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Questão de Português — Conjunção — FUNDATEC 2025

PortuguêsConjunção
Código
qa675033
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref Três de Maio
Ano
2025
Cargo
Aux EI ( )

Nem todo suplemento alimentar é inofensivo

 

Por Mauro Proença

 

Acredito que, ao longo dos meus quatro anos aqui na Revista Questão de Ciência, tenha ficado bem claro meu posicionamento em relação  à maneira como suplementos alimentares são retratados na mídia e nas redes sociais. Com algumas exceções, as matérias e os posts são, em sua maioria, rasos, contam com a anuência de profissionais — que, aparentemente, não compreendem metodologia científica — e alimentam a falsa ideia de que problemas de saúde, ou mesmo questões cotidianas como indisposição, estresse e queda de cabelo, são fruto apenas do baixo consumo de algum micronutriente.

 

Assim, cria-se a narrativa de que a ingestão de uma pílula seria suficiente para resolver tudo — um discurso que nasce de um fisiologismo de boteco, ótimo para enganar um público mal-informado impressionado com jargões científicos e com a bioquímica do organismo, e também para encher o bolso das fabricantes. Apesar disso, preciso reconhecer que o marketing desenvolvido por essas empresas é admirável do ponto de vista da eficiência nas vendas. Há muitas estratégias envolvidas, mas as que mais chamaram a atenção, quando eu trabalhava em uma loja de suplementos, eram: a apresentação sugestiva do produto; a combinação de ingredientes que permitem alegações sobre efeitos na saúde com outros que, segundo a Anvisa, não as permitem; e, a minha favorita, patrocinar algum influenciador para falar bem do produto e afirmar que ele foi o divisor de águas para alcançar algum desfecho relevante de saúde.

 

Tomemos como exemplo um certo suplemento, produto que se propõe a melhorar a saúde cognitiva. É composto por magnésio, aminoácidos (triptofano, tirosina e arginina), vitaminas, resveratrol (composto presente na casca da uva vermelha, no vinho tinto e em outros alimentos) e fosfatidilserina, molécula que faz parte da membrana celular, muito presente no cérebro, e cuja redução, com o passar do tempo, está indiretamente ligada a prejuízos nas funções cerebrais. Segundo o material publicitário disponível, o tal suplemento melhora atenção, memória, aprendizado e função cognitiva, reduz sintomas de ansiedade e estresse e promove saúde cerebral e neuroproteção. Há até uma tabela relacionando ingredientes e supostos benefícios, como o resveratrol, descrito como “neuroprotetor e anti-inflamatório”, e a fosfatidilserina, que “melhoraria a atenção e a concentração” e “reduziria sintomas depressivos e ansiosos”. Meias-verdades desse tipo — válidas dentro do contexto limitado dos estudos que as originaram, geralmente realizados em animais ou in vitro, mas não em testes de boa qualidade em seres humanos — acabam ganhando suporte indireto por uma tecnicidade legal: a Instrução Normativa nº 28, de 26 de julho de 2018, que estabelece as listas de constituintes autorizados, limites de uso, alegações e rotulagem complementar dos suplementos alimentares.

 

Apesar da literatura científica sobre o tema ainda ser escassa, uma pesquisa recente conduzida pelo Instituto Locomotiva, em parceria com a farmacêutica Neo Química, entrevistou 1.408 pessoas de todas as regiões do país e constatou que 75% utilizam suplementos alimentares ou vitaminas. Entre as classes A e B, esse percentual sobe para 85%.

 

(Disponível em: https://super.abril.com.br/saude/nem-todo-suplemento-alimentar-e-inofensivo/ – texto adaptado especialmente para esta prova).

Analise as assertivas abaixo sobre o emprego e o valor semântico dos conectivos:

 

I. O pronome relativo “que” em “a Instrução Normativa nº 28, de 26 de julho de 2018, que estabelece as listas de constituintes autorizados” retoma o nome anterior (“Instrução Normativa nº 28”) e introduz uma oração subordinada adjetiva de caráter restritivo, delimitando a informação.

 

II. A locução conjuntiva “Apesar disso” no segundo parágrafo introduz uma ideia de ressalva ou oposição ao parágrafo anterior ao reconhecer a eficiência do marketing de vendas a despeito da crítica à sua base científica e ética.

 

III. O conectivo “ou mesmo” em “problemas de saúde, ou mesmo questões cotidianas como indisposição, estresse e queda de cabelo” estabelece uma coordenação alternativa, indicando que os problemas de saúde e as questões cotidianas são mutuamente excludentes.

 

Quais estão corretas?

  1. AApenas I.
  2. BApenas II.
  3. CApenas I e II.
  4. DApenas II e III.
  5. EI, II e III.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Apenas I e II.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Análise dos conectivos — Gabarito: letra C.

