o pronome “isso” retoma (anáfora) o que foi dito antes, e não introduz o trecho subsequente (catáfora). A sequência correta é F – V – F, letra A.

Desenvolvimento

1. O comando

O enunciado pede para analisar o uso de recursos coesivos e classificar cada assertiva como verdadeira (V) ou falsa (F). Isso exige localizar no texto o referente de cada expressão e identificar se o mecanismo é anafórico (retoma algo dito antes) ou catafórico (antecipa algo que virá depois). Não é uma questão de opinião: cada resposta precisa ser provada com o trecho do texto.

2. O texto

O texto “Logo ali”, de Helô Bacichetti, discute a relatividade das distâncias. No segundo parágrafo, a autora descreve o Rio Grande do Sul: “campos que se estendem até onde o olhar alcança, serras que recortam o horizonte e estações que mudam quase de repente, como se as horas carregassem as quatro num só dia”. É nesse trecho que mora a primeira assertiva. No quinto parágrafo, ela narra um percurso: “percorri cidades... Olhando as paisagens pelo caminho... cada curva da estrada, cada rio e cada horizonte pareciam me lembrar de que, em alguns momentos, a distância não se mede em quilômetros, mas em familiaridade que carregamos dentro de nós”. É aí que aparece a substituição de “caminho” por “percurso”. No último parágrafo, o pronome “isso” aparece em “Talvez por isso me sinta um pouco nômade” — e é sobre ele que trata a terceira assertiva.

3. A técnica que decide

Coesão referencial é o mecanismo que liga termos do texto por meio de pronomes, sinônimos, hiperônimos etc., evitando repetições. Quando o elemento coesivo retoma algo que já foi dito, temos anáfora; quando antecipa algo que ainda virá, temos catáfora. A banca adora inverter esses conceitos: ela diz que “isso” introduz o trecho seguinte, mas, no texto, “isso” retoma a ideia anterior (a mistura de origens). Para acertar, é preciso voltar ao texto e ver o que cada pronome substitui.

4. O gancho

Teste cada assertiva perguntando: o texto autoriza esta afirmação, ou ela exige acrescentar algo de fora? No caso, a primeira assertiva troca o referente de “as quatro” (diz “serras” quando o texto diz “estações”); a segunda é uma paráfrase fiel do mecanismo de substituição; a terceira inverte anáfora por catáfora. A única sequência que respeita o texto é F – V – F.

1Anáfora
Retoma termo anterior
Ex.: "isso" (retoma mistura de origens)
2Catáfora
Antecipa termo posterior
3Substituição lexical
Evita repetição
Ex.: "percurso" no lugar de "caminho"
Coesão referencial
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Coesão referencial: Anáfora (Retoma termo anterior, Ex.: "isso" (retoma mistura de origens)); Catáfora (Antecipa termo posterior); Substituição lexical (Evita repetição, Ex.: "percurso" no lugar de "caminho")

Item I — ❌ Falsa

A assertiva afirma que “as quatro” se refere a “serras”. Errado. No trecho:

“...serras que recortam o horizonte e estações que mudam quase de repente, como se as horas carregassem as quatro num só dia.”

O pronome “as quatro” retoma “estações” — são as quatro estações do ano que as horas “carregam” num só dia. A banca trocou o referente: colocou “serras” no lugar de “estações”. Isso é um erro clássico de troca de referente.

Item II — ✅ Verdadeira

A assertiva afirma que “percurso” substitui “caminho” para evitar repetição. Correto. No texto:

“Olhando as paisagens pelo caminho... Enquanto o caminho se desdobrava, cada curva da estrada...”

A palavra “percurso” aparece logo depois: “eu me via naquele percurso”. Ela retoma a ideia de “caminho” sem repetir a mesma palavra. Isso é substituição lexical, um recurso de coesão referencial. A assertiva está perfeita.

Item III — ❌ Falsa

A assertiva afirma que o pronome “isso” introduz o trecho subsequente: “sempre disposta a abraçar um pedaço do coração de cada cidade”. Errado. No texto:

“Tenho em meu sangue, como tantos brasileiros, traços italianos, indígenas, alemães, franceses e portugueses. Talvez por isso me sinta um pouco nômade...”

O “isso” retoma a informação anterior (a mistura de origens), ou seja, é uma anáfora, não uma catáfora. Ele não introduz o trecho seguinte; ele faz referência ao que já foi dito. A banca inverteu o mecanismo.

Conclusão

A sequência correta é F – V – F, portanto a alternativa A é o gabarito. A banca explorou duas pegadinhas: a troca de referente (serras × estações) e a inversão anáfora/catáfora. Para não cair, sempre volte ao texto e pergunte: o pronome retoma o quê? Antecipa o quê?

NÃO CAIA NESSA!

A banca troca o referente de “as quatro” (diz “serras” quando o texto diz “estações”) e inverte anáfora por catáfora no “isso”.

PEGA ESSA DICA!

Sublinhe o pronome e procure o termo que ele substitui antes (anáfora) ou depois (catáfora). Se o pronome retoma algo já dito, é anáfora — nunca diga que ele “introduz” o que vem depois.

Gabarito: letra A

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