Questão de Português — Figuras de Linguagem — Quadrix 2025
Português›Figuras de Linguagem
Código
qa674638
Banca
Quadrix
Órgão
CORE SP
Ano
2025
Cargo
Ana TI ( )
Instruções para dar corda no relógio
Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo.
Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o
pino da corda, puxe‑o suavemente. Agora se abre outro
prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm
regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si
mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de
uma mulher, o perfume do pão.
Que mais quer, que mais quer? Amarre‑o depressa
a seu pulso, deixe‑o bater em liberdade, imite‑o anelante.
O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser
alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do
relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis.
E lá no fundo está a morte se não corremos, e chegamos
antes e compreendemos que já não tem importância.
CORTÁZAR, Júlio. Histórias de Cronópios e de famas. São Paulo:
Editora Civilização Brasileira, 1994, p. 33‑34 (com adaptações).
Texto para a questão “e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.” Nesse trecho do texto, predomina a figura de linguagem denominada
Aanacoluto, pois há certa descontinuidade na ideia da frase.
Bsinestesia, pois as palavras aguçam os sentidos.
Cquiasmo, pois há uma espécie de gradação que vai e vem.
Ddisfemismo, pois a escolha das palavras é dura, insensível.
Ecatacrese, pois foi empregada uma metáfora cujo valor original já se perdeu.
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GabaritoB — sinestesia, pois as palavras aguçam os sentidos.
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Sinestesia: a mistura de sentidos no trecho de Cortázar
Gabarito: letra B. No trecho “e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão”, predomina a sinestesia, pois o autor combina sensações de diferentes sentidos — visão (“sombra”), olfato (“perfume”), tato (“brisas”) — numa mesma imagem poética. A passagem que ancora essa leitura é a enumeração de elementos que apelam a múltiplos canais sensoriais, criando uma experiência perceptiva integrada.
“e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.”
Aqui, “sombra” remete à visão, “brisas” ao tato, “perfume” ao olfato — e todos brotam de uma mesma fonte (o tempo). Essa fusão de sensações é a definição clássica de sinestesia.
O comando da questão
A questão pede que você identifique a figura de linguagem predominante no trecho. Isso é uma tarefa de interpretação de texto aplicada à estilística: não basta reconhecer a definição teórica; é preciso ver como o autor constrói a imagem e qual efeito sensorial ela provoca. O comando não pede “o que o texto diz”, mas “que recurso expressivo está em jogo” — então o foco está na linguagem conotativa e nos efeitos de sentido.
O texto e o movimento argumentativo
O texto de Cortázar é uma instrução poética para dar corda no relógio. No trecho destacado, o autor descreve o que acontece quando o tempo “se abre”: as árvores soltam folhas, os barcos correm, e do tempo brotam elementos sensoriais. A tese aqui é que o tempo, ao ser “dado corda”, gera vida e percepções — e o autor escolhe palavras que aguçam os sentidos para materializar essa ideia. A sinestesia é o recurso central porque mistura sensações de forma deliberada, criando uma experiência quase física no leitor.
A técnica que decide: o que é sinestesia?
Sinestesia é a figura de linguagem que mistura sensações de sentidos diferentes numa mesma expressão. Exemplos clássicos: “perfume doce” (olfato + paladar), “cores quentes” (visão + tato), “som aveludado” (audição + tato). No trecho, a mistura é explícita: “sombra” (visão), “brisas” (tato), “perfume” (olfato) — todos brotando do tempo, que é uma abstração. O autor transfere sensações de um sentido para outro, criando uma imagem sinestésica.
A pegadinha da banca está em oferecer figuras que parecem plausíveis mas não se sustentam no trecho:
Anacoluto (A) exige uma quebra sintática — um termo solto, sem função na oração. No trecho, a sintaxe é regular: “brotam” tem sujeito claro (“o ar, as brisas...”).
Quiasmo (C) é uma estrutura em cruz (ABBA), não uma gradação. Não há inversão simétrica aqui.
Disfemismo (D) é o oposto do eufemismo — uma palavra dura, grosseira. O trecho é poético e suave, não agressivo.
Catacrese (E) é uma metáfora cristalizada pelo uso (“braço da cadeira”). Aqui as imagens são originais e criativas, não desgastadas.
Análise das alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta
Anacoluto é uma figura de sintaxe em que um termo fica solta na frase, sem função sintática, como em “Eu, não sei o que fazer”. No trecho, a estrutura é gramaticalmente completa: “brotam” é verbo, e os elementos listados são sujeito. Não há descontinuidade sintática — a descontinuidade que se percebe é semântica (a mistura de imagens), não estrutural. A alternativa confunde quebra de sentido com quebra de sintaxe.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A sinestesia é a figura que mistura sensações de sentidos diferentes. No trecho, “sombra” (visão), “brisas” (tato) e “perfume” (olfato) são percepções de canais distintos que brotam juntas do tempo. O autor funde essas sensações para criar uma imagem multissensorial — exatamente o que define a sinestesia. A alternativa está perfeita ao dizer que “as palavras aguçam os sentidos”.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Quiasmo é uma figura de estrutura cruzada (ABBA), como em “não vivo para comer, como para viver”. Não há aqui inversão simétrica nem gradação que vai e vem — a lista é paralela e crescente, mas não em cruz. A alternativa inventa uma estrutura que não existe no trecho.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Disfemismo é o uso de palavras duras, grosseiras ou chocantes para designar algo (ex.: “bater as botas” para morrer). O trecho é poético e delicado — “sombra de uma mulher”, “perfume do pão” — não há aspereza alguma. A alternativa contradiz o tom do texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Catacrese é uma metáfora desgastada pelo uso cotidiano, como “pé da mesa” ou “braço da cadeira”. As imagens do trecho são originais e criativas — “o tempo como um leque”, “brotam o ar, as brisas” — não são expressões cristalizadas. A alternativa erra ao afirmar que o valor original já se perdeu; aqui, o valor é vivo e poético.
Conclusão
A questão testa sua capacidade de reconhecer a figura de linguagem pelo efeito que ela produz no texto. A sinestesia é a única que explica a mistura de sentidos presente no trecho. As demais alternativas ou confundem o conceito (anacoluto, quiasmo) ou invertem o tom (disfemismo) ou descaracterizam a originalidade (catacrese).
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar figuras de linguagem, pergunte-se qual efeito sensorial ou estrutural o trecho provoca. Se há mistura de sentidos (visão + olfato + tato), é sinestesia; se há quebra sintática, é anacoluto; se há palavra grosseira, é disfemismo; se há metáfora desgastada, é catacrese.