A questão pede a análise do valor semântico de três conectivos. A letra C é o gabarito porque apenas os itens I e II estão corretos. O item I está correto porque o pronome relativo "que" retoma "Instrução Normativa nº 28" e introduz oração subordinada adjetiva restritiva (sem vírgula, delimita o referente). O item II está correto porque "Apesar disso" estabelece oposição/ressalva entre a crítica à base científica e o reconhecimento da eficiência do marketing. O item III está incorreto porque "ou mesmo" não indica exclusão, mas inclusão/aditamento — soma "questões cotidianas" a "problemas de saúde", como se vê no trecho: "problemas de saúde, ou mesmo questões cotidianas como indisposição, estresse e queda de cabelo".

O comando

O enunciado pede para analisar o emprego e o valor semântico dos conectivos. Isso significa que a resposta depende de:

  1. Identificar a classe e a função do conectivo (pronome relativo, locução conjuntiva, conjunção coordenativa).

  2. Reconhecer a relação de sentido que ele estabelece no contexto (restrição, oposição, adição, alternância).

  3. Conferir se a descrição da assertiva corresponde ao que o texto realmente faz.

A banca não cobra decoreba de lista de conjunções, mas a aplicação do valor semântico ao trecho específico.

O texto

O texto critica a forma como suplementos alimentares são divulgados, apontando a fragilidade científica das alegações e a estratégia de marketing das empresas. No segundo parágrafo, o autor reconhece a eficiência do marketing, apesar da crítica anterior. No terceiro, menciona a Instrução Normativa nº 28 como suporte legal para as alegações. No primeiro, lista problemas de saúde e questões cotidianas como exemplos do que a mídia atribui à falta de micronutrientes.

A técnica: valor semântico dos conectivos

Conectivos são palavras ou locuções que ligam orações ou termos, estabelecendo relações de sentido. A classificação depende do valor semântico que assumem no contexto:

  • Oração subordinada adjetiva restritiva: introduzida por pronome relativo (que, o qual, cujo), sem vírgula, restringe o sentido do antecedente. Ex.: "O livro que comprei é ótimo" (restringe a qual livro).

  • Locução conjuntiva concessiva: "apesar de", "embora", "ainda que" — introduz uma ressalva, um fato que se opõe à ideia principal, mas não a impede. Ex.: "Embora chova, irei à praia".

  • Conjunção coordenativa alternativa: "ou", "ora...ora", "quer...quer" — indica alternância ou exclusão entre opções. Ex.: "Estude ou reprove".

Atenção: "ou mesmo" é uma expressão que adiciona um elemento a uma lista, com valor inclusivo, não excludente. Equivale a "e também", "ou ainda".

Análise das alternativas

Item I — ✅ Correto

O pronome relativo "que" em "a Instrução Normativa nº 28, de 26 de julho de 2018, que estabelece as listas de constituintes autorizados" retoma o nome anterior "Instrução Normativa nº 28" e introduz uma oração subordinada adjetiva restritiva, delimitando a informação. A ausência de vírgula antes do "que" confirma o caráter restritivo: a oração especifica qual Instrução Normativa, não acrescenta uma informação extra sobre ela. O trecho do texto:

"a Instrução Normativa nº 28, de 26 de julho de 2018, que estabelece as listas de constituintes autorizados"

A oração "que estabelece..." restringe o antecedente, indicando que se trata da IN que tem essa função específica. Portanto, o item está correto.

Item II — ✅ Correto

A locução conjuntiva "Apesar disso" no segundo parágrafo introduz uma ideia de ressalva ou oposição ao parágrafo anterior. O autor critica a base científica e ética do marketing, mas reconhece a eficiência das vendas. O trecho:

"Apesar disso, preciso reconhecer que o marketing desenvolvido por essas empresas é admirável do ponto de vista da eficiência nas vendas."

"Apesar disso" equivale a "apesar do que foi dito", "não obstante", estabelecendo uma concessão: reconhece-se algo que contrasta com a crítica anterior. Portanto, o item está correto.

Item III — ❌ Incorreto

O conectivo "ou mesmo" em "problemas de saúde, ou mesmo questões cotidianas como indisposição, estresse e queda de cabelo" não estabelece coordenação alternativa com exclusão mútua. Pelo contrário, "ou mesmo" tem valor inclusivo/aditivo, somando "questões cotidianas" à lista de "problemas de saúde". O trecho:

"problemas de saúde, ou mesmo questões cotidianas como indisposição, estresse e queda de cabelo"

A expressão "ou mesmo" funciona como "e também", "ou ainda", indicando que as questões cotidianas são exemplos adicionais do que a mídia atribui à falta de nutrientes, não alternativas excludentes. Portanto, o item está incorreto.

Conclusão

Apenas os itens I e II estão corretos, portanto o gabarito é a letra C. A banca explora a confusão entre o valor alternativo de "ou" e o uso inclusivo de "ou mesmo". Fique atento: conectivos como "ou mesmo", "ou ainda", "e/ou" têm valor aditivo, não excludente.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar conectivos, pergunte: a relação é de soma (adição), oposição (adversidade/concessão), alternância (exclusão) ou explicação? Teste substituindo por sinônimos: "ou mesmo" → "e também"; "apesar disso" → "não obstante".

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora usar "ou" em contextos inclusivos. Desconfie quando a assertiva afirmar "exclusão" ou "alternância" com "ou mesmo" — quase sempre é adição.

Gabarito: letra C

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