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Questão de Português — Figuras de Linguagem — Avança SP 2025

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
qa674576
Banca
Avança SP
Órgão
Pref SM Arcanjo
Ano
2025
Cargo
Med (SM Arcanjo)

Há um silêncio estranho que atravessa os corredores da universidade. Não é o silêncio fértil da pesquisa em gestação, nem a pausa necessária de uma biblioteca que guarda segredos. É um silêncio saturado de ruídos artificiais: o clique incessante de formulários digitais, o acúmulo de PDFs em repositórios, a sucessão interminável de congressos que repetem fórmulas gastas. Publica-se como nunca; pensa-se como nunca tão pouco. O que antes era obra transformou-se em produto; o que antes era criação tornou-se estatística.

 

Sob o neoliberalismo, a universidade deixou de ser refúgio dos “excêntricos” e transformou-se em fábrica de autopromoção. O pesquisador, em vez de intelectual público, converteu-se em gestor de si mesmo. Administra sua vida como uma empresa, contabiliza citações como moedas, transforma relatórios em capital simbólico. Não há mais tempo para o fôlego longo de uma obra; o tempo agora é o do ciclo quadrienal, do edital, da métrica.

 

(...) Hoje, o pesquisador escreve sem se reconhecer no que publica; fala sem ser ouvido; produz sem dialogar. É o trabalho alienado em sua forma acadêmica: a teoria como mercadoria, o artigo como moeda, o currículo como mercadoria-espelho.

 

E, no entanto, nem sempre foi assim. No passado, havia frestas que poderiam ser mais exploradas do que atualmente. Florestan Fernandes dedicava anos à elaboração de livros que não eram apenas reflexões sociológicas, mas instrumentos de intervenção histórica. Miguel Nicolelis, com seus projetos de grande fôlego, recusa a lógica imediatista da produtividade compulsiva, apostando na ciência como um agente de transformação social. Oswaldo Cruz e Carlos Chagas, com suas pesquisas de longa duração e campanhas de saúde pública, lembravam que a ciência é antes de tudo compromisso com a vida social, e não corrida por estatísticas. Cada um deles habita, hoje, o lugar da quase impossibilidade: seriam punidos pelo tempo que ousaram dedicar à obra, seriam penalizados por publicar “pouco”, seriam corrigidos por não obedecerem ao formato imposto pelas métricas. (...)

 

TELES, Gabriel. O deserto da imaginação e as ruínas da universidade neoliberal. Le Monde Diplomatique. 27 ago. 2025. Disponível em <https://diplomatique.org.br/o-deserto-da-imaginacao-e-as-ruinas-da-universidade-neoliberal/>.

Leia o texto a seguir para responder à questão.   “Há um silêncio estranho que atravessa os corredores da universidade.” Assinale a alternativa que apresenta a figura de linguagem que se encontra no trecho acima, seguida de sua correta explicação.
  1. AMetonímia – O elemento “silêncio” é apresentado como a parte de um todo, representando uma ideia maior.
  2. BAntítese – No mesmo contexto, “silêncio” e “estranho” se apresentam como elementos opostos, contraditórios.
  3. CPerífrase – Existe uma redundância ao se fazer referência à noção sobre o “silêncio”.
  4. DProsopopeia – O ser abstrato “silêncio” é personificado, assumindo características humanas.
  5. ESinestesia – Há uma mistura de sensações ao se fazer referência ao “silêncio”.
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GabaritoD — Prosopopeia – O ser abstrato “silêncio” é personificado, assumindo características humanas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Prosopopeia: o silêncio que atravessa corredores

Gabarito: letra D. No trecho “Há um silêncio estranho que atravessa os corredores da universidade”, a figura de linguagem é a prosopopeia (ou personificação), pois o ser abstrato “silêncio” recebe uma ação tipicamente humana — atravessar —, como se tivesse movimento e intenção próprios. A passagem que ancora a resposta é o próprio enunciado: o verbo “atravessar” é atribuído a um substantivo abstrato, o que configura a personificação.

O comando da questão

A banca pede que você identifique a figura de linguagem presente no trecho e, em seguida, assinale a explicação correta. Isso significa que não basta reconhecer o nome da figura; é preciso justificar por que ela ocorre, ou seja, apontar o mecanismo linguístico que a caracteriza. Em questões de figuras de linguagem, o caminho é: (1) localizar o desvio do sentido literal; (2) identificar o tipo de desvio (aproximação, oposição, substituição, personificação etc.); (3) conferir se a explicação da alternativa corresponde exatamente a esse mecanismo.

O texto e o efeito de sentido

O texto de Gabriel Teles critica a universidade neoliberal, marcada pela produtividade vazia. A frase inicial — “Há um silêncio estranho que atravessa os corredores da universidade” — já instaura o tom crítico: o silêncio não é um mero estado, mas algo que age, que percorre os espaços. Ao atribuir a um substantivo abstrato (silêncio) uma ação própria de seres animados (atravessar), o autor cria uma imagem personificada, tornando o silêncio quase um personagem que percorre a instituição. Essa personificação reforça a ideia de que o silêncio não é passivo, mas ativo — um sintoma da crise que “atravessa” a universidade.

A técnica: como reconhecer a prosopopeia

A prosopopeia (ou personificação) consiste em atribuir ações, sentimentos ou características humanas a seres inanimados, abstratos ou irracionais. O verbo “atravessar” é o gatilho: ele exige um sujeito que se desloque, que tenha movimento — algo que o silêncio, em sentido literal, não pode fazer. Portanto, há uma transferência de sentido que humaniza o abstrato. Veja o mecanismo:

Elemento

Função no trecho

“silêncio”

ser abstrato, sujeito da ação

“atravessa”

verbo de movimento, próprio de ser animado

“corredores”

espaço físico percorrido

A combinação “silêncio atravessa” é o que configura a personificação. Se o autor dissesse “há silêncio nos corredores”, teríamos sentido literal, sem figura. É o verbo que cria o desvio.

Análise das alternativas

Prosopopeia (personificação)
  • 1Atribui ação humana a ser abstrato
    • "silêncio atravessa"
  • 2Verbo é a pista
    • Movimento próprio de ser animado
  • 3Distingue de outras figuras
    • Metonímia: substituição por proximidade
    • Antítese: oposição de termos
    • Perífrase: substituição por expressão
    • Sinestesia: mistura de sentidos
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Metonímia é a substituição de um termo por outro com relação de proximidade (autor pela obra, parte pelo todo, etc.). No trecho, não há substituição: o “silêncio” não representa outra coisa, ele é o próprio elemento personificado. A explicação dada (“parte de um todo”) não se aplica, pois não há relação de contiguidade. Erro: troca de conceito — confunde prosopopeia com metonímia.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Antítese exige a aproximação de termos de sentidos opostos (ex.: “amor e ódio”). No trecho, “silêncio” e “estranho” não são opostos; “estranho” é um adjetivo que qualifica o silêncio, não um termo contrário. Não há oposição, há qualificação. Erro: troca de conceito — a banca tenta atrair quem confunde “estranho” com algo contraditório.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Perífrase (ou antonomásia) é a substituição de um nome por uma expressão que o designa (ex.: “Cidade Maravilhosa” por Rio de Janeiro). No trecho, não há substituição nem redundância; “silêncio estranho” é uma expressão direta, sem rodeios. A explicação fala em “redundância”, o que não ocorre. Erro: troca de conceito — confunde perífrase com pleonasmo/redundância.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Prosopopeia (personificação) é exatamente o que ocorre: o ser abstrato “silêncio” é personificado, pois “atravessa” os corredores, ação própria de seres animados. A explicação da alternativa está correta: “O ser abstrato ‘silêncio’ é personificado, assumindo características humanas.” O verbo “atravessar” é a pista decisiva — ele humaniza o silêncio, dando-lhe movimento e intencionalidade.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Sinestesia é a mistura de sensações de sentidos diferentes (ex.: “perfume doce e quente” — olfato + paladar + tato). No trecho, não há mistura de sentidos; o silêncio é apenas personificado. A explicação fala em “mistura de sensações”, o que não se verifica. Erro: troca de conceito — a banca oferece uma figura que também envolve desvio sensorial, mas não é o caso.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre figuras que envolvem desvio de sentido (metonímia, sinestesia) e a personificação. A chave é identificar quem pratica a ação: se um ser abstrato age como humano, é prosopopeia.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de figuras, grife o verbo que acompanha o termo destacado. Se o verbo indica ação humana (atravessar, sorrir, chorar) aplicada a algo não humano, é prosopopeia.

Conclusão: a única alternativa que identifica corretamente a figura e explica seu mecanismo é a letra D. As demais ou trocam o conceito ou apresentam explicações que não correspondem ao trecho. Lembre-se: a prosopopeia humaniza o que não é humano — e o silêncio, aqui, “atravessa” como uma pessoa.

Gabarito: letra D

